Não há vencedores no caso Caster Semenya



A sul-africana Caster Semenya corre para vencer os 800 m, na etapa de Doha da Liga Diamante (Crédito: Iaaf)

Na abertura da temporada 2019 da Liga Diamante de atletismo, nesta sexta (3), nenhuma prova chamou mais a atenção do que os 800 m feminino. Claro que ninguém esperava outra coisa que não fosse a vitória da sul-africana Caster Semenya. Medalha de ouro em Londres 2012 e Rio 2016, ela confirmou o favoritismo com o melhor tempo do ano e batendo o recorde do evento. Foi sua 30ª vitória consecutiva nos 800 metros rasos.

Triste é que pode ter sido a última vez em que se pode ver uma atleta tão predominante sobre as rivais em uma determinada prova. Ainda repercute muito a decisão tomada pela Corte Arbitral do Esporte (CAS), na última quarta-feira, que praticamente encerra a carreira da sul-africana.

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Na disputa entre Semenya e a Iaaf (Associação das Federações Internacionais de Atletismo), o painel do CAS decidiu que atletas com altas taxas de testosterona não poderão correr nas provas de 400 m rasos até a da Milha. A proibição começa a valer para este sábado (4).

Só poderão competir atletas com taxas de testosterona abaixo de 5 nanomols por litro de sangue durante pelo menos seis meses, antes de um evento da Iaaf. Assim, ou a atleta se submete a um tratamento de redução destas taxas ou terá que correr provas a partir dos 3.000 m.

Decisão que a própria CAS reconheceu existir por causa de um regulamento injusto, porém necessário, para defender a integridade de outras atletas.

O fato é que Caster Semenya está pagando por algo produzido por seu corpo. No caso, as taxas altas de hormônio masculino, que incontestavelmente lhe dão uma vantagem sobre as rivais.

Talvez muitos não se lembrem, mas a mesma Iaaf a obrigou a ficar um período longe das pistas, em 2009, fazendo uma série de exames. Foi liberada um ano depois, sem que nunca os resultados dos exames tivessem divulgados. Comenta-se no meio médico que os índices eram três vezes acima o limite permitido para mulheres.

Neste embate entre Semenya e a Iaaf, após uma persistente campanha de Sebastian Coe, presidente da entidade, não há vencedores.

Resistência

É um caso extremamente complexo, no qual é preciso ponderação ao analisá-lo.

Por um lado, causa indignação ver que Caster Semenya só poderá seguir nas pistas se for submetida a um rigoroso controle hormonal. Remédios que possivelmente lhe terão efeitos colaterais e queda na performance.

Em compensação, é preciso pensar também nas outras atletas. Na prova desta sexta-feira, por exemplo, ela ganhou com o tempo de 1m54s99, quase três segundos à frente da segunda colocada, Francine Niyonsaba, do Burundi. Ironia máxima é que Niyonsaba também estará proibida de correr a partir deste sábado, por causa dos altos índices de testosterona.

Um médico consultado pelo blog, mas que pediu anonimato, disse que o caso de Caster Semenya é idêntico ao da ex-judoca Edinanci Silva. A sul-africana sofre de DDS (Distúrbio de Diferenciação Sexual). Antigamente, era chamado de ambiguidade sexual. Edinanci se submeteu a uma cirurgia para poder competir na Olimpíada de Atlanta-1996. Uma opção, segundo esse especialista, que poderia ser adotada por Semenya, ao invés do tratamento hormonal.

O maior problema, na opinião deste médico, foi a demora da Iaaf em estabelecer algum tipo de corte nos níveis de testosterona. Esse demora só aumentou a dramaticidade em relação ao caso da sul-africana. Não se pode esquecer que há uma atleta que não fez nada de errado e está impedida de competir.

Um caso tão complexo de se analisar que permite discussões nos campo científico, ético e humanitário. E que me parece estar muito longe de ter encontrado seu capítulo final.

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