Breakdancing olímpico? A polêmica opção urbana do COI para ‘salvar’ a Olimpíada



Prova de dupla mista de breakdancing, que foi uma das modalidades em disputa nos Jogos da Juventude de Buenos Aires-2018 (Crédito: COI)

O anúncio das quatro modalidades que serão incluídas no programa esportivo da Olimpíada de Paris-2024 nesta quinta-feira (21) comprovou a tendência em tornar os Jogos Olímpicos cada vez mais “urbanos” e conectados com as novas gerações. Além de skate, surfe e escalada esportiva, que estarão presentes em Tóquio-2020, houve a inclusão do breakdancing, que integrou o programa da Olimpíada da Juventude de Buenos Aires-2018.

A proposta será analisada pelo comitê executivo do COI em junho, para uma aprovação provisória. A definição só acontecerá em dezembro de 2020, na Assembleia Geral da entidade.

Tudo dentro do script que o COI (Comitê Olímpico Internacional) vem adotando nos últimos anos, desde o lançamento da Agenda 20+20, em 2014.

O projeto, lançado pelo presidente da entidade, o alemão Thomas Bach, tem como objetivo declarado tornar as Olimpíadas mais “sustentáveis (leia-se mais baratas para sua organização) e busca conquistar um público que não tem mostrado o mesmo interesse pelo evento “Jogos Olímpicos”.

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Pesquisas no COI apontam queda interesse do público consumidor mais jovem nas Olimpíadas.

Mas a dúvida que eu tenho é se a estratégia de apostar nos tais “esportes urbanos” terá sucesso a médio e longo prazo.

Sem me deixar contaminar pela tentação de cair no discurso saudosista e da memória afetiva, convido o(a) amigo(a) que me lê aqui para uma reflexão.

O primeiro ponto, o econômico, é altamente positivo para estas modalidades mais voltadas a um público que não se vê representado nas Olimpíadas atualmente.

O caso do breakdancing é um deles. Não é necessário criar uma mega arena para que a modalidade seja disputada.

Nos Jogos da Juventude de Buenos Aires, por exemplo, ele acontecia na mesma quadra onde era realizado o basquete 3×3 (outro novo evento que haverá em Tóquio-2020, mais uma tentativa do COI em buscar a fonte da juventude).

Da mesma forma, são bem mais baratas instalações de modalidades como skate (o park exige mais obras, nada de extraordinário) e a escalada. O próprio surfe, que tem no mar sua “arena”, também não exige maiores investimentos.

O skate foi recomendado para o programa dois Jogos de Paris-2024 (Crédito: COI)

É fato também que no programa de 33 modalidades olímpicas existentes, muitas sofrem para atrais a atenção do público. O próprio COI pressionou dirigentes de alguns esportes tradicionais, como o wrestling ou levantamento de peso, por exemplo. Pediram mudanças em regras, mais categorias femininas, controle rígido de governança etc. Enfim, alterações que tornem estas modalidades mais interessantes ao torcedor.

Questão financeira

E há também o aspecto econômico. Basta uma pesquisa rápida para ver a quantidade de patrocinadores e volume de dinheiro que estão atrelados aos novos esportes, como no skate e no surfe. E se há uma chance de aumentar o tal “valor agregado” da festa olímpica, o COI obviamente não vai deixar escapar esta chance.

A estratégia de colocar modalidades com mais ligação à cidade-sede também me parece interessante. No caso, a cultura do breakdancing em Paris é muito forte. Da mesma forma que o beisebol/softbol e o caratê foram incluídos para Tóquio e agora foram retirados.

O que fica de ponto de interrogação para mim é o quanto estes novos esportes “urbanos” vão agregar de positivo para o evento Jogos Olímpicos num futuro próximo.

Todos deles, e até o breakdancing, têm vida própria, não dependem da Olimpíada para existirem. Com exceção do futebol, que tem na Copa do Mundo um evento tão grande em importância esportiva e financeira, nenhuma modalidade poderia pensar em sobreviver longe dos Jogos Olímpicos.

A impressão que eu tenho é que integrar a Olimpíada, para estas modalidades, é importante, mas não fundamental.

Mais do que enxertar novos esportes que agradam a um público consumidor específico, seria vital o COI realmente rever o seu caderno de encargos de candidaturas. Ou alguém não vê nenhum problema em que cidades e mais cidades estejam abrindo mão de poder organizar uma Olimpíada?

É saudável que o COI não fique atrelado ao passado. A busca permanente de evolução para os Jogos Olímpicos é ótima. O risco é que nesta corrida pela “modernização”, o evento passe a se descaracterizar e desagradar a um público mais tradicional (e que não pode ser menosprezado).

O equilíbrio é sempre o melhor caminho.

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