Baloubet Du Rouet, de vilão a herói



A famosa “refugada” de Baloubet Du Rouet, cavalo de Rodrigo Pessoa, na final individual dos saltos do hipismo, na Olimpíada de Sydney 2000 (Crédito: reprodução)

Tocantes e merecidas as homenagens feitas pelas redes sociais nesta sexta (18), sobre a morte do cavalo Baloubt Du Rouet. Em postagem no Instagram, o cavaleiro Rodrigo Pessoa não economizou nas palavras de carinho ao animal, com quem conquistou duas medalhas olímpicas no hipismo: bronze por equipes em Sydney-2000 e ouro na prova individual de saltos, em Atenas-2004. Ele morreu no início deste mês, em Portugal, onde vivia, aposentado, como reprodutor.

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Mais do que os feitos esportivos – foi montando Baloubet que Pessoa conquistou também o tricampeonato da Copa do Mundo (98/99/2000) -, as homenagens ao alazão corrigem uma injustiça. Por causa de uma “refugada”, na final em Sydney, Baloubet Du Rouet tornou-se o grande vilão do torcedor brasileiro na época.

É preciso voltar 17 anos no tempo para entender o motivo de tanta raiva. Em 2000, o COB (Comitê Olímpico do Brasil) havia se preparado como nunca para uma Olimpíada. Animado com a boa campanha no Pan-Americano de Winnipeg (Canadá), um ano antes, os dirigentes fizeram uma preparação cuidadosa para os Jogos de Sydney.

Pela primeira vez, criou-se uma base para a aclimatação dos atletas brasileiros, no Instituto Australiano de Esportes. Foram feitos estudos para adaptação ao fuso horário e ao clima (a Olimpíada foi realizada na primavera, em setembro, com muitas variações de temperatura). A cobertura da imprensa também foi a maior até então, graças também aos canais especializados em esporte e também os portais de internet.

Tudo estava pronto para registrar uma grande festa. Mas a realidade foi bem diferente.

Por motivos diversos, os brasileiros foram batendo na trave e ficando longe das medalhas de ouro. Um festival de pratas e bronzes como nunca se viu antes. Inclusive de favoritos absolutos, como a dupla de vôlei de praia Adriana Behar e Shelda ou de Robert Scheidt, na classe laser, da vela.

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A Olimpíada ia chegando ao fim e nada da medalha de ouro sair. A tensão entre os dirigentes do COB era visível. O Brasil chegou ao último dia dos Jogos com uma campanha inferior à edição anterior, em Atlanta-1996, quando foram conquistadas 15 medalhas (três de ouro, três de prata e 9 de bronze), a melhor da história até então. Em Sydney, a conta estava em 12 pódios, seis pratas e seis bronzes. Mesmo com um investimento maior.

A esperança estava no último dia, 1º de outubro, final individual de saltos, no hipismo. Rodrigo Pessoa e Baloubet Du Roet eram candidatíssimos ao ouro. Na eliminatória, o conjunto havia zerado o percurso. Na final, os principais adversários foram cometendo faltas. Bastava Rodrigo e Baloubet cumprirem o roteiro esperado e o título olímpico estaria garantido.

Uma falta logo no primeiro obstáculo fez com que o cavalo do brasileiro perdesse a confiança. Um esforço enorme para superar um triplo e em seguida, a refugada e depois a eliminação. O sonho do ouro tinha ido pelo ralo. Ao retornar ao Brasil dias depois, percebi que a recusa de Baloubet em saltar aquele obstáculo virou para muita gente o símbolo da frustrante campanha naquela Olimpíada. Uma grande injustiça.

Quis o destino que o esporte consertasse isso. Quatro anos depois, Rodrigo e Baloubet estavam juntos novamente, nos Jogos de Atenas. A medalha de prata no individual já seria uma conquista memorável, até que veio a confirmação de que o cavalo do irlandês Cian O’Connor havia competido dopado. Era a quinta medalha de ouro para o Brasil naquela Olimpíada, igualando a marca de 1996. O “cavalo amarelão” de Sydney passou a ser o herói de Atenas.

Em um país que adora criar vilões para justificar suas falhas, Baloubet Du Rouet merece todas as homenagens.



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