“Vou lidar com um problema por vez, do contrário teria uma úlcera”, diz Agberto



Como prometido, aqui está a segunda parte da entrevista exclusiva que concedeu ao blog, o novo diretor executivo de esportes do COB (Comitê Olímpico do Brasil), Agberto Guimarães. Após ter esmiuçado seus planos para o próximo ciclo olímpico e explicado como foi o processo de distribuição dos recursos da Lei Agnelo/Piva, agora o dirigente comenta a delicada situação que algumas importantes confederações brasileiras passam no momento.

Ele fala, por exemplo dos problemas financeiros e judiciais que atormentam a vida da CBDA (Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos) e de seu presidente Coaracy Nunes. Ele também negou que o COB já esteja trabalhando em uma espécie de intervenção da CBB (Confederação Brasileira de Basquete) e diz que aguarda uma posição da Fiba (Federação Internacional de Basquete), que suspendeu a entidade brasileira.

Guimarães também opinou sobre um caso levantado pelo blog na última semana, sobre a polêmica envolvendo duas confederações que brigam pela organização do skate olímpico brasileiro. Por fim, evita fazer projeções de resultados e apostas em modalidades neste ciclo olímpico, pois ainda está se reunindo com cada confederação e esmiuçando o planejamento de cada uma delas.

Confira abaixo a segunda parte da entrevista com Agberto Guimarães

Laguna Olímpico: Agberto, a natação é sempre uma modalidade que o COB vê com atenção para projeção de resultados. Como vocês estão encarando a situação da CBDA, com sua crise política e financeira? 

Agberto Guimarães: Tudo o que for extracampo, deixamos que as confederações lidem com isso. Não é papel do COB julgar se a confederação está sendo punida, processada etc. Isso é problema deles. Problema de patrocínio também é algo que as próprias entidades, especialmente as mais organizadas, com seus departamentos comerciais ou de marketing, têm que lidar. Eu vou trabalhar com eles do outro lado. A natação é um esporte importantíssimo para o movimento olímpico, não só do Brasil como do mundo inteiro, e que tem a chance de disputar várias medalhas em todos os campeonatos que participamos. Olhamos para isso com muito carinho, reunindo com o departamento técnico das confederações, para que nos apresentem os planos para os próximos anos, como sairão daqui para 2020. O que farão de diferente para ter mais sucesso do que tiveram no Rio de Janeiro.

É natural que se entenda o seguinte: o número de atletas que esteve no Rio, em todas as modalidades, foi infinitamente superior a qualquer outra participação do Brasil em qualquer edição dos Jogos, porque foi organizado no Rio. Tínhamos vaga praticamente em todas as disciplinas. Significa que o Brasil tinha assegurado direito de participar em todos os eventos.

Não é ruim ir para o Mundial um ano depois da Olimpíada com menos atletas. Não é só por questão de recursos. Isso é uma coincidência. Normalmente no primeiro ano do ciclo olímpico é de baixo. Os atletas foram ao Olimpo, competindo no evento mais importante que são os Jogos Olímpicos e no ano seguinte há uma pequena ressaca. Alguns atletas decidem descansar um pouco, é também um período em que algumas atletas decidem engravidar, pois terão tempo para treinar mais adiante. Outros ainda mudam de prova. A Sarah Menezes, por exemplo, já começa a treinar na categoria acima da dela no judô.

Talvez a gente tenha uma coincidência de fatos. A natação passa por problemas jurídicos, tem problema de patrocínio, não foi bem no Rio perdendo oportunidades de medalhas que eram esperadas…ou seja, você está arrumando a casa para o ciclo seguinte. Acho que começar um ciclo olímpico participando de um campeonato mundial, no primeiro ano do ciclo, com menos atletas, não é ruim.

Mas, no caso da natação, ir a um Mundial com oito atletas não é muito pouco? A gente não está voltando ao tempo em que você competia lá em Moscou-1980?

O COB não pode opinar nisso, porque precisamos perguntar para a confederação se isso faz parte do planejamento deles ou se é reflexo de tudo que está acontecendo. Eu não posso responder por isso. Inclusive já nos reunimos com a CBDA e já vi um pouco do que eles estão querendo fazer e agora vamos para a parte de detalhamento deste processo para 2020. É muito cedo para opinar sobre isso. O COB não tem a pretensão de dizer o que eles precisam fazer.

Há outra confederação que vive momento complicado que é a CBB. Havia sido noticiado a possibilidade de intervenção da Fiba com ajuda do COB. Como está esta situação?

O COB tem de intervenção, mas sim da Fiba. E por outras razões, que não tinham nada a ver com resultado técnico. Problemas que inclusive nem eram só financeiros, mas que alcançavam outros pontos importantes. Cada modalidade esportiva, seja confederação ou federação filiadas às federações internacionais, tem a obrigação de organizar uma série de eventos todo ano para continuar filiados. Começou por aí. O problema da intervenção e proibição foi uma tomada de decisão da Fiba. O que o COB fez foi receber os representantes da Fiba para entender o que estava acontecendo. A partir daí qualquer decisão com relação à confederação continuar reconhecida, estar ou não punida, vai ou não ter um interventor, isso é com a federação internacional. Quando eles tomarem esta decisão, aí vão pedir para o COB se quer participar e ajudar com este processo.

O COB pode ajudar na reestruturação da CBB, se for o caso, isso faz parte da missão da gente. Mas não vamos intervir em absolutamente nada. Estamos aguardando uma definição da Fiba. E isso tem que vir documentado, não vale nada de pedido de boca (risos).

Pelo que você ouviu da conversa com os representantes da Fiba, a situação está pior tinha ouvido falar ou dentro do quadro que você conhecia?

Dentro de tudo o que foi noticiado. Estamos aguardando um posicionamento da Fiba, que foi quem provocou a suspensão da CBB. A única coisa que fizemos, e isso foi noticiado, quando do anúncio dos repasses da Lei Agnelo/Piva, avisamos que só iríamos repassar os recursos para a CBB depois que houver um entendimento em relação à esta suspensão.

Como gestor, quando você vê que categorias de base da CBB não podem disputar torneios classificatórios para os respectivos mundiais, clubes não podem participar de competições internacionais… isso tudo não é uma bola de neve que se não for resolvida logo, irá afetar o COB no futuro?

Vou relembrar a época dos meus treinamentos como atleta. Era duríssimo. Se eu fosse para casa me preocupando com o treino do dia seguinte, eu não faria, pois sabia que o Luiz Alberto [seu técnico na época] iria tirar o meu couro (risos). Eu prefiro esperar que as coisas se resolvam. Se começar a ficar aflito com estas ponderações, não duro neste emprego uma semana. Vou lidando com as situações no dia a dia. Lembrando que eu tenho 28 esportes que participaram da última Olimpíada e mais cinco novos esportes que estarão em Tóquio-2020. Ou seja, tenho 33 oportunidades de ficar preocupado. Monotonia, falta do que fazer, aqui não tem.

Vou lidar com um problema por vez, pois do contrário vou ter uma ulcera em menos de uma semana. Quando clarear a situação, vamos com nosso grupo técnico buscando ajudar a consertar as coisas. A única coisa neste processo que não conseguimos reverter é tempo. Se não houver tempo para fazer um trabalho melhor com o basquete para 2020, vamos pensar mais para frente. Não perco minhas noites de sono com isso porque não está nas minhas mãos. Só pode sofrer e se preocupar com as coisas que você tem poder de resolver.

O skate brasileiro está envolvido em uma polêmica com a CBHP pleiteando para si a organização da modalidade, e a CBSk pedindo reconhecimento do COB, até criando abaixo-assinado oficial. De que forma o COB está lidando com esta situação?

Quando foi proposto ao COI incluir cinco novos esportes, cada um deles tinha que ter uma federação internacional reconhecida pelo COI que fosse o guarda-chuva deste esporte. Na história do movimento olímpico, o caratê lutava para ser olímpico muito antes até do que taekwondo. Não era reconhecido porque tinha várias federações internacionais, de categorias e modalidades diferentes. Não havia uma unidade, e o COI não o reconhecia como esporte, nem levava a chance de ser olímpico.

O taekwondo fez isso muito bem em Seul. Para fazer parte do programa de Seul, tiveram que eleger uma única federação internacional e a partir daí o COI votou para incorporá-lo no movimento olímpico e assim foi.

Quando estes novos esportes foram aprovados para 2020, já se sabia que o skate mundialmente não tinha uma federação única, mas várias associações e federações. A forma criada pelo COI foi incluir o skate na FIRS (Federação Internacional de Esportes sobre Rodas). A partir daí, com a federação internacional foi reconhecida, o COI anunciou para o mundo inteiro quais eram as federações de cada uma das cinco modalidades. Ficamos então esperando que a federação internacional de cada um destes esportes dissesse ao COB qual era a confederação que representava aquele esporte olímpico no Brasil. E a única confederação do Brasil reconhecida pela FIRS e pelo COI para o skate em 2020 é a CBHP (Confederação Brasileira de Hóquei e Patinação), que está em processo de filiação ao COB.

Não pode ter duas confederações representando o mesmo esporte. A partir de agora, o que precisa ter agora é um trabalho entre a CBHP, a única reconhecida até segunda ordem pela FIRS, com o skate, para quem eles façam um trabalho em conjunto. Um é o representante legal da modalidade junto ao movimento olímpico e à FIRS e o outro é a entidade que tem efetivamente os atletas. Eles precisam trabalhar juntos.

Vamos buscar uma aproximação junto às duas confederações no sentido de auxilia-los neste trabalho. Essa briga não leva a lugar nenhum, não ajuda ter dois donos. Há um só canal de comunicação, tem um só representante oficial e um só reconhecido pela federação internacional e pelo COI. É por aí que a gente vai. Nossa interlocução será sempre com o órgão oficial representante daquela modalidade no país. Não posso fazer diferente.

Para este próximo ciclo olímpico, quais seriam as principais apostas que o COB faria em termos de modalidades e resultados?

Ainda é muito cedo para falar disso. Após o anúncio às confederações sobre a distribuição dos recursos da Le Piva, começamos em janeiro uma rodada de reuniões individuais com cada uma das confederações, que são bem detalhadas. Primeiro, para entender como os cortes irão afetá-las a continuar no trabalho de prospecção e preparação visando 2020. Enquanto não terminar esta rodada de reuniões, fica difícil dizer onde nós estamos. Até agora, nos reunimos com seis ou sete modalidades. É muito pouco, num universo de 28. Mais para frente, quando tivermos alcançado pelo menos 60% das confederações, aí posso dizer onde iremos apostar mais em determinado esporte. Vamos poder dizer que investiremos mais em treinadores em determinado esporte etc. Ou se iremos reforçar a equipe multidisciplinar de um determinado esporte que esteja com muitos problemas de lesões, por exemplo. Eu preciso de mais tempo para entender um pouco mais os passos que eles vão dar em relação ao planejamento estratégico deles visando 2020.

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