A história de Eder Jofre, através das belas palavras de Henrique Matteucci



Logo após começar a trabalhar na revista Placar, em 1986, fui escalado para fazer uma pauta com um escritor que havio lançado a biografia do massagista Mario Américo, personagem marcante na história da seleção brasileira. Ao chegar na casa do escritor, o jornalista Henrique Matteucci, num sobrado simples que já não existe mais na rua Turiassu, percebi logo após alguns minutos de conversa que haveria muito mais a aproveitar do que aquela simples pauta.

Com seu jeitão cativante de falar, daquele que conquista rapidamente o interlocutor, Matteucci falou sobre a obra recém-lançada e, diante da curiosidade quase irritante do foca que o entrevistava, começou a mostrar seus outros livros. Entre eles “O Galo de Ouro – A história de Eder Jofre”, biografia que ele havia lançado em 1979 sobre o primeiro pugilista brasileiro campeão mundial de boxe pelos galos da AMB (Associação Mundial de Boxe), uma categoria séria e não como uma das inúmeras entidades fajutas que existem hoje em dia.

Após terminar a entrevista, antes de me despedir, Matteucci carinhosamente me presenteou com dois livros: o do Mario Américo e “O Galo de Ouro”. Comecei a ler o livro ainda no taxi, quando voltava à redação, e duas noites depois já o tinha lido inteiro. Um livro excepcional, um registro preciso de um período marcante do esporte brasielrio, descrito de forma precisa e até meio poética por Matteucci.

Anos atrás, soube num obituário do Diário de S. Paulo que Henrique Matteucci havia falecido, talvez sem toda a sua importância devidamente reconhecida. Mas sua contribuição para o esporte brasileiro, ao retratar de forma tão bonita a história de Eder Jofre, foi eterna. E neste dia 18 de novembro, quando se comemoram os 50 anos da vitória de Eder Jofre sobre o mexicano Eloy Sanhez, dois agradecimentos são necessários: Valeu, Eder! Valeu, Matteucci!

Abaixo, um trecho memorável do “Galo de Ouro”:

“…Os últimos instantes da luta foram dramáticos e inesquecíveis: eram dois pequenos gladiadores a troca junto às cordas e, torcendo por eles, com os ouvidos colados ao rádio, milhões de brasileiros e mexicanos a sofrer e vibrar pelos eu herói. Eder dominou desde os primeiros instantes; Eloy, tenaz e obstinado, tentou superar com uma coragem fora dos limites humanos a classe superior do rival. Em meio ao sexto assalto, julgando ter abalado Eder com um direto, Sanchez levou-o até o extremo do ringue e o bombardeou com uma bem dirigida sequência de esquerdas e direitas no corpo. Havia dez mil mexicanos e quatrocentos brasileiros no estádio. Os primeiros puseram-se de pé, a gritar furiosamente, e o ginásio rugiu e tremeu como se tivesse explodido um trovão em suas entranhas. Foi nesse instante que Eder Jofre inclinou ligeiramente o corpo e desferiu um gancho de esquerda no fígado. O gemido de Eloy coincidiu com um segundo golpe, um direto de direita que lhe pegou o queixou e fez sua cabeça dobrar para trás. O mexicano girou e caiu de lado sobre um braço, que ficou torcido como se estivesse quebrado. Os dez mil mexicanos sentaram-se, surpresos, e os quatrocentos brasileiros ergueram-se em delírio, ao mesmo tempo que o árbitro Calaham, indicando o corner neutro a Eder, iniciava a contagem:…”



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