VISÃO DO PARAÍSO - BLOG JL PORTELLA

VISÃO DO PARAÍSO



Por que exportamos jogadores?
Somos induzidos à percepção de que tudo o que acontece no país, incluindo o futebol, é algo recente, sem raiz do nosso passado, nem na nossa história. E acrescentamos a isso, uma forma de nos isentar dos erros elegendo um responsável de sempre, que invariavelmente tem culpa, mas não é o único. E aí é que cometemos o equívoco que nos impede de corrigir o erro e acertar o passo.
Sermos meros exportadores de pé de obra é um desses casos. Frequentemente nos queixamos de produzir craques e bons jogadores e os entregarmos facilmente, muitas vezes, a preço vil, como João Pedro, para o exterior.
Os suspeitos de sempre, os culpados de plantão são os dirigentes de clubes e da CBF. Tem razão. Em parte.
O Brasil, que já foi o “país do futebol”, se nos apresenta como um Paraíso Terrestre da bola, que foi conspurcado por certo pecado capital, que nos retirou da vida em eldorado, por conta de que uns tantos dirigentes consumiram o fruto proibido. Infelizmente, a explicação não é singela assim e nós não estamos absolvidos do sacrilégio de desperdiçar talentos. De atirar janela afora o potencial futebolístico que possuímos.
Desde muito, os filhos dessa Pátria Amada, não agem de acordo com o que ela merece.
Sergio Buarque de Hollanda, em Visão do Paraíso, descreve como os portugueses, não se diferenciando de outros povos, na época das navegações, sonhavam com um Novo Mundo. Que, para eles se encontrava além-mar. A ideia de aqui encontrar um Jardim do Éden, os seduzia.
Quinhentos anos depois, Buarque de Hollanda traz a observação de historiador: “Se vamos a essência de nossa formação, veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar, tabaco, mais tarde ouro e diamantes; depois algodão e café para o comércio europeu. NADA MAIS DO QUE ISTO. É com tal objetivo, OBJETIVO EXTERIOR, voltado para fora do país e sem atenção a considerações que não fossem aquele comércio, que se organizarão a sociedade e a economia brasileiras”.
Há muito tempo temos a vocação de sermos fornecedores, apenas fornecedores de produtos “in natura” para a Europa, e outros países na sequência da história.
O pé de obra não é uma anomalia oriunda do futebol, é tão somente a reprodução no futebol, daquilo que culturalmente escolhemos por fazer desde que existimos.
Buarque de Hollanda conclui sua obra com o seguinte parágrafo: “Teremos também nossos eldorados. Os das minas, mais ainda o do açúcar, o do tabaco, de tantos outros gêneros agrícolas, que se tiram da terra fértil, enquanto fértil, como ouro se extrai até esgotar-se, do cascalho, SEM RETRIBUIÇÃO DE BENEFÍCIOS. A procissão dos milagres há de continuar assim através de todo o período colonial, e não a interromperá a Independência, sequer, ou a REPÚBLICA”.
É isso! Pungente e desvanecedor. Nós nos organizamos para atender aos outros. A culpa da exportação do pé de obra não é só dos dirigentes, é sobretudo nossa, ao aceitarmos sermos servis.

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