O CLUBE-EMPRESA



A princípio, qualquer projeto que levasse ao clube-empresa deveria ser bem-vindo para quem, como eu, há anos defende a profissionalização e modernização do futebol, a sairmos da Idade das Trevas para vislumbrarmos um Renascimento, um Risorgimento.

Mas, cansei de ser iludido, não desejo me frustrar mais uma vez. O projeto de clube-empresa aprovado na Câmara não é bom. Mais do que um projeto para o estímulo aos clubes se tornarem sociedades empresárias, onde os responsáveis assumam as consequências da eventual má-administração ou o mérito pelo sucesso, o projeto do dep. Pedro Paulo, apadrinhado por Rodrigo Maia, se utiliza da ideia para propiciar perdão aos clubes, com destaque ao Botafogo. Só essa agremiação e o Atlhetico demonstraram interesse. Ficou com a alcunha de “Botafogo”, tal a percepção causada. Ele é um projeto de perdão das irresponsabilidades recorrentes nos clubes, sem que os Refis, Timemanias e Profuts tenham servido para aplacar os erros. Virou aquela história: reparcela, ganha tempo, entra em dívida de novo, porque ninguém vai fechar clubes centenários (tese de muitos dirigentes).

Trata-se de mais um projeto de refinanciamento, 150 meses, com perdão exagerado sobre as multas, juros e encargos legais, sem que os beneficiados entrassem nos eixos, aproveitando-se da embalagem moderna do “clube-empresa”. É uma inversão de prioridade. Na prática, não deve existir nenhum perdão, apenas a redução de impostos, de modo que os optantes não paguem mais do que os que persistem no velho modelo. Embora o projeto possa ser aprimorado no Senado, nada indica que isso ocorra a eliminar o perdão nas multas, juros e encargos.

O melhor projeto é o que está no Senado, patrocinado pelo sen. Rodrigo Pacheco, chamado de SAF- Sociedade Anônima do Futebol. Este, não prevê os perdões efetuados na Câmara. Ele não é panaceia, nem solução do problema do amadorismo nem da irresponsabilidade, contudo abre radioso caminho nessa direção.

Não é o sistema de mercado que irá salvar o futebol. Primeiro, porque o mercado não salva, ele concentra riqueza naturalmente pela gênese da dinâmica capitalista.

Segundo, porque o mercado não é perfeito e, no futebol seria mais imperfeito ainda por conta da heterogeneidade. Alguns clubes seriam empresas, outros não. E, entre as sociedades empresárias haveria modelos diversos e gestões diferenciadas. Não basta ter um arcabouço de governança, a forma de gestão, que depende dos gestores, influencia no resultado. O Figueirense começou bem e resvalou abismo abaixo. O erro não estava na opção pelo clube-empresa, mas na forma como foi administrado. Mesmo assim, induzir a criação de sociedades empresárias é passo fundamental para o progresso do nosso futebol, para geração de maior riqueza, emprego e renda.

Nunca tive dúvida, nunca deixarei de lutar por isso. Todavia, não posso me deixar enganar outra vez. Prefiro: Se me engana, eu não gosto.

E um dos sinais claros de nova ilusão sofrida é que o patrocinador, Rodrigo Maia, é um defensor do liberalismo na economia e o projeto é a negação da doutrina. Toda vez que há esquizofrenia, o resultado não é saudável. Prefiro o projeto da SAF, sem embarcar na ideia de que seja a redenção do futebol. É mais um passo. Importante.  

 

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