NÃO À IDOLATRIA - BLOG JL PORTELLA

NÃO À IDOLATRIA



O ser humano sempre gostou de mitos, lendas e ídolos. Para ter referências e para justificar aquilo que ele não entendia. Ouvia o trovão, a seguir uma chuva copiosa, e logo criava uma divindade responsável, incutindo nela sentimentos humanos como ira, inveja, desejo de poder. Natural, tudo o que não conseguimos explicar transportamos para seres superiores.
O futebol não foge à regra. Craques possuem domínio de talento notável sobre algo que apaixona às pessoas. O exagero na admiração é consequência. O problema é quando se transporta tal admiração ao jogador como um todo, que é singelo ser humano, e carrega consigo limites e defeitos.

Há dois equívocos graves: tratá-lo como semideus, quando é apenas humano, com um talento específico. A adoração o leva a acreditar que está acima do bem e do mal, ou acreditar que é realmente isento das obrigações normais de todos nós.
Sócrates foi atleta marcante para o Corinthians, mas teve procedimentos questionáveis como aquele que Casagrande conta com relação ao desejo de Sócrates de atuar na TV Globo utilizando Casagrande como intermediário. Sócrates tinha inteligência acima da média dos colegas e formação como médico, o que não o impediu de prejudicar a si mesmo com a ingestão desmesurada de álcool, a qual ele sabia a consequência. Pelé, o maior do mundo, indiscutível dentro do campo, teve comportamento questionável com relação à filha não-reconhecida e há dúvidas sobre o acompanhamento como pai, a Edinho. Não é fácil ser filho de alguém que é o brasileiro mais conhecido da história no mundo. Ademir da Guia, o fino da bola, não foi bem como vereador.
Todos são seres normais com vícios e virtudes, o erro é colocá-los em outro patamar.
Neymar Jr., tangido pelo pai, quando começou a explicitar o temperamento mais do que marrento e mimado: prepotente e impertinente, no início da carreira, foi defendido por muitos como vítima da perseguição de quem não se conformava com os dribles e provocações que fazia. Não era só isso, só que o desejo de adulá-lo efusivamente se punha acima da visão completa.
Esse comportamento de bajulação excessiva tem raiz no complexo de vira-latas, que exagera a adoração de qualquer ser que “seja da mesma turma” e se mostre com algum talento, como se este representasse a vitória sobre a sensação de inferioridade do admirador, sem que este o perceba, infelizmente comum em nosso país.
Tal ação se estende aos técnicos, sempre sobrevalorizados, remetendo-os à pretensão de darem sermões e aulas de procedimento extracampo. Tornam-se os “homens bons”, acima dos seres comuns, como ocorria no Brasil Colônia, com quem detinha determinado nível de renda.
Os craques são reconhecidos pelo desempenho, têm retorno financeiro altíssimo, recompensados pela habilidade, não precisam, nem devem ser isentados de cumprirem as outras obrigações de cidadãos.
Idolatrá-los, nesses tempos de hedonismo desvairado e descompromisso com a sociedade, em função da inflação do ego, só os atrapalha. Faz, o que se fez com Neymar.

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