MARTA E A CHUVA NO MOLHADO - BLOG JL PORTELLA

MARTA E A CHUVA NO MOLHADO



Vadão era cara da infraestrutura da Seleção. Face caída, desalentada, com vinco no rosto emagrecido por alguma dieta. Em nenhum momento Vadão exalou alegria ou entusiasmo.
A Seleção feminina chegou à Copa com retrospecto horrível e aquela sensação de impotência que caracterizou nossa Seleção masculina até 1958. Havia talento, mas não confiança nem personalidade.
Cresceu na competição sem deixar de exercer a falta de concentração natural de quem não acredita em si mesmo, sofrendo uma virada incrível contra a Austrália.
Acabou tendo derrota honrosa e valente contra a França, com Debinha perdendo o que poderia ser o gol da glória, mas com as próprias jogadoras reconhecendo a superioridade adversária.
Marta com um batom vivo, deu o tom do epílogo nacional para a turma: “Precisa se cuidar para poder sorrir no fim”.
Não foi uma observação endereçada só às atletas, corroborada por Andressa: “Só aprendi a ser 100% profissional quando vim para a Europa”.
Marta, no desabafo crítico, foi mais longe, contemplou todo o processo de preparação. Mas isso já foi muito explorado pelos analistas após o jogo. Vale ir adiante.
A Seleção feminina encerra a imagem sombria do Brasil que não se quer.

Marco Aurélio Cunha, verborrágico, ao assumir quis se apresentar como uma faísca de esperança de “um novo porvir”. Articulado, com formação melhor do que a média dos dirigentes, falou muito, driblou pra lá, driblou pra cá, não fez gol.
O gol, no caso, não era a conquista do título, muito distante dado o estágio em que nos encontramos; o gol seria a reestruturação do futebol feminino. Seria o oposto do que Marta disse.
A pregação da atleta é a comprovação do fracasso de Marco Aurélio.
Como disse o economista Douglas North, prêmio Nobel, citado no artigo anterior: “Sem instituições não se constrói nada”. E a CBF é uma instituição extrativista na dimensão dada pelo outro economista mencionado, Daron Acemoglu.
Cunha quer driblar na área e imagina que pode nos iludir. É um típico caso de articulação intelectual utilizada para encobrir os defeitos.
O Brasil nunca organizou o futebol feminino como deveria e quer se utilizar do talento de Marta, Formiga, Cristiane para, num gesto fortuito e desesperado, alcançar alguma glória efêmera para continua a manter o poder estabelecido na CBF.
“Me engana que eu gosto?”. Não, não gostamos.
Estamos fartos disso, embora o desabafo-lamento de Marta vá se perder no vento, “tha answer is blowing in the wind”.
Não irá mais nos iludir. O prazo de validade de nossa ingenuidade expirou. Contudo,triste e desvanecedor é ver que o prazo do conformismo e da inação ainda segue em vigor!
O batom de Marta era uma marca de vida, mas o impacto de suas declarações, como sempre, vai causar aquela indignação de dois a três dias, que se dissipará com a ilusão de “sermos os melhores do mundo de alguma coisa”. Talvez se perca com a Copa América, com o encantamento pela goleada sobre um Peru esquálido, com um goleiro patético.
Estamos sempre prontos a sermos enganados, outra vez.
Vadão foi a face da derrota anunciada, Marta o brilho do que poderíamos ser e não fomos, Marco Aurélio Cunha o ícone daquele truque do mágico da rua. Quer nos fazer mais uma vítima de uma instituição que não funciona.
Marta, infelizmente, choveu no molhado. A CBF não vai mudar nada.

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