FLAMENGO, NEYMAR E OUTROS



Quem diria que poucos meses após o Flamengo ganhar quase tudo, só faltaram Mundial e Copa do Brasil, a torcida, sobretudo as Organizadas, já estivessem em confronto e cobrança com a diretoria do clube. E por um motivo que não é desempenho do time.

Sem entrar no detalhe do ocorrido com os jovens da base, porque nesses assuntos cabe conhecer todas as partes e a integralidade dos processos, é possível destacar a negligência da diretoria do Flamengo com relação ao tratamento dado às famílias e à imprensa, que é o canal para a torcida e a sociedade. É nítido um ar de soberba em Landim e nos diretores que estão cuidando do assunto. Não contempla toda a diretoria. A soberba vem do sucesso em 2019.

Do outro lado do oceano, Neymar, supercraque, perdeu a relevância. Ele pode e deve dar os dribles que quiser, tentar impedir é uma bobagem, mas o que se percebe: a extrema habilidade não encanta mais como antes nem a previsão de ele chegar ao topo do mundo se consolida. Neymar extraviou-se. Pela soberba. O problema nunca foram os dribles, mas a postura dentro e fora do campo, excluindo a técnica.

Existe algo mais profundo nesses dois exemplos do que simplesmente falarmos da arrogância e da pretensão. Nós brasileiros sofremos do “complexo de mazombo”. Mazombos eram, a princípio, os filhos de estrangeiros nascidos no Brasil, sobretudo de portugueses, a palavra vem de dialeto de Angola e tem sentido pejorativo: grosseiro, iletrado, tosco. O mazombo se juntou aos índios e negros e aos cruzamentos entre os três e firmou a sensação de inferioridade, com forte sentido de não-pertencimento ao Brasil, com desejo de regressar à origem dos ancestrais. Mais adiante, a necessidade de “ser alguém” na vida, que persegue todos os brasileiros, inclusive os ricos, se transformou no complexo de vira-latas e no “narcisismo às avessas”, que é a ideia de “cuspir na própria imagem”; consagrados por Nélson Rodrigues. Em geral, o brasileiro se sente por baixo pelas condições de vida da grande maioria, porém, quando o sucesso é muito grande, acentuado, vira o fio. Quem nunca come melado, quando come se lambuza. É o que está acontecendo com parte da diretoria do Flamengo, sobretudo o presidente, e com Neymar pai e filho. A sensação de inferioridade anterior se transforma em superioridade exacerbada, insensibilidade com os outros e a ideia que não há contas a prestar a ninguém. Em italiano isso pode ser traduzido por: “Io sono Io”. Gabigol resvala com vigor por esse caminho. Ao despontar, já emergiu arrogante, precocemente no exterior foi mal, não teve o brilho que julgava ocorrer, e, ao voltar, até dar certo se conteve mais ou menos. Após o reconhecido desempenho em 2019, exacerbou na arrogância e na marra.

Só cuidando de nossas falhas, lograremos vencer a ressaca do complexo de mazombo. Flamengo e Neymar não estão nesse caminho.

 

Comments

comments



MaisRecentes

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO FUTEBOL – DO VÁCUO MORAL AO VÁCUO INSTITUCIONAL



Continue Lendo

O GOL E GIANNI INFANTINO – OPORTUNIDADE DO ILUMINISMO



Continue Lendo

GRANDE TRANSFORMAÇÃO



Continue Lendo