BOLA FORA



É muito triste ver imagem como a de Ronaldinho no Paraguai. Ele foi craque excepcional e até hoje, para jovens que não viram Pelé jogar, é símbolo da excelência técnica mais apurada, superando até Neymar.  Ronaldinho foi o melhor do mundo em 2005.

Neymar é outro supercraque, e estava a caminho de se transformar no melhor do planeta. Conseguiu com suas atitudes, assim como Ronaldinho, tornar seu notável futebol em algo menos impactante a ponto de perder relevância no mundo da bola e tração nessa conquista para alcançar o topo.

Em ambos os casos há companhias bem complicadas: Assis, o irmão; e Neymar, o pai. Que, mesmo assim, não justificam o rumo que os atletas tomaram, porque são perfeitamente capazes de discernir o caminho que deveriam seguir. Ronaldinho e Neymar foram afetados pelo inverso do complexo de mazombo. Já falamos sobre isso, mazombo era a denominação pejorativa, que significava grosseiro, tosco, iletrado; aplicada aos nascidos no Brasil, filhos de portugueses. Isso resultou no complexo de vira-latas, consagrado por Nelson Rodrigues, a explicitar nosso sentido de inferioridade, desde as origens. E que teve um momento sensacional e fugaz de superação, de rompimento dessa sensação, ao vencermos o campeonato mundial de 1958 durante o governo JK, que fazia o Brasil crescer, acreditando em si mesmo. Quem é tido como inferior, quando vence na vida e transpõe a percepção de desimportância, tende a exagerar na demonstração de poder, riqueza e soberba. A impressão é que ambos caíram nessa armadilha, exacerbando atitudes a mostrar que se sentem acima do bem e do mal, a ponto de fazer o que fizeram. Ronaldinho e Neymar perderam o senso das proporções, com a enorme colaboração do irmão e do pai, que sempre navegaram em águas turvas, julgando que Ronaldo e Neymar, por emergirem de condição modesta e possuindo talento mundialmente reconhecido poderiam não seguir as regras válidas para os seres humanos comuns. A mídia tem participação nessa percepção equivocada, por endeusar os respectivos atletas, permitindo a eles, durante a carreira, atuarem na vida cotidiana acima das normas que valem para todos. Uma espécie de “tietagem” exacerbada, como aquela que perdoa Pelé de seus erros como cidadão, como se fossem sobre-humanos. E não são. Eles receberam reconhecimento público, ganharam fama, o que gera dinheiro fora do futebol; e foram excepcionalmente remunerados pelo trabalho. Isso é o pagamento justo pelo talento. Todavia, não os isenta de serem cidadãos iguais aos outros nos procedimentos fora do futebol.

A idolatria sempre gera nos ídolos, pessoas desconectadas da realidade. O ser humano por si só, é vaidoso. Conseguindo algum destaque na vida, todos nós, tendemos já a acentuar tal vaidade. Chegando aos píncaros da glória, sendo aclamados pelo mundo, é muito difícil escapar da húbris, que é passar do ponto da vaidade aceitável. Isso custa bem caro, segundo os gregos. É o preço que ambos os craques estão pagando. Jogaram a bola fora. Tomara que reflitam.

 

Comments

comments



MaisRecentes

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO FUTEBOL – DO VÁCUO MORAL AO VÁCUO INSTITUCIONAL



Continue Lendo

O GOL E GIANNI INFANTINO – OPORTUNIDADE DO ILUMINISMO



Continue Lendo

GRANDE TRANSFORMAÇÃO



Continue Lendo