ALEGRIA E PRESSA



Todo ano a mesma ladainha: clubes grandes obtêm resultados expressivos na largada dos estaduais, a imprensa começa a realizar estatísticas, que não vão se manter durante o ano, porque os adversários não serão tão fáceis nos outros campeonatos, surgem artilheiros “de estatuais”, e é uma festa geral.

Com dois jogos oficiais, muitos analistas já preveem o estilo, a estratégia do técnico, como o time X vai jogar, e há uma farra geral, ambiente de festa, um “faz de conta”.

Assim como os técnicos precisam de tempo para terem seus trabalhos avaliados, não é possível conclusões tão soberanas e incisivas, de pronto, como a mídia faz. Muita gente já “consagrara” Tiago Nunes pela goleada contra o frágil Botafogo -RP e o velho Mirassol travou o entusiasmo.

Então, elaboram-se grandes teorias sobre a queda de rendimento. É tudo uma fantasia baseada na ansiedade, no imediatismo nacional, e na necessidade de haver uma leitura “científica” do futebol. Um fetiche. A contradição entre pleitear tempo para os técnicos e celebrizá-los em dois jogos resta quieta e não explorada.

Luxemburgo foi bem na entrevista pós-jogo ao se referir à “celebrização” dos técnicos. Está mais velho e mais sábio. O que nunca se investigou é o impacto desse “complexo de futurologia”, essa “síndrome de profecia”, que mais do que insustentável, provoca vários prejuízos ao futebol. Analistas, mídia, geralmente se eximem dos insucessos da organização do futebol, até por terem amplo e verdadeiro material coletado junto aos dirigentes de falhas, erros, impropriedades. Só que o imediatismo veemente que envolve o futebol também contribui, ainda que involuntariamente, para a dificuldade das soluções. Muitas vezes o que leva a queda de um técnico é a pressão por resultados ecoada pela mídia, que a torna mais potente do que a torcida realiza. Os dirigentes, com parcos conhecimentos em gestão e sem confiança nas escolhas feitas, apertam o gatilho antes do tempo. O uso indevido dos números, que alguns querem chamar de estatística, mas não o é, por inconsistência na formação da série histórica, conduz o torcedor ao equívoco, destravando a cobrança irracional. Os “artilheiros de estaduais” congelam quando chegam à Libertadores ou mesmo ao Brasileirão. E foram sobrevalorizados pela mídia e falsa estatística, gerando reação desproporcional.

O brasileiro não gosta de disciplina, construção paulatina e estruturada ao longo do tempo. Quer entrar na Bolsa de Valores ontem e ganhar hoje. Essa ansiedade nos faz cometer uma série de erros, entre eles o de superestimar o papel dos técnicos. Em dezembro de 2018, o clube da vez era o Palmeiras: campeão, situação financeira invejável, a caminho de suposta hegemonia e em busca da glória máxima na Libertadores e no Mundial. Quem acabou 2019 assim foi o Flamengo, de quem se reclamava pouca eficiência esportiva apesar da lição de casa financeira. Não houve uma surpresa, o Flamengo vinha construindo a condição que o levou ao sucesso, houve sim precipitação, falta de vislumbrar horizonte mais longo. A pressa não é só inimiga da perfeição, ela destrói a construção do sucesso sistemático, estável e autossustentado.

John Maynard Keynes avisou: “A dificuldade não está em aceitar as ideias novas, mas, sim, em abandonar as antigas”.

Com relação as atitudes, pior ainda.

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