Esporte Feminino driblando a realidade



Texto de Líbia Macedo

Em julho, tivemos a Copa do Mundo de futebol feminino na França, batendo vários recordes seja de venda de ingresso antecipada, número de torcedores, 130 TV`s transmitindo impactando 135 países e infinitas coisas acontecendo pela primeira vez, como somente equipe de árbitras apitando, significativo número de jornalistas mulheres na cobertura, sem falar em comentaristas e até narradoras.

Tivemos empresas liberando seus funcionários para assistirem aos jogos do Brasil e as jogadoras brasileiras pela primeira vez tiveram um uniforme feito para elas – isso porque participaram de todas as edições. O Futebol feminino começa a ter um pouco mais de estrutura, times, campeonatos, apoio oficial da FIFA, praticantes e simpatizantes, enfim começa à ser comentado e um olhar diferenciado.

Nos Jogos Olímpicos, somente em 2012, as mulheres conseguiram competir em todas as modalidades disponíveis – boxe era a última barreira. No Rio 2016, países como EUA e China trouxeram mais atletas femininas do que homens para competir. Fugindo à tradição, os países islâmicos já tem 1/3 de suas delegações formadas por mulheres desde a última olimpíada e com entrada de atletas de países mais radicais como Arábia Saudita e Yemem.

Nos cargos diretivos, o avanço é mais lento. Considerando a mesma Copa da França, das 24 seleções, somente 9 tinham técnicas, entre estas as 2 finalistas: Holanda e EUA, o que traz um feito inédito. Aqui em nosso campeonato brasileiro feminino, nas séries A1 e A2, dos 52 técnicos, somente 9 são mulheres (17%), mas nas comissões isso tem aumentado nas funções de nutricionistas, fisioterapeutas e gestoras.

Vemos números aumentando, não na progressão que gostaríamos, mas as conquistas de oportunidades e divulgação no esporte caminham conforme as transformações sociais, culturais, científicas, econômicas e políticas. Se pensarmos que no Brasil, mais de 50% das empresas não tem mulheres em cargos de liderança e menos de 5% delas tem uma mulher como CEO, e considerando que as mulheres ganham menos em geral no mundo todo – no Brasil quase 20% segundo o IBGE.

Obviamente isso também impacta na visão do esporte feminino para investimentos de patrocínio, de transmissão e de consumo. Se nosso país é o 5⁰em feminicídio, como essas mulheres terão voz para praticar e/ou assistir esportes? E na iniciação esportiva, quantas escolinhas temos por aí?

Nas de futebol, geralmente, as garotas praticam junto com os meninos e são raras as turmas genuinamente femininas, até aí ok, mas muitas desistem ou reclamam que não tem o mesmo tratamento e sofrem bullying  dos “colegas de time garotos”. No âmbito das ONG´s a maioria dos projetos são focados em meninos. Enfim, como diz Parlebas (2007) intelectual francês: “O esporte estará representando uma sociedade em miniatura, contendo um intenso laboratório de condutas e comunicação humana”.

Oxalá as mudanças esportivas femininas possam ser mais velozes que as do cotidiano, driblando esse espelhamento nesse microcosmo social.

Libia Macedo é professora, consultora e pesquisadora do ambiente esportivo e colaboradora do Incentivando Esportes

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Photo by Ashley Williams from Pexels

 

 

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