A lembrança e a saudade de Waldir Peres



 

 

Tricolor74
Minha primeira memória afetiva no futebol foi com esse time da foto acima. A escalação dessa primeira paixão tinha Waldir Peres, Forlán, Arlindo, Paranhos e Gilberto (que só muito tempo depois virou Sorriso). No meio, Chicão, Zé Carlos e Pedro Rocha. Na frente, Terto, Mirandinha e Piau. Forlán, pai do “recente” Diego Forlán, era o símbolo da raça uruguaia. Arlindo e Paranhos me lembravam o “Gordo e o Magro”. E se completavam. Gilberto era lateral esquerdo, mas destro, coisa rara naquela época. Chicão, o xerifão. A seu lado o maestro Pedro Rocha. Na frente, Terto e Piau, os “pontas pontas”, de um tempo em que jogavam aberto e partiam para cima. E Mirandinha para meter gol.

E como disse João Saldanha que todo grande time começa com um grande goleiro, havia Waldir Peres. Era um personagem. Sua careca o fazia parecer mais velho. Alternava grandes atuações com algumas falhas.  Lembro de um frangaço de Waldir numa cabeçada do corintiano Vaguinho praticamente de fora da grande área. Gramado molhado, a bola passou por baixo de seu corpo. Mas como não se render a ele, eleito pelo mestre Telê Santana para envergar a camisa 1 daquela Seleção de 82? A Copa foi difícil para Waldir.  A falha na estreia, contra a União Soviética, o marcou. Por mais que tenha feito uma boa defesa contra a Itália, também não conseguiu evitar a tragédia de Sarriá.

Sua morte, hoje,  me fez lembrar do goleirão. Como repórter, falamos algumas vezes. Sempre discreto, solícito. O futebol era mais simples. Não existia essa roleta de números para definir esquemas táticos mirabolantes. Jogava-se no 4-3-3 e pronto. Os estádios eram grandes (ao menos para mim, uma criança), de concreto armado. Nada de arenas. O gramado, todo esburacado. Não se via os tapetes atuais. Os jogadores amarravam o cadarço passando-o embaixo da chuteira, às vezes até no tornozelo. Éramos felizes assim.

Ir ao estádio parecia mais simples também. Não havia flanelinhas nos achacando. Não havia o temor de ser morto. No máximo uma discussão ou uma briga “na mão”, como se dizia. O Morumbi era um bairro agradável, distante, arborizado e, acreditem!, seguro. Muito diferente dos dias atuais, repleto de bandidos, arrastões, gente matando por um celular, como em todo o país.

Naquele tempo jogávamos bola na rua, por horas a fio. Onde eu morava, no Brooklin, tínhamos uma turma de uns 10 garotos. Colocávamos paralelepipidos para fazer os gols e pronto. Havia até ‘contras’ contra times de outras ruas.  Só saíamos da rua ao anoitecer, quando uma avó ou mãe vinham nos chamar. Não havia internet, muito menos redes sociais. E éramos felizes assim!

Nessa turma de garotos havia o Juneca, irmão de outro rapaz. Juneca tinha algum problema neurológico, praticamente não falava e era mais lento de raciocínio. Mas sempre jogava conosco. Gostava de pegar no gol. E quando a bola vinha, mesmo no asfalto, ele se jogava, espalmava a pelota e gritava…… Waldiiiiiiiiiiiiiiiiiiir Peres.

Ao lembrar de Waldir me lembrei desse tempo. Me lembrei de Juneca. Me lembrei das tardes no estádio do Morumbi. Me lembrei que éramos felizes (não que não sejamos atualmente)

Que em outro plano, Waldir seja recebido por Chicão, Pedro Rocha, Mário Sérgio e tantos outros craques que marcaram a vida de muitos garotos!

 



  • JOSÉ FERNANDO DA SILVA

    Que belo texto! Daqueles de flechar o coração do leitor (que, obviamente, também viveu a década de “São” Valdir Peres…). Parabéns.

    • Guilherme Gomes

      Que bom que gostou! Obrigado

MaisRecentes

Nova chuteira de Neymar tem linha do tempo com datas históricas da carreira



Continue Lendo

Espera de 18 anos e 74 Majors chegou ao fim para Sergio Garcia: título no Masters!



Continue Lendo

Caso Wellington: erro do jogador e show de hipocrisia por parte da mídia esportiva



Continue Lendo