A importância de um trabalho de Team Building - Gestão EC

A importância de um trabalho de Team Building



Jogadores da Alemanha com Mike Horn durante a Copa de 2014 (Crédito: Daimler AG)

Todo apaixonado por esportes deve ter visto o filme Any Given Sunday (Um Domingo Qualquer em português), de Oliver Stone. Um das cenas clássicas do filme é a preleção do técnico Tony D’Amatto (interpretador por Al Pacino) antes da partida decisiva do seu Miami Sharks diante do Dallas.

Os Sharks não passavam por um bom momento, o seu quarterback principal e veterano sofria com uma grave lesão, seu substituto viu o sucesso repentino subir à cabeça, o principal wide-receiver estava preocupado apenas com os números de jardas que conseguia a cada partida e seu line-back com um bônus milionário que receberia com mais alguns bloqueios.

O discurso de D’Amatto no vestiário pode ser usado em qualquer preleção, em qualquer esporte como elemento de motivação.

“O futebol, como a vida, é um jogo de centímetros. Olhe nos olhos do companheiro ao seu lado e você verá um cara que irá brigar por todos os centímetros, você verá um cara que irá se sacrificar por você porque ele sabe que você fará o mesmo por ele. Isso é um time”.

Depois de contratar um bom profissional, os clubes precisam fazer com que eles se comprometam com os novos companheiros de trabalho.

No futebol brasileiro ainda acreditamos em lendas e mitos de uma época distante, de um esporte muito diferente do praticado atualmente. Estamos acostumados a ouvir a frase “o time não deu liga” como justificativa para cada mau resultado de uma equipe apontada como favorita no papel.

Achamos incrível ouvir relatos de brigas entre jogadores no vestiário, de times campeões com jogadores que se odiavam ou de clubes vencedores com diversos problemas internos.

Acreditem, tais casos devem mesmo ter acontecido, mas são cada vez mais exceções. A regra geral é ambiente bom igual a desempenho bom. Ambiente ruim, desempenho ruim.

O “melhor ataque do mundo” formado por Sávio, Romário e Edmundo no ano do Centenário do Flamengo, em 1995, não funcionou porque o ambiente do clube e entre os atletas era muito ruim.

“Pior ataque do mundo, pior ataque do mundo, para um pouquinho, descansa um pouquinho, Romário, Sávio e Edmundo”.

Cinco anos depois, o Vasco reuniu novamente Romário e Edmundo. O relacionamento gerou outra pérola para o futebol brasileiro. O Animal reclamou dos privilégios ao Baixinho (após a disputa pela braçadeira de capitão e por uma cobrança de um pênalti) o chamando de Príncipe numa corte onde o Rei era o presidente do clube, Eurico Miranda. A resposta foi dada após Romário marcar dois gols em uma partida contra o Olaria.

“Agora o corte toda está feliz: o Rei, o Príncipe e o bobo”.

Alguns atletas tem esse comprometimento no seu DNA. Em janeiro de 2013, o astro francês Thierry Henry, então atleta do New York RedBulls, visitou o Brasil nas férias e consegui incluir em sua agenda uma visita ao Centro de Treinamento do Red Bull Brasil. Além de conhecer a estrutura do co-irmão brasileiro, o ex-atacante conversou com os garotos das categorias de base do clube campineiro, falou sobre a carreira, os grandes momentos no futebol e deu dicas sobre o comportamento para os atletas.

Perguntado sobre qual o maior motivo de orgulho de sua carreira, Henry não citou a idolatria no Arsenal, os títulos no Barcelona, a conquista da Copa do Mundo. Ele deu uma resposta que nunca vou meu esquecer.

“Meu maior orgulho é que após todos os jogos da minha carreira pude voltar ao vestiário e olhar nos olhos dos meus companheiros porque tinha feito o meu melhor durante a partida”.

O futebol brasileiro ainda acredita, em geral, que basta juntar um grupo de 40 pessoas com algum talento (vamos considerar que todos eles chegaram até ali por uma questão técnica), mas com níveis culturais, educacionais e sociais diferentes em um churrasco na pré-temporada que, como num estalo de dedos, todos vão se integrar e passarão a pensar da mesma forma, em busca dos objetivos do clube (que muitas vezes não ficam claros para os atletas). Ou seja, de uma hora para outra, graças a cervejas e picanhas, o “time vai dar liga”. É claro que não é assim que funciona.

O trabalho de Team Building precisa ser construído diariamente, mas de uma forma muito bem planejada. E precisa tirar os jogadores da zona de conforto porque eles gostam do churrasco com pagode, cerveja e picanha. Cresceram assim e sabem como comportar-se nesses momentos. Ou melhor, a maioria sabe. Já presencie muitos atletas passando dos limites nessas comemorações e, ao fazerem isso, entrarem na “lista negra” de treinadores e dirigentes.

O maior exemplo recente é o da seleção da Alemanha na Copa do Mundo do Brasil. Logo em seus primeiros dias na Bahia, a delegação alemã partiu em um barco pelo litoral brasileiro. Para muitos jornalistas o “passeio” simbolizava o espírito dos alemães no Mundial. Eles teriam vindo para se divertirem e o futebol estaria em segundo plano. Até hoje é possível dar uma busca no google e encontrar matérias dizendo que o time comandado por Joaquim Low havia aproveitado a manhã de folga para um passeio de escuna.

O “passeio” na verdade havia sido programado muito antes. A Federação Alemã contratou o sul-africano Mike Horn para uma palestra motivacional. Um dos exploradores mais famosos dos últimos tempos, Horn, entre outras aventuras, tornou-se o primeiro homem a circunavegar o Círculo Ártico sem transporte motorizado e atravessou a nado os 6900 quilômetros do Rio Amazonas apenas com ajuda de uma prancha de fibra.

Após a conversa, os próprios jogadores assumiram o comando da embarcação, subiram velas e tiveram todas as tarefas que uma tripulação de um veleiro teria ao cruzar os oceanos. Novamente, por uma ação do comando, eles saíram da zona de conforto. Tiveram de pensar fora da caixa. Tiveram de interagir com os companheiros em situações não previstas.

Esse tipo de ação forma ajuda na formação de uma equipe.

“Foi bastante impressionante. Mike nos contou sobre o que o ser humano é capaz de suportar, o que pode fazer sob pressão ou em alguma situação hostil!”, afirmou o capitão alemão Philip Lahm em entrevista coletiva na volta ao centro de treinamento alemão.

Em um texto publicado no site The Player´s Tribune durante a temporada 2016-2016, o técnico Cláudio Ranieri explicava um pouco dos segredos da campanha surpreendente e histórica do Leicester na Premier League, coroada com o título mais improvável dos últimos anos. Em um dos trechos, o treinador italiano contou que estava incomodado com o número de gols sofridos pela equipe nas primeiras rodadas e, antes do confronto contra o Crystal Palace, após tentar muitas saídas nos jogos anteriores, prometeu uma pizza aos atletas caso eles conseguissem uma “clean sheet”, ou seja, não sofrerem um gol. O confronto terminou com a vitória do Leicester por 1 a 0 e todos foram para a Pizzaria, mas o treinador surpreendeu aos atletas e os colocou para prepararem as próprias pizzas na cozinha.

“Uma dúzia de jogos sem tomar gols depois da pizza, na verdade. Não acho que foi coincidência”, escreveu Claudio Ranieri.

Pessoalmente, também não acho.

Uma boa ação de Team Building gera comprometimento. Bob Ladouceur foi um treinador de futebol americano do colégio De La Salle, os Spartans. Uma das estratégias usadas pelo treinador era reunir todos os jogadores semanalmente e lhes dar um cartão em branco. Nele, cada atleta deveria escrever suas metas para os treinamentos, para o jogo seguinte e para o time. Na sequência, cada jogador tinha de ficar em pé, apresentar as suas metas para o grupo e escolher um companheiro para acompanhar seu compromisso com as missões estabelecidas no cartão. Entre 1992 e 2004 os Spartans alcançaram a inédita e histórica marca de 151 vitórias consecutivas.

O legado de Bob Ladouceur virou o fime When the game stands tal (O jogo de uma vida em português). Vários atletas dirigidos pelo treinador em De La Salle viraram profissionais na NFL.

O treinador tem papel fundamental no “Team Building” em um clube de futebol. Ele precisa administrar as vaidades dos atletas e extrair todo o potencial individual em pról de um ideal coletivo, mas ele não pode estar sozinho no processo.



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