Vital



Mateus Pet, do Vasco, com Samuel correndo ao fundo (Foto: Carlos Gregorio Jr/Vasco)

Mateus Pet, do Vasco, com Samuel correndo ao fundo (Foto: Carlos Gregorio Jr/Vasco)

Para a criança, qualquer coisa que role – ainda que muitas vezes em zigue-zague – é bola. Pode ser pesado como um coco ou leve como um papel. É bola. Não importa o peso, o piso ou o passo, pisar descalço na poça, no terrão ou na grama, faz parte da magia. Chinelo é para marcar a trave. Tênis causa entrave.

Quando eu era garoto, dividi muito sanduíche depois da pelada para não ter que ir em casa comer. Corria o risco da minha não me deixar voltar. Cansei de emendar linha minha na dos outros quando a pipa do colega estancava na mão. Já carreguei muito amigo no quadro da bicicleta equilibrando o pneu furado no guidão. Naquela época a gente compartilhava mais do que posts, compartilhávamos amizades. Mas a gente cresce, infelizmente, e perde um pouco desse companheirismo, tão vital. Para vida e para o futebol.

O moleque tem a liberdade poética para tabelar no muro, narrar o lance enquanto dribla e bater verdadeiramente de três dedos, de pé liso. Sua última preocupação é se a caneleira está ou não incomodando. Ele nem sabe o que é isso. O profissional – ou que sonha ser um dia – não. No mundo dos adultos, não tem espaço para o time sem camisa, bobinho ou de fora. Ou tá dentro ou não tá. Uns estão, outros querem entrar. Samuel quer. Mateus está quase.

Dois garotos de 18 anos com sonhos iguais, de brilharem como profissionais. Um já teve o gostinho pelo Vasco, o outro ainda inicia no Macaé. A ideia na cabeça é a mesma, mas o couro que cobre os pés apontava a diferença. Mateus, que era Pet e virou Vital, já ganha chuteiras de presente das fabricantes de material esportivo. Samuel talvez ainda rache sanduíche com os amigos, como eu fazia, para ficar mais um pouco. Sonhar por mais um passo. Um passe que mude a vida.

Samuel tinha uma chuteira menor que seu pé e um sonho tão grande quanto os rasgos em seu calçado. Agora eles já cabem, os sonhos e os pés. Pet poderia ter visto apenas mais um rival, mas preferiu ser vital. Ou simplesmente Mateus, o ‘presente de Deus’.

Num meio onde chutar e pisar é esporte, quem dá o que calçar é rei. E esse meio se chama vida.

samuel macae base pet



  • Victor Figueiredo

    Que crônica perfeita parabéns garone. Exatamente como foi minha infância (talvez eu tenha nascido numas das últimas épocas de ter uma infância verdadeira, sou de 95), pena q essa “geração hashtag” dos smartphones e tecnologia avançada não brinque como antes. E parabéns para o vital q deu um banho de humildade e gentileza em MTS jogadores mais experientes.

MaisRecentes

Milton Mendes achou a posição de Pikachu



Continue Lendo

Pikachu assume a 3ª posição no Troféu Ademir Menezes



Continue Lendo

Os celibatários da verdade



Continue Lendo