Vazco



Vaz marcou o gol da vitória sobre o Flamengo (Foto: Paulo Fernandes/Vasco.com.br)

Vaz marcou o gol da vitória sobre o Flamengo (Foto: Paulo Fernandes/Vasco.com.br)

A Zona Norte do Rio de Janeiro pulsava como se fosse Carnaval. Aliás, todo domingo por lá é. O topo da colina, onde o céu é mais azul e o concreto tão cinza que reflete, ganhou tons em vermelho, algo raro por ali, mas bem-vindo.

O chão naquela área ferve por hábito. O ar também. Assim como o carvão da churrasqueira de Dona Dulce, que há mais de dez anos vende carne no fim de semana para comprar o pão da segunda-feira. Ela também faz parte daquilo. São Januário é um todo que respira através dos pés de cada um que por lá pisa. Simbiose pura. Nos dias de festa, ‘sambiose’.

Entre um espetinho e outro, um espertinho e mais alguns para estragar o domingo alheio. Em vão. Entre um passe de Andrezinho e uma roubada de Mattos, um meio-campo que com um ataque melhor qualificado poderia ter dado um passeio.

O gol poderia ter saído dos pés de Nenê, em cobrança de falta magistral. Ou na canhota cega de Riascos, após passar por Paulo Victor. Justo mesmo seria se Jomar tivesse conseguido empurrar de cabeça aquela bola em disputa com Guerrero. Mas a história do Vasco é de longa data e passa por locais onde muitos que hoje a escrevem sequer caminharam. Era necessário algo mais, precisava ser completo. A casa, o anfitrião, o arquirrival e o herói.

De pele negra, nome de carrasco e sobrenome português, Rafael Vaz carrega, até sem saber, traços da união Brasil e Portugal. Vaz, Pero, era filho de Vasco Fernandez de Caminha, cavalheiro do Duque de Bragança. Essência vascaína que a Colina Sagrada sabe reconhecer. Vaz já era sangue de Vasco antes mesmo de Rafael.

Era dele a vez de brilhar. A bola sobraria para ele, mais ninguém. Na canhota, de esquerda, no esquenta. Ninguém aguenta, é alívio.

Aos 45, dois a mais que Cocada. Em 88 ou em 2016, Deus é mais Cocada!

Quase no fim, para ninguém ter dúvidas que é sempre difícil. Fácil mesmo só o sorriso no rosto.

O Vasco de Vaz, sem Pero ou Pedro, não para de desviar das pedras. A história continua, não pelas letras do escrivão, mas pelos pés dos novos guerreiros. Com ‘i’ de identidade, não de inimigo.

Enquanto uns destruíram uma porta, Rafael abriu a sua. Com direito a janela escancarada e teto para proteger. Cada um entra na história pelo feito que realiza. Uns pelo Vasco, outros pelo vaso.



  • TulioDantas

    Que crônica magnífica, Garone! Escorreu uma lágrima aqui.

    Pode não ter tamanha importância quanto o de 88, mas para mim e para milhares de vascaínos que não viram o gol do Cocada. Esse é o nosso “momento Cocada”, o Rafael Vaz é o nosso Cocada.

  • gabriel luert tavares

    Po, talvez o cara até soubesse da história de seu nome, tirou o cara… Qualquer um que tivesse concluído o ensino médio no mínimo ouviria falar sobre Pero Vaz de Caminha, Portugal… Mas enfim. No mais, o texto é emocionante. É de boas vibrações dessas que a nossa torcida precisa!!!!!

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