Unidos de Zé Ricardo



Henrique e Pikachu vêm consolidando nas laterais do Vasco (Foto: Paulo Fernandes/Vasco)

O vascaíno mais eufórico chegou a São Januário com meia fantasia pendurada nos ombros, algumas notas amassadas no bolso e glíter escorrendo junto ao suor. São Januário foi o destino final do folião cruz-maltino neste Carnaval.

Ressaqueado, ele trocou a máscara pela camisa na quarta-feira de cinzas. Tudo o que ele queria era um último porre de felicidade antes do ano começar de verdade.

E o que se viu na Colina, principalmente no 1º tempo, foi um verdadeiro desfile de gala. Do abre alas à bateria, uma escola muito bem perfilada por Zé Ricardo.

Desábato cuidou da harmonia. Pikachu e Henrique, foram os mestres-sala. Paulinho, pulmão e coração, ditou o ritmo da bateria. Wagner e Evander comandaram a evolução. Ríos, o brigador solitário da comissão de frente. A fantasia, porém, começou a ser desenhada por Paulão. E, convenhamos, em grande estilo.

Nada mais simbólico em uma Libertadores do que um gol de carrinho de um zagueiro. No ângulo, que é para debochar do atacante mais próximo. Em pé, talvez Paulão errasse, mas deslizando, jamais. Aliás, balançar as redes desta forma deveria ser uma forma de iniciação de todo defensor, uma espécie de teste vocacional.

O gol do zagueiro, aos 16 minutos, após Evander e Wagner já terem passado perto, deu a tranquilidade que o Vasco precisava para o restante do seu desfile. Com os dois laterais avançados, a equipe seguiu pressionando com boas triangulações pelos lados e na entrada da área. O camisa 10 ainda teve outras duas oportunidades em cobranças de falta, mas não era noite de brilho individual, mas sim do coletivo.

A equipe terminou a partida com 22 finalizações, 55% delas em direção ao gol, e um aproveitamento de 92% de acerto nos passes. Números expressivos para um time que até o ano passado tinha dificuldades para marcar mais de um gol por jogo.

Paulinho marcou mais uma vez (Foto: Paulo Fernandes/Vasco)

Eu disse que não era dia de brilho individual, mas já me corrijo: a coletividade montada por Zé Ricardo, a unidade demonstrada pela equipe, como num desfile de escola de samba, fez sobressair a qualidade específica dos jogadores. De todos, sem exceção. Principalmente no 1º tempo.

Não houve, em São Januário, ali, naqueles primeiros 45 minutos, um jogador sequer que não tenha estado acima da sua média normal de atuação. Foi como se tivessem passado o ano todo ensaiando dentro do barracão para aquela única apresentação.

E o segundo gol, marcado por Paulinho, já perto do fim, veio para coroar o ótimo desempenho do time, que se movia e atacava como uma comissão de frente bem ensaiada. Curiosamente, o tento foi sair logo na improvisação. Ali, apareceu o individual.

Todo atacante é capaz de botar a cabeça em uma bola para marcar um gol, faz parte da natureza do jogador. Até dos ruins, eu diria.  O que poucos conseguem ter é cabeça para não desistir da bola antes de lances como o do 2º gol vascaíno.

Ora, tá certo que não sou um grande artilheiro, mas eu já me recostava na poltrona para anotar no meu caderninho após o chute errado de Yago Pikachu, quando Ricardo Graça botou o pé na bola sem grandes pretensões. Eu, inocente, dei a jogada como morta. E me virei. A defesa boliviana também. Paulinho, não.

O garoto me lembrou um pouco Ronaldo, em 93, quando roubou a bola de Rodolfo Rodriguez, naquele histórico 6 a 0 do Cruzeiro sobre o Bahia, no Brasileirão. Não pela jogada, mas pela inteligência e a persistência. Isso até pode ser cobrado, mas nunca ensinado.

Esta obstinação pelo gol, este olhar fixo na bola, é marca de nascença. E Paulinho tem.

Chegou três segundos antes do goleiro, e comemorou o tento apenas um minuto depois, após se recuperar do soco sofrido. Com 17 anos, Paulinho já se mostra um jogador à frente, inclusive dos ponteiros do relógio. Como se não bastasse a antecipação no gol, ainda deu dois dribles por entre as pernas de seus adversários a distância, como se antevisse a passada alheia.

Faltava ao Vasco, porém, outras duas tradições no desfile de Carnaval: a paradinha de bateria e o fechamento com chave de ouro.

Evander e Paulinho tentaram mais duas vezes no início do 2º tempo, sem sucesso. Com a vantagem no placar, Zé colocou Riascos no lugar de Ríos e Rildo na vaga de Wagner, que vinha sendo um dos destaques do time. E o Vasco parou. Por 35 minutos, o Jorge Wilstermann, ainda que de forma discreta, tentou diminuir a diferença.

A pausa, porém, lembrou bastante a da etapa final contra o Universidad Concepción, no jogo do Chile. O time recuou, atraiu o adversário, e passou a buscar contra-ataques. O colombiano, porém, mais uma vez não entrou bem na partida, e a jogada em velocidade não encaixou.

Coube a Thiago Galhardo reacender a bateria em São Januário.

Uma cobrança de escanteio fechada, e quase o gol olímpico. Uma série de dribles pela direita, e uma desarrumada na defesa boliviana. O suficiente para a torcida voltar a cantar mais alto.

O gol de Pikachu fez com que o repique voltasse a soar. Estava encerrada, oficialmente, a paradinha vascaína. E quando a bateria estoura aos 40 do 2º tempo, amigos, dificilmente ela para antes de cruzar a linha final.

Assim como no Chile, Galhardo – o falso lento, como Ramon Menezes – ainda teve tempo de dar um lindo passe para Rildo, de falso 9, fechar um marcador verdadeiro, em 4 a 0. E talvez a classificação para a fase de grupos da Libertadores.

Já não é mais a altitude da Bolívia que assusta os adversários, é a grandeza do Vasco. E não apenas pelo barulho de sua bateria ou pelo brilho de sua fantasia, mas pelo encontro perfeito que seu puxador vem criando entre enredo e harmonia.



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