Uma vitória monumental



Com um a menos, Vasco venceu o Grêmio (Foto: Reginaldo Pimenta/Raw Image)

Há quem afirme que é necessário aprender a sofrer para formar o caráter de uma equipe. Eu já acho que sofrer é algo inerente ao torcer. O vascaíno, forjado na dificuldade, nas reviravoltas, é uma prova disso. Portanto, é no sofrimento do time que jogadores e arquibancada se fundem num sentimento igual e comum. Não é alegria apenas que os une, é também o sofrimento.

São estas ligações que tornam a relação entre torcida e time algo umbilical. E quando esse suplício é encerrado com uma vitória, dessas que é necessário dar algo mais que apenas futebol, a sensação de êxito é monumental.

Tão monumental quanto foi Juninho Pernambucano há exatos 20 anos no estádio argentino que tem em seu nome uma forma de elogio que caberia a muitos que estiveram no gramado naquele 22 de julho de 1998. Só um deles, porém, consagraria nome e adjetivo em uma só frase: Juninho, Monumental.

Ao contrário de 98, porém, quem buscou o jogo de início neste domingo foi o Vasco.

Se há duas décadas Gallardo cruzou da esquerda para Sorín abrir o placar aos 21 minutos, desta vez o argentino que inaugurou o marcador também vestia camisa com faixa diagonal, mas essa era branca, não mais vermelha, e carregava uma cruz. Andrés Ríos, cria do River, um dos meninos portenhos – na época com nove anos – que talvez tenha chorado naquela noite de quarta-feira, fez o 1 a 0.

Henrique cruzou rasteiro. Ríos, por sua vez, deu à bola a elevação perfeita para superar os gigantes Geromel e Grohe. Um tapa que me recuso a acreditar ter sido sem querer. Há mais beleza na genialidade da tentativa pensada do que no acaso involuntário. E, do gol, não se tira a formosura, só se acrescenta.

Na dúvida, prefiro a imponência do golaço do que a pequenez do aleatório. Foi consciente, ainda que inconsequente.

Tal qual Burgos, o arqueiro gremista assistiu o voo da bola incrédulo, impotente, rezando por uma intervenção divina que fosse capaz de mudar a rota já definida pelos pés do artilheiro.

Não deu. Haviam mais mãos em prece em São Januário para por pra dentro do que para fora.

Por ironia do destino, talvez com inveja da bola, ambos os goleiros terminaram abraçados com as redes. Foi algo como se, vencidos, aceitassem o gol como o habitat natural da redonda. E também o seu.

Andrey ainda relembraria Juninho num chute de fora da área, dessa vez parado por Grohe, e em lindo lançamento para Pikachu, que novamente ficou no goleiro gaúcho.

O ímpeto vascaíno seria freado aos 32 minutos com a expulsão de Henrique, exagerada pelo primeiro amarelo recebido, numa suposta tentativa de atrasar um jogo que sequer havia chegado ao seu quarto inicial. O cartão amarelo, aliás, tem sido mais banalizado que o de crédito. Quem tem o poder de uso, quase sempre exagera. Por conta disso, se complica.

Neste caso, complicou para o Vasco.

Por outro lado, deu a dramaticidade desnecessária do ponto de vista racional, mas fundamental para o que diz respeito a emoção. E o Grêmio por si só é um adversário que se espera grandes emoções quando se enfrenta. É, por natureza, história e índole, um time que respeita pouco o mando de campo. Se impõe por caráter. Isso já ficara nítido quando seu ataque armou uma blitz na pequena área de Martin Silva, aos 22, que terminou no chute pra fora de Marcelo Oliveira.

Com um a menos, Jorginho girou sua defesa para suprir a ausência de Henrique. Pikachu foi para a lateral-direita, empurrando Luiz Gustavo para a zaga, que jogou Breno para a esquerda, lançando automaticamente Ricardo para a vaga do expulso. Uma verdadeira ciranda cruzmaltina, mas que funcionou.

Com Yago mais atrás, o jogo de velocidade – que vinha dando certo – deixou de ser uma opção do treinador. Com outra estratégia, o técnico sacou Kelvin e lançou em campo outro Galhardo, que não o argentino – que se escreve Gallardo – camisa 10 do River: o Thiago.

Se o Galhardo vascaíno não possui a genialidade do hermano dos anos 90, não lhe falta a garra conhecida dos argentinos. Fechando o corredor pela esquerda, onde Léo Moura e Ramiro tentavam se criar, foi fundamental na manutenção do placar vascaíno. Com cinco desarmes, só não roubou mais bolas que Andrey (7), volante vascaíno que ainda não havia completado seis meses de nascido quando Juninho dava vida ao Vasco na Libertadores de 98.

Falei que não possui a genialidade de seu quase homônimo, mas já coloco os pingos nos is. Também não falta a Galhardo a qualidade que o meio vascaíno precisa. Já o defini aqui como um ‘falso lento’. E é. Com suas passadas largas, puxou alguns dos principais contra-ataques do Vasco no 2º tempo. Deu ainda um chapéu em Ramiro que faria o ‘Gajardo’ original tirar o seu em reverência.

Mais atrás, Martin Silva garantiria tal qual Carlos Germano e a trave, na cabeçada de Solari aos 44 minutos do 2º tempo, em Núnez. O uruguaio deixou o campo como o status de herói da vitória que já deveria ter sido seu no jogo contra o Fluminense, mas Pedro não permitiu.

Não permitiu, claro, a vitória, pois a atuação do camisa 1 vascaíno, que parece ter voltado da Copa ainda em melhor forma, segue irrepreensível pós-Mundial.

O Vasco se fechou, desta vez, pelas circunstâncias de jogo, não como fez no clássico, quando era superior e se retraiu. Contra o Grêmio, jogou 70% da partida com um a menos, mas com seus jogadores dando 150% de si. Assim como a sua torcida. E quando essa matemática funciona, não dá para sair com menos de 100%.

Se é na dificuldade que os times moldam o seu caráter, o do Vasco foi forjado em 1916, quando deu os seus primeiros passos no esporte. E são estes jogos, onde os obstáculos são maiores e a superação uma obrigatoriedade, e não uma opção, que mantém essa alma forte no clube. No campo e nas arquibancadas.

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