Um Vasco operário



Raul foi um dos destaques do clássico (Foto: Carlos Gregório Jr/Vasco)

Há uma corrente que diz que jornalista não pode comentar futebol porque nunca chutou uma bola na vida – ora, como se qualquer criança não fizesse isso antes mesmo de enxergar colorido. Não acho que seja pra tanto. Até porque, o futebol se tornou o que é muito pelos textos de jornalistas que não precisavam falar de táticas e tinham aversão a frases prontas pra explicar o que acontece em campo. Viam além, não eram cegos de emoção. Há espaço, como em todos os campos da vida, para os que analisam e os que romantizam. Nem só de exatas vive o homem.

E o que houve em Brasília, neste sábado, é uma prova disso. Ou melhor: uma mistura dos dois.

O roteiro do Clássico dos Milhões desse fim de semana só poderia ter sido conduzido pelas penas de um escritor. Foi tudo, menos lógico. Desde o seu início. O que também não fez dele um confronto disputado a esmo, muito pelo contrário.

Não havia, antes da bola rolar, uma explicação plausível para a escalação vascaína a não ser uma tentativa de milagre improvável. Era, por assim dizer, até então, uma decisão tático-religiosa. Posso estar errado, mas não há curso na CBF ou na UEFA que justifique a opção de Alberto Valentim por Fabrício no meio-campo. Se há, precisa de revisão do MEC (?).

Foi um risco, quase um deboche, pelo histórico recente. Mas apesar de todas as conjecturas e delírios iniciais, funcionou.

A escolha do então renegado camisa 6 – que não jogava há mais de três meses – para fazer a função do 10, numa matemática tão inexata quanto tem sido as finanças do clube, dava a impressão de ser uma última súplica de Valentim aos deuses do futebol em busca do imponderável. Mais do que uma opção tática ou técnica, parecia uma escolha espiritual, dessas que vêm logo na sequência de um sonho revelador – normalmente sucedido também por uma fezinha no jogo do bicho.

Mas não foi o caso. Menos ainda ao acaso.

No papel, Alberto agrupou um dos times mais duvidosos de 2018. Uma escalação com um ar quase randômico, aleatório. Em campo, porém, o de maior entrega e organização. Um Vasco operário.

O 1º tempo vascaíno no Mané Garrincha foi, possivelmente, o seu melhor no Brasileirão. E a escalação improvável torna o feito ainda mais impressionante. Afinal, qualquer time recheado de craques é capaz de apresentar 45 minutos de bom futebol, ainda que ele emerja da individualidade de cada um. Mas uma equipe formada por questionáveis e semi-anônimos necessita de alma e uma obediência quase que canina para funcionar.

Antes do jogo, a imagem de Vitinho, Diego, Lucas Paquetá e Everton Ribeiro agredindo uma linha formada por Bruno Silva, Raul, Willian Maranhão e Fabrício vinha acompanhada da trilha sonora de Psicose. Por fim, o que se viu foi o contrário, com os volantes e o meia-lateral participando ativamente da criação das jogadas, obrigando os rubro-negros a pensarem também sem a bola.

Um Vasco não apenas intenso, mas democrático, imprevisível e solidário.

Com dois minutos, Andrés Ríos já fazia Diego Alves trabalhar. Seria a primeira finalização em gol das sete no alvo que o time faria na partida. Curiosamente, foi sua maior marca desde a 5ª rodada do Brasileirão, em maio, quando enfrentou o mesmo rival e também empatou em 1 a 1 após arrematar sete vezes em gol. Desde então, o Vasco não havia acertado mais que seis bolas no alvo em um jogo do Brasileiro.

Aos 13, talvez a bola sonhada por Valentim. Ou quase ela.

De cavadinha, com a confiança de um mágico de mangas curtas, Fabrício achou Maxi López dentro da área. Como um drone, a bola sobrevoou quatro flamenguistas até encontrar o peito do argentino, que dominou e finalizou de direita. Alves mais uma vez defendeu e a bola sobrou para Ríos, que preferiu o carrinho de esquerda ao carinho de direita para abrir o placar, mandando pra fora mais uma chance.

O gol, entretanto, não demoraria.

Novo passe de Fabrício, ultrapassagem de Raul pela direita, como se passeasse pela Abbey Road de Lenon, e cruzamento para López, que parou teimosamente em Diego. A bola, generosa que só ela, por sua vez, deu a Andrés uma segunda chance. Fiel, fugiu dos pés de Maxi, desviou das mãos do arqueiro rubro-negro e se ofereceu tímida e ansiosa para o o atacante fazer 1 a 0.

Era o prêmio para um Vasco focado e aguerrido, que se não era brilhante ao menos era brioso.

O Fla, mais assustado que os vascaínos com a escalação inicial, tentava cutucar de longe. Vitinho e Diego arriscavam de fora, enquanto que os laterais abusavam dos cruzamentos. Até então, sem êxito.

Mas a intensidade cruzmaltina cobraria seu preço.

Apesar da vitalidade parecer ter sido um dos critérios de Valentim na hora de escolher seus onze, é sabido que o condicionamento da equipe não é dos melhores. Seria possível, numericamente, inclusive, formar uma pelada entre atletas do DM e atletas disponíveis.

Com dez minutos passados na etapa final, Raul, o melhor em campo, capaz de deixar alma e mais algo no gramado, sentiu uma lesão na coxa e teve que ser substituído. Quebrava ali o feng shui vascaíno.

A saída do volante cruzmaltino iniciou uma discussão que culminou no cartão vermelho de Diego, do Flamengo. Em campo, porém, a sensação era inversa: Raul expulso, Diego machucado. O Fla, que não achava espaços, passou a encontrar o buraco que, na teoria, estava em sua formação.

O empate, entretanto, não sairia em razão da ausência, mas sim da presença de um jogador.

Ciente da limitação rubro-negra em marcar, o Vasco o fez para o rival. Luiz Gustavo, que rebateu 12 bolas pra longe de sua área no jogo – recordista da partida -, mandou uma contra as próprias redes.

E o gol contra, amigos, não mexe apenas no placar. Mexe com a alma. O fogo amigo traz consigo a impotência generalizada e a desconfiança coletiva. A sensação de falível deixa qualquer um frágil, exposto. O Flamengo, que não conhecia a área vascaína nem por foto, se aproveitou do momento e rapidamente passou a invadi-la sem qualquer constrangimento.

Andrey e Giovanni Augusto entraram para tentar reorganizar o meio, que além de Raul teve Fabrício, cansado, também sacado. A dupla, porém, mostrou um dinamismo comum às manhãs de segunda-feira, carregando uma preguiça maior que a perdida no incêndio do Museu Nacional.

A linha média cruzmaltina ainda sofreria mais um baque, com a saída repentina e dramática de Bruno Silva, após choque com Luiz Gustavo. Do campo, direto para o hospital, restabelecendo a igualdade numérica mas não organizacional. Acabava ali a partida vascaína.

Do quarteto de meio escolhido por Valentim, apenas Willian Maranhão terminou o jogo. E como peça participativa: foi quem mais acertou passes no clássico pelo lado vascaíno, com 34 – errou apenas dois. Nos acréscimos, ainda teve chance de marcar, em chute de fora da área. O último antes do apito final.

Um resultado que dá pouco ao time na classificação, mas com uma atuação que dá fôlego. Pela primeira vez, em tempos, notou-se um Vasco querendo mais que seu adversário. Antes, durante e depois da adversidade. E da má sorte.

No dia em que o time fez dois gols, o jogo terminou 1 a 1. Na partida em que o adversário teve um jogador expulso, a equipe também acabou com dez, mesmo sem cartão. No duelo em que Valentim pareceu acertar seus três volantes, dois saíram machucados.

Como me disse alguém no Twitter, o azar está a favor do Vasco. Eu tenho que concordar, apesar de confuso.

O mundo ainda parece meio receoso em restabelecer a harmonia em São Januário. Ainda assim, pela primeira vez, o time de Alberto Valentim mostrou querer impor seu equilíbrio por conta própria.

Há esperança.

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* Com números do Footstats



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