Um Vasco anestesiado



Wagner voltou ao time titular mas não foi bem (Foto: Paulo Sérgio/F8)

Amigos, a verdade é a seguinte: o Vasco já não sente mais as derrotas. O clube vaga anestesiado sem auxílio de aparelhos em busca de um rumo que parece sempre inalcançável, como aquelas crianças na Caverna do Dragão. A dor é um alerta. E quando se anda desavisado, o perigo aumenta.

O vascaíno, por sua vez, é o oposto. Sente as dores do clube e as suas próprias de maneira intensa e escancarada. O torcedor, cada vez mais, se aproxima do mártir, que se recusa a renunciar à própria fé.

É difícil, mas ele ainda suporta. Ainda.

Escrevi no meio de semana, na derrota do Vasco para o Atlético Paranaense, que a torcida sentiu uma saudade arrebatadora de Maxi López. O time teve algumas poucas chances com Vinícius Araújo, não marcou e acabou derrotado. O Cruzmaltino, neste sábado, porém, sai da partida com uma saudade muito mais gritante, mais embrionária: a do próprio Vasco.

E não há saudade pior. Se olhar no espelho e ver um completo desconhecido é um destes atos de ficção que só cabem em filmes. Na vida real, é pesadelo.

Quem foi ao Maracanã, palco de vários jogos históricos entre os clubes, viu apenas uma reprodução torta do velho Maraca e uma caricatura de mau gosto do time que por três vezes conquistou o continente. Um desavisado, ali, só reconheceria o Santos e sua camisa 10 que, se por motivos óbvios não veste mais o maior de todos, ao menos viveu sua tarde de Pelé.

Se não fosse pela faixa e pela cruz, o adversário poderia ser confundido com um qualquer.

O Santos não vencia o Vasco no estádio desde o milésimo gol do Rei, em 1969. Os cariocas não perdiam há tanto tempo que pareceu querer perder tudo de uma vez, como alguém com sobrepeso em seu primeiro dia de academia.

Melhor para Gabigol, que aproveitou o dia para chegar o mais próximo possível da marca que jamais alcançará na carreira, mas que no que depender do atual Vasco, não o deixaria muito longe. Fez três, e poderia ter feito mais.

O Vasco parecia querer os mil.

Vamos aos fatos: o time montado por Alberto Valentim preparou o espetáculo santista com a sutileza de quem dobra um origami.

Valentim sacou Desábato, seu primeiro volante – que não vinha tendo boas atuações, é verdade -, e colocou no gramado dois jovens que têm por característica as subidas ao ataque. E avisou antes do jogo: é necessário que um fique enquanto o outro sobe. Ora, como se ambos funcionassem naturalmente como uma gangorra.

Não é o caso. É necessário treino. Ninguém nasce gangorra.

E treino é algo que nem técnico de longa data consegue, muito menos um semi-debutante.

Ainda assim, Alberto bancou a mudança. Talvez desconhecendo uma das principais características santistas: a ausência de um centroavante dito de ofício, de área, desses que adjetivamos no dicionário como estritamente finalizador. O seu 9 é o 10, e isso muda muita coisa. Ele não entra pra finalizar, muitas vezes ele sai. Exatamente onde deveria estar o seu principal cabeça de área.

Mais do que povoar sua área, o Vasco precisava fechar os caminhos para ela. Mas não foi capaz. Pelo contrário: Alberto os escancarou.

E antes que houvesse tempo para fritar umas batatas no Airfryer, o Peixe já vencia.

Enquanto cinco vascaínos corriam para dentro da pequena área – para marcar Martin Silva, creio eu -, Gabigol correu para próximo do semi-círculo, local que seria inabitado durante toda a partida, para marcar em Martin. Uma jogada tão natural que pareceu combinada entre todas as partes, um acordo de cavalheiros.

A festa que o Vasco preparou acabou antes mesmo do primeiro furto de brigadeiro.

Aliás, de todas as promoções realizadas pelo clube antes da partida, nenhuma foi tão no timing certo quanto a promoção de cerveja – duas por R$ 8,00. Tornou-se quase que impossível acompanhar aos jogos sóbrio. No mínimo, é um desperdício o fazer.

Voltando ao jogo.

Com 1 a 0 contra, no espaço de tempo do cozimento de um miojo, o Vasco viu seu ataque mais uma vez se portar de maneira estéril. Valentim sacou o criticado Vinícius Araújo para a entrada do quase esquecido Kelvin no time titular. Optou pela velocidade, segundo ele. Agilidade que não foi vista em momento algum do jogo. A linha de três vascaína se viu mais distante que marido envergonhado após tomar um porre no almoço de domingo na frente da família.

Foram apenas 11 passes trocados entre os três, segundo o Footstats. Uma timidez adolescente irritante entre o trio que não conseguiu conversar entre si. Algo que era comum, aliás, nos tempos de Zé Ricardo.

Pikachu não é um criador de jogadas – nunca foi – , é um finalizador –  o líder do Brasileiro, com 31 certas. Kelvin, por sua vez, não tem sido nem um e nem outro. O que acabou deixando Wagner, que também não é o 10 dos sonhos, mais uma vez sozinho na armação. O efeito não poderia ter sido outro do que um inquestionável total de zero chutes ao gol no 1º tempo.

Apesar de Valentim dizer após o jogo que seus times têm por característica a marcação alta, nenhum dos três, assim como Maxi López, foi capaz de roubar uma bola na partida. Dos 13 desarmes do time – cinco de Raúl -, dez foram em seu campo de defesa. Três dentro de sua própria área.

Se foi o que o treinador quis, não foi o que ocorreu em campo.

Alberto botou seus volantes para jogar e deu espaço para os meias santistas. Para suprir a ineficiência de seus apoiadores, liberou os laterais e viu Dodô e Victor Ferraz passearem como num domingo no parque. Valentim botou o time à frente se esqueceu de trás. Erro comum a outros técnicos vascaínos na temporada, inclusive.

Em alguns momentos, a sensação era de que o Santos atacava em setembro e Henrique estava marcando em maio, tamanho espaço deixado no lado esquerdo. E quando estava na data certa, demorava a acordar. Foi assim que Sánchez achou Gabriel novamente na entrada área, sob a marcação divina – e nada mais – dos olhos atentos das arquibancadas que apenas rezavam: 2 a 0.

Da mesma maneira, marcou o terceiro. Dessa vez, com Henrique em fevereiro.

Três a zero no placar e nenhum esboço de reação da equipe. O Vasco caiu no Maracanã sem se dar o trabalho de criar um lance perigoso durante 90 minutos. Nem em impedimento, para lamentar no VT no dia seguinte. Nada.

O Vasco de Valentim ainda é um bebê, com um quê de esperança mas com uma fragilidade que assusta. Neste dois primeiros jogos sob seu comando, mostrou a vitalidade de um recém-nascido: quando não esteve enchendo a fralda, estava dormindo.

Já passou da hora do Vasco crescer.

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