Um sonho de abertura



Pira-Olimpica

O sol se põe e a noite chega. O Maracanã, ciente do seu dever como palco principal, subitamente apaga suas luzes. Todas. As pessoas temem um blackout. As crianças, espantadas, agarram seu pais. Os adultos, preocupados, acendem os celulares.

Um barulho alto e singular rompe o silêncio que já durava quase 6 segundos. Uma eternidade para um coração parado. Porém, de 0 a 100, ele dispara. Quem tem mais de 30 anos se arrepia. Quem tem menos, se encanta.

O som corta novamente o concreto do Maior do Mundo. Eles sabem o que é.  Quem é. Só não sabem de onde vem.

Os olhos lacrimejam.

Antes que alguém esboce uma palavra, o centro do gramado se ilumina. Como num sonho de criança, o carro vermelho e branco ressurge. Mais uma pausa nos batimentos. Os joelhos se dobram, e homens e crianças passam a ter o mesmo tamanho. E olhar.

Mais uma acelerada para que não haja dúvida. A McLaren chora, berra, como uma criança que sente falta da mãe. Do ouvido para a espinha. Espia, é ele.

E o carro desliza pelo campo. De uma ponta a outra do estádio, formando um ‘S’. O capacete verde e amarelo, imóvel, balança uma arquibancada de pernas que tremem.

Uma pausa novamente no centro e o motor desliga. Quem tem força chora. Quem não tem, só olha. Admira. Mira sua própria infância. Seus domingos de esperança.

A mão esquerda levanta e o verde e o amarelo rapidamente se destacam em meio ao macacão vermelho. Só não pira quem não acende. Quem não tem fogo. Nem faísca.

Um rápido apoio com os braços no cockpit e meio corpo para fora. Metade de um homem que se entregou por inteiro a um país que é, antes de tudo, intenso. Imenso.

Ele deixa sua McLaren para trás e caminha calmamente. Os olhos inconfundíveis, compenetrados, não deixam dúvida que ali quem pisa é um campeão. Eterno.

A mão acena. É Senna.

Não um tchau, um eterno até logo. Um pra sempre.

senna

Devagar, como se o tempo pudesse parar o que é dor, se aproxima da chama. E clama: não chorem, aplaudam.

O estádio se levanta e caminha junto. Fotografa com os olhos cada movimento. Resgata cada fagulha que um dia saiu do assoalho de seu carro para compor em uma só chama.

O Tema da Vitória toca, alto-falantes e corações. Ayrton, como em Interlagos em 91, ergue a tocha com dificuldades. Não há estado físico que impeça a alegria de um espírito em festa.

A pira acende. E Senna ascende.

Esta não será a abertura das Olimpíadas do Rio 2016. Apenas mais um sonho de menino…



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