Pra que serve o Estadual?



América voltou à elite do futebol carioca em 2016 (Foto: Agência FFERJ)

América voltou à elite do futebol carioca em 2016 (Foto: Agência FFERJ)

Eu sou um cara que costuma olhar meio desconfiado para consensos e maiorias esmagadoras. Acho que se tudo sempre tem mais de um ponto de vista, é praticamente impossível que apenas um se sobressaia. O equilíbrio entre duas ou mais visões me soa melhor.

Nos últimos anos os campeonatos estaduais têm sido alvos de críticas e acusados de serem os males do esporte. Certamente não é, assim como nunca foi, a competição de melhor nível técnico e maiores públicos. O objetivo nunca foi ser a melhor disputa do ano, mas sim o espaço onde as rivalidades são mantidas e os outros clubes do estado, seja ele qual for, possam ser vistos. Sim, existem mais times que apenas os grandes e eles fazem parte da história do futebol assim como os outros.

Em 1985, por exemplo, ano em que nasci, o Vasco estreou contra a Portuguesa para 6.500 pessoas. Na segunda rodada, encarou o Goytacaz, em Campos, para pouco mais de 5 mil torcedores. Na terceira, reeditou a final do Brasileiro do ano ano anterior, contra o Fluminense, no antigo Maracanã, gigante, onde cabiam mais de 100 mil expectadores, para ‘apenas’ 25 mil pessoas. Números parecidos com os de hoje, mas que agora parecem incomodar mais, como se fossem uma novidade. E naquela época nem haviam 10 canais para transmitir os jogos, ‘abrindo concorrência’ com as arquibancadas.

E o futebol naquela época era ruim? Pergunte para quem viu Zico, Roberto Dinamite, Romerito, Arturzinho, Alemão, Elói… Estavam todos por lá naquela época, mesmo com estes públicos iniciais tão parecidos com os de hoje.

“Mas se não dá grandes públicos, para que serve o Estadual?”, você pode estar se perguntando. Que me desculpem a maioria dos colegas e torcedores, mas a minha resposta é bem diferente de um simples ‘nada’.

Acho estranho que no momento em que a sociedade briga pela redução da diferença entre classes, o inverso seja proposto no futebol. “O Estadual dá prejuízo para os clubes.”, uns dizem. Eu te pergunto, para quais? Pois os grandes recebem milhões pela transmissão de seus jogos, assim como recebem de patrocinadores pela exposição da marca enquanto atuam. Sem jogo, sem tv. Sem exposição, sem patrocínio. Sem patrocínio e tv, sem dinheiro. Arrecadação com ingressos é apenas uma fatia, bem pequena, desse bolo. Não pode ser o único produto na balança.

Aliás, os grandes terão a Copa do Brasil, a Libertadores, a Sul-Americana, o Campeonato Brasileiro, com sorte, o Mundial de Clubes, e até algumas excursões para fazerem dinheiro, além, claro, das transações milionárias de atletas – muitos deles revelados nos clubes menores. Mas os pequenos só têm o Estadual. E eles, os ‘Olarias’ da vida, representam mais de 90% dos clubes do país, e é onde a maioria dos jogadores profissionais hoje atuam. Nem que seja para receber um salário mínimo, que só é pago se entrar esse dinheiro de tv/patrocinador. Valores irrisórios comparados com os grandes, mas o mínimo necessário para manterem as portas abertas.

E por falar em pequenos, dinheiro de televisão e um raro patrocínio na camisa quando enfrenta um grande são as únicas maneiras das equipes continuarem vivas. Ou você acha que alguma empresa patrocina um clube que não tem jogos transmitidos na tv? Que não enfrenta nenhum grande? Que não sai no jornal?

Eu cobri por dois anos o Serrano, da 3ª divisão carioca, da minha terra, Petrópolis. Time que impediu o tetracampeonato do Flamengo em 1980, gol de Anapolina. Sua história é essa.  O gol só ficou marcado na cidade por ter sido contra o Rubro-Negro de Zico, se fosse contra o Olaria de Darcy ninguém lembraria. Sem Estadual, sem história.

Quem fazia a marcação de campo, com cal, era o presidente do clube, nos anos em que fiz a cobertura. Quem ficava na bilheteria era um dos diretores. Os gandulas eram dois garotos vizinhos, ‘Alemão’ e ‘Magrelo’. Como pagamento, receberam a promessa que ao fim do campeonato ganhariam uma bola. Acho que até hoje a dívida não foi paga.

O maqueiro era também o eletricista e faz tudo. Eu dava carona para os jogadores que eram da cidade para não gastarem o dinheiro da passagem. Cheguei até a participar da vaquinha para comprar pastel para a janta dos garotos que vinham de fora e moravam lá. Se mil reais já fariam diferença, imaginem 10, 15 ou até 100 mil em cotas de transmissão. Acreditem, jogar contra Flamengo, Vasco, Fluminense ou Botafogo era tudo o que eles queriam. Acabar com o Estadual é encerrar esse sonho. Estes e o de milhões de garotos que iniciam nas bases pelo Brasil afora.

Eliminar o campeonato é matar essa única chance dos pequenos salvarem seus anos. Coloca-los para jogarem apenas entre si é uma forma de exclusão. Exclusão das cotas de tv, dos patrocínios – ainda que pontuais – e da revelação de jogadores. Exclusão essa que já é feita no Rio de Janeiro quando a detentora dos direitos de transmissão não passa em seus canais jogos como Volta Redonda x Boavista e Macaé x Madureira, entre outros. Com muito sacrifício tivemos este ano um América x Bangu. Bem melhor que Eibar x Celta, diga-se de passagem.

Pra que serve o Estadual então? Eu te responderia com outra pergunta: para que serve o futebol? Pra você, torcedor, não para quem vive dele, este sim está preocupado apenas com negócios. Dinheiro. Não dá dinheiro, exclui. Não é rentável, exclui. E esse pensamento, infelizmente, não é apenas para o futebol.

O futebol, para o torcedor, é entretenimento. O que mantém viva a chama é a possibilidade de ser campeão. Ou seu clube vai ganhar o Brasileiro todo ano? Pior: todos vão ganhar o Brasileiro todo ano? Impossível. O Estadual só não vale quando seu time sai antes, porque se ele chegar na final, você vai torcer. Pode nem ir ao estádio, mas tenho certeza que vai reunir os amigos para assistir, fazer um churrasco,vai comprar o jornal do dia seguinte, entrar no site para ver as notícias. O Estadual, o futebol em geral, serve para isso.

O futebol há muito tempo deixou de ser apenas arquibancada, ainda mais quando passaram a proibir bebida, bandeiras, sinalizadores e instrumentos musicais. Sem isso, fazer o que lá que você não pode fazer em casa? O Estadual me interessa sim, e se você está aqui lendo, tenho certeza que a você também. Senão estaria em outro site acompanhando as últimas do BBB. Talvez os estádios é que não sejam mais tão atraentes quanto a poltrona de casa, segura e mais barata. E não é por falta de arena, é por falta de raiz.

Sem os estaduais não estaríamos vendo a Ferroviária fazendo frente aos grandes, o Audax mantendo um modelo de jogo por várias temporadas – coisa que os grandes não fazem -, o América ressurgindo no Carioca ou o Boavista invicto até a última rodada da primeira fase. Sem os estaduais, jamais o Bangu teria feito uma final de Brasileiro, como em 85, ou o São Caetano chegaria onde chegou no início dos anos 2000. Essas coisas só acontecem quando damos oportunidades de um pequeno nos surpreender, e o Estadual, de onde for, serve para isso.

Não sou contra a criação da Primeira Liga. Pelo contrário, acredito que quanto mais torneios, curtos, maiores as chances de título dos clubes, portanto, maior interesse dos torcedores. Se eu pudesse escolher, teríamos uma final por mês. Taça é igual gol, não existe nenhuma feia. Feio é não ganhar. Acho sim que os estaduais devem ser reformulados, mas jamais exterminados. Parece discurso de fim de relacionamento: ‘Tá ruim? Termina’. Não, se não tá bom, conserta, aprimora, modifica.  Não adianta criar a Série Z para abrigar estas equipes se as pessoas sequer assistem a C.

Se uma das ideias debatidas com exaustão é a redução do número de jogos dos grandes e aumento do calendário dos pequenos, por que não um Brasileirão com 30 times e turno único – 29 jogos – ao invés de apenas 20 equipes jogando 38 vezes? Repete essa fórmula na segunda divisão e teremos 60 clubes ao invés de 40 nas principais divisões. Um aumento de 50% dos clubes envolvidos. Na Terceirona, aí sim, ligas regionais divididas em grupos com uma quantidade bem maior de times, dando chance aos pequenos de subirem.

Isso significaria mais clubes jogando na elite e dividindo o bolo, com menos datas utilizadas. Há sempre uma outra forma de resolver. Talvez o problema de alguns seja dividir. Querem apenas somar, mas só se for para si. O todo não importa.

Esse texto não visa defender as federações estaduais ou a CBF. Muito pelo contrário. Quem irá organizar o Estadual é o que menos importa, desde que seja organizado. No fim, serão pessoas que farão isso, não entidades. Pessoas essas que poderiam estar trabalhando em qualquer uma das esferas, inclusive dentro dos clubes.

Os ‘coronéis da bola’ já elegeram os seus vilões: os pequenos clubes. Bradarão até o fim que não querem que eles acabem, que só querem ajuda-los. Mas que eles sejam felizes bem distantes da elite. Isso te lembra alguma coisa?



  • Vitor Rodrigues Francisco Jr

    Discordo de você nesse caso que jogar entre os pequenos é prejuízo.Se quiserem enfrentar Bota,Fla,Flu ou o VG,que se preparem melhor com estruturas mais profissionais e com estádios decentes para os seus torcedores.Se os estádios da maioria dos nanicos da série a fluminense são horrorosos,o que dizer do histórico e importante Ítalo del Cima,do Campo Grande, que literalmente cai aos pedaços ? É um estádio que bem reformado,daria muito certo,e cairia como uma luva para uma região que é uma potência industrial e econômica da cidade do Rio.Essa visão os cartolas da Ferj não tem.16 times é muito time e tem muitos jogos fracos.10 ou 12 seria melhor.O que nós vimos com Bonsucesso e Tigres no início do campeonato é inadmissível no futebol profissional.Temos que viabilizar os pequenos pra que eles sejam viáveis o ano inteiro.Para isso aí Rubens Lopes e cia. estão pouco ou nada se importando.Viva o Rubão 2016!

    • André Schmidt

      Os jogos entre pequenos dar prejuízo não é uma opinião, é um fato. Basta olhar os borderôs dos jogos. Até os grandes muitas vezes têm prejuízo, quem dirá os pequenos. A única forma de lucrar é com tv, mas isso os pequenos só recebem quando enfrentam os grandes. Quando se corta isso, corta-se o lucro.
      Sobre a estrutura, como cobrar dos pequenos estádios que nem os grandes têm? Onde estão jogando Fla e Flu? A questão não tem nada a ver com estádios, Volta Redonda, Macaé, Moça Bonita, Conselheiro Galvão e etc sempre receberam jogos. E ainda recebem. O Campo Grande sequer joga a 1ª divisão, como manter um estádio assim? Quem poderia ajudar seriam exatamente os grandes, não os pequenos.
      Como você quer que os clubes sejam “viáveis” o ano inteiro? Não sei se você sabe mas já há um campeonato envolvendo os menores que dura o ano todo, chama-se Copa Rio. Mas ninguém assiste, pq não tem os grandes. Ninguém anuncia, pq não tem televisão. Consequentemente não há dinheiro.
      A ideia de coloca-los para jogar o ano todo não é nova, ela já existe e inclusive já não funciona. Um campeonato só entre pequenos é prejuízo. Não é uma opinião, é um fato. Isso já acontece. Em vão. Abraço!

  • Egberto Casazza

    A verdade é uma só: ñ existe espírito coletivo no Brasil. O futebol é só mais um reflexo disso. Para os “modernos e bem geridos” clubes da Primeira Liga, os clubes menores só existem para despachar jogador sem utilidade, mais nada. O negócio desses “gestores exemplares” é ganhar dinheiro, nada com o esporte e seus praticantes. Da mesma forma para os cidadãos, o próximo só lhe serve qdo convém, do contrário é buscar maximizar os benefícios próprios, independente dos incômodos ou prejuízos que tragam aos demais. Isso é a sociedade brasileira.

  • Rafael Mengão

    Quanta baboseira. Apenas Flamengo e Chapecoense em 2014 não fecharam suas contas no vermelho. Todos os times do Brasil estão endividados. Sabe qual o grande motivo? Roubalheira, inclusive dos times pequenos, que tem nenhuma visibilidade. A quarta divisão da Alemanha tem média de público melhor que o brasileiro da primeira divisão. VIVA O RUBÃO E O EULIXO.

  • Fernando

    Acho muito interessante isso. Quando estão vencendo, Fla e Flu enaltecem o Carioca, trombeteiam a sete vozes que tem tantos e tantos titulos cariocas. Foi só o Vasco começar a ganhar que o Carioca passa a não prestar. E quanto a questão dos clubes pequenos, é exatamente isso que interessa a TV e a Fla e Flu: A Espanholização do futebol brasileiro. Felizmente, temos aí o Eurico que não permite a farra dos bois.

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