Os fantasmas de Thalles



Thalles não deve permanecer no Vasco em 2018 (Foto: Alex Carvalho/AGIF)

Com os braços erguidos e os pés quase saltitantes, num misto de ansiedade infantil e impetuosidade adolescente, Thalles aguarda o passe de Fagner. E ele vem.

Com a barriga, que viria a ser o seu batom na gola da camisa, a prova irrefutável contra si próprio, ele domina. Em uma fração de segundo, a perna direita, com raiva, como um estilingue, finaliza e estufa as redes do Goiás.

A comemoração é furiosa.

O menino corre, grita, xinga, bate no peito, beija a cruz e se livra dos braços de seus companheiros. É ele e só ele, até ser parado pela parede de jogadores que o abraça. O atacante faz tudo o que sempre sonhou – inclusive acordado -, quando criança, em São Gonçalo, para aquele momento. Todos os ensaios aglomerados em um só tento.

Foram necessários apenas três minutos como titular, para o centroavante, então com 18 anos de idade, marcar o seu primeiro gol como profissional – contra o Goiás, pela Copa do Brasil de 2013. E mais treze para fazer o segundo.

Desta vez, quem pedia a bola era Juninho Pernambucano, livre. O garoto recebe de Sandro Silva e ignora o solitário Rei. Em apenas dois toques, ajeita, gira e bate de direita, de longe, no canto esquerdo de Renan. Gol de manual dos grandes atacantes.

Thalles viveu, naqueles 16 minutos, algo que talvez poucos jogadores tenham vivenciado na carreira: a sensação de, ainda que por um breve momento, ser um fenômeno.

Se era tempo insuficiente para avaliar a qualidade técnica do jogador, uma coisa era indiscutível: o menino tinha estrela. E num esporte onde pequenos segundos podem fazer a alegria de milhões, muitas vezes este brilho único pode ser um grande diferencial.

Não é comum um jovem entrar em uma partida de mata-mata, estreando como titular, dentro do Maracanã, com seu time precisando de dois gols para reverter a vantagem do adversário, e ele conseguir tal façanha em apenas um terço do primeiro tempo.

Ninguém, até ali, conhecia Thalles. Menos ainda os seus fantasmas.

E com a mesma intensidade que surgiu, os seus problemas afloraram. A camisa, antes solta e leve, passou a ficar justa e pesada.

Em quatro anos, o atacante marcou apenas 35 gols, a grande maioria pela Série B (10) e pelo Carioca (12), competições de menor nível técnico, ou contra equipes inferiores na Copa do Brasil (10). Na Série A, em 32 jogos, foram apenas três bolas na rede.

Cerca de 150 partidas depois da explosão – são 157 jogos pelo Vasco ao todo -, com uma idade em que muitos estão despontando – 22 anos -, Thalles caminha no sentido oposto da expectativa que foi criada e muito além, negativamente, do que poderia vir a ser um insucesso.

O ruim não é ser visto como um jogador comum, existem vários nessa situação e que, ainda assim, conseguem se manter dentro de um nível competitivo aceitável. O triste na situação de Thalles, é que, ainda novo, passa a impressão de que terá uma carreira tão curta quanto a sua ascensão.

É possível ser um atleta mediano e viver do esporte. O que não dá é para não ser atleta.

Assim como Thalles, existem inúmeros postulantes a jogadores que vivem assombrados por seus fantasmas. Poucos, porém, estiveram tão próximos do sucesso quanto Thalles esteve em seus primeiros meses como profissional.

Quatro anos depois, Thalles se tornou um peso para o Vasco, que tentou de diversas formas recuperar o jogador – e a pessoa. Agora, desistiu. A torcida também. O pior de tudo é que o atacante passou a ser danoso a si próprio.

Agora, cabe a ele, e somente ele, não desistir também. É a torcida que nos resta.



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