O Vasco de Zé e o abraço a São Januário



Mateus Vital fez o gol da vitória sobre o Grêmio (Foto: Reginaldo Pimenta/Raw Image)

Mateus Vital fez o gol da vitória sobre o Grêmio (Foto: Reginaldo Pimenta/Raw Image)

Um estádio vazio não respeita a privacidade de um palavrão. Impede até a impoluta liberdade do questionamento de baixo calão com a manutenção do anonimato do concreto. Expõe e cala. Tudo é coletivo, comunitário. Compartilhado.

Jogadores rezam entre berros e gritam em murmúrios. Ouve-se o estalar dos ossos nas divididas com a clareza de um apito ao amanhecer. É um confessionário a céu aberto, ampliado pelos microfones.

Qualquer um pode se tornar um torcedor dentro de um estádio. É algo instintivo. Mas só um apaixonado inveterado, desses que declaram seu amor nas paredes de uma simples viela, é capaz de transformar qualquer lugar em uma arquibancada.

Foi isso que os vascaínos fizeram neste sábado, contra o Grêmio.

A torcida cruzmaltina envolveu seu estádio como um pai que zela pelo filho recém-nascido através do vidro da maternidade. Abraçou sem encostar e amou sem mesmo olhar. Impedida de entrar em sua própria casa, montou seu lar aos pés da Barreira. Mais uma vez.

Não estavam lá pelo jogo, mas sim pelo Vasco. E nada mais.

Com São Januário como um útero durante a gravidez, próximo mas intocável, os torcedores precisaram esperar o nascimento do Vasco de Zé Ricardo do lado de fora da sala de cirurgia. E coube ao mais jovem em campo entre os vascaínos trazer a alegria do parto. Mateus Vital, aos 19 anos.

O meia que até outro dia parecia ter receio de pisar na área, como uma criança que teme tocar os pés na areia da praia pela primeira vez, atravessou a defesa gremista aproveitando a movimentação de Wagner, puxando a marcação de Kanemann, para estufar as redes. O primeiro nos profissionais.

O camisa 10 comemorou quase sozinho, na intimidade que reserva a primeira vez de todo garoto. Sem torcida, teve a rara oportunidade de ouvir o próprio grito de alegria ao marcar, como um choro de bebê que rompe o silêncio gélido do hospital.

Com 1 a 0 no placar após um 1º tempo bem equilibrado, desses que comemora mais quem erra menos, o Vasco se encolheu. Talvez mais por receio do que por ordem de seu treinador, mas foi inevitável. Com dez minutos de bola rolando na etapa final, os vascaínos já torciam para que a chegada do furacão Irma obrigasse o encerramento da partida. Ou qualquer outro evento natural.

Ou sobrenatural.

Durante 45 minutos, o time segurou mais que marcapasso de cardíaco. Ao contrário do que vinha acontecendo, entretanto, não falhou. Sentiu a pressão de um Grêmio mais forte e perigoso sem vacilar. Não totalmente sem falhas, claro, mas de uma maneira mais segura. Cedeu uma supremacia de intermediária, e nada mais.

Zé estreou com vitória. O Vasco, pela primeira vez no Brasileiro, completa dois jogos seguidos sem sofrer gols. O clima parece bom.

O Vasco de Zé Ricardo nasce sob ondas calmas. É um bom início – de trabalho – para um bom final – de ano.



  • Luciano Silva

    Perfeito texto Garone .

  • Edilaine Baresi

    Encerrando a noite com a leitura dessa crônica espetacular! Garone mais uma vez se superando! /+/🖤

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