O rosto escondido



Thalles fechou o placar em 2 a 0 contra o Volta Redonda (Foto: Paulo Fernandes/Vasco.com.br)

Thalles fechou o placar em 2 a 0 contra o Volta Redonda (Foto: Paulo Fernandes/Vasco.com.br)

Quem sonha em ser jogador de futebol espera o dia em que verá seu rosto na capa de um jornal ou na abertura do Globo Esporte. Num momento único, na arte em verde e amarelo de uma convocação para a Copa do Mundo. Com um sorriso tão frouxo que parecerá real, ao vivo, em ‘3D’.

De todas as poses e caretas que se ensaia fazer desde garoto, a de choro não tem treino, ainda que muitas vezes as lágrimas venham neles. Quase todos se preparam para a glória, alguns poucos para a luta. E é ai que sonho e realidade muitas vezes se confrontam.

Quando Thalles estreou pelo Vasco como titular, o primeiro grito que recebeu das arquibancadas foi: “- Levanta a cabeça, olha o Juninho passando na direita!”. Ele não levantou, arriscou da entrada da área e marcou um belo gol contra o Goiás. Fez mais um naquela partida e seguiu olhando para baixo. Para o próprio umbigo – que cresceu.

Aos poucos, a cabeça mudou e o rosto também. A garra deu lugar a marra. O ‘Balo’ no apelido ganhou outro sentido. E o menino sentiu. Sentou, no banco. Em meio a tantas caras novas, a de Thalles, aos 20 anos de idade, já parecia velha, batida.

Por um desses casos do acaso tão frequentes que casam, o gol que pode trazer ao atacante uma nova esperança para a carreira veio em uma quarta-feira de cinzas, dia de reflexão e de mudança. Há quem fale que o problema é o excesso de festas. Certo é que o fim dela ‘abençoou’ o garoto.

Enquanto o abre alas de Jorginho caminhava de ressaca por São Januário, contra o Volta Redonda, num 0 a 0 atípico para quem costuma curtir a folia pelas ruas do Rio de Janeiro, o camisa 18 parecia mais fino que garrafa de champagne em fim de bloco.

A cabeça dessa vez levantou e enxergou Nenê passando pela esquerda. O rosto, porém, foi escondido. Sem cara de mau, nada de batida no peito ou pose para as câmeras. Thalles deslizou e marcou. Estufou e ficou, na posição que caiu. À frente do gol que pode tê-lo levantado.

O menino que sonhava em marcar para dar alegrias, agora chora sobre a grama que comeu nos últimos meses. De rosto baixo, mas de cabeça erguida.



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