O que fica do Vasco de Zé Ricardo



Wagner tem atuado melhor quando centralizado (Foto: Paulo Fernandes/Vasco)

Zé Ricardo assumiu o Vasco, em agosto do ano passado, pegando uma equipe que vinha de constantes mudanças táticas e de escalação. Milton Mendes, seu antecessor, tinha como característica alterar o time de acordo com o adversário. Zé, por sua vez, chegou e estabeleceu rapidamente uma forma de atuar. Ajudado pela chegada de reforços, como Anderson Martins e Ramon, fortaleceu o setor defensivo e conseguiu levar o clube de volta à Libertadores após seis anos.

A temporada 2018, porém, foi bem diferente para o treinador. Com a perda de peças importantes e constantes problemas físicos – alguns previsíveis, pelo histórico dos contratados -, em seis meses, Zé Ricardo não conseguiu definir uma forma do Vasco atuar. Apesar de ter mantido o modelo de jogo, o 4-2-3-1 de 2017, as estratégias adotadas variavam. Assim como pequenas mudanças de posicionamento de acordo com os nomes escolhidos.

A equipe que defendia primeiro e jogava por um contra-ataque ou um lance de bola parada, em 2017, passou a tentar dominar os jogos com posse de bola. No início do Brasileiro, a equipe chegou a liderar as estatísticas do fundamento, tendo uma média de 59,8%. A posse, porém, era quase toda em seu campo defensivo, o que favorecia a marcação alta do adversário.

O Vasco é um time de pouca movimentação. Com exceção do homem mais centralizado, os outros dois da linha de três, mais abertos, pouco se movimentam para ajudar na saída defensiva. O que torna sua marcação previsível.

A dificuldade seguia – e segue – sendo a transição entre defesa e ataque. Com Leandro Desábato e Wellington, dupla de volantes escolhida pelo treinador no início do ano, o argentino contava com pouca ajuda do camisa 7 – falei sobre o assunto em um texto em abril -, que acabou perdendo a vaga para Bruno Silva.

A troca de nomes, entretanto, mexeu também com o posicionamento de Desábato, que deixou de ser o primeiro homem à frente da zaga para ser o segundo. Muitas vezes, no 4-1-4-1 sem a bola em que o time se posiciona frequentemente, numa variação bastante adotada por Zé, o ‘hermano’ formava na linha de quatro atletas, se  posicionando mais à direita, distanciando da defesa e, consequentemente, participando menos da saída de bola e precisando correr mais pelo gramado.

Sua média de passes, inclusive, caiu de 68 toques certos por jogo para 41, após a mudança.

À esquerda, o posicionamento de Desábato contra o Atlético-MG, mais centralizado e participativo no jogo. Em alguns momentos chegava a se posicionar entre os zagueiros, dando liberdade para Wellington e os laterais; na direita, seu mapa de calor contra o Flamengo. Atuando ao lado de Bruno Silva, foi deslocado para o lado direito, com Bruno atuando mais centralizado. A mudança fez com que o argentino participasse menos do jogo (Imagem: Footstats)

A entrada de Andrey na equipe, nos últimos jogos, ocorreu apenas em razão do afastamento de Wellington e da lesão de Bruno Silva, algo que valida as críticas sobre a teimosia de Zé Ricardo. Em dois jogos, o jovem da base deu uma assistência, fez um gol, e teve média de três desarmes por partida. Um rendimento, aliás, que já havia tido no Carioca, nos poucos minutos em que esteve em campo. Ainda assim, era pouco aproveitado pelo treinador, que pediu, recentemente, a chegada de mais um nome para a posição: Raúl, do Ceará.

Sua entrada, porém, no clássico com o Botafogo, manteve Desábato mais pelo lado direito, enquanto que sua participação ocorreu preferencialmente pela esquerda. Por lá, inclusive, soltou a bomba para marcar o único gol vascaíno na derrota por 2 a 1. E o argentino, por sua vez, mais uma vez não foi bem.

Contra o Paraná, entretanto, atuando ao lado de Bruno Cosendey, Andrey jogou mais centralizado, e por lá iniciou a jogada do gol de Pikachu. O novo técnico vascaíno terá que reorganizar esse funcionamento dos volantes. Desábato, pela direita, não tem rendido. Andrey, porém, vem bem tanto centralizado quanto pela esquerda. Cosendey, outro escanteado por Zé Ricardo, pode ser opção.

À esquerda, o posicionamento de Andrey contra o Paraná, mas centralizado. À direita, contra o Botafogo, tendo uma participação maior pelo lado esquerdo, com Desábato caindo pela direita (Imagem: Footstats)

Outro que ganhou novas oportunidades em razão das lesões e suspensões foi Ricardo Graça. Mesmo tendo sido batido por Igor Rabello no gol botafoguense, o defensor mostrou qualidade com a bola nos pés e também nos desarmes. Com quatro roubos de bola nos dois últimos jogos, o jovem foi o 5º zagueiro com mais desarmes nas últimas rodadas do Brasileirão, empatado com Dedé, do Cruzeiro, e Rhodolfo, do Flamengo, por exemplo.

Se Zé Ricardo insistiu por meses com Paulão e Erazo, o novo treinador receberá a equipe com Graça em bom momento. Ao lado de Breno, hoje, a melhor opção defensiva do elenco.

E se a defesa é o grande vilão do clube na temporada, outra boa notícia fica por conta do retorno de Ramón.

Após um bom início de temporada, sendo um dos garçons do Campeonato Carioca, Henrique caiu de rendimento e chegou a ser preterido para a entrada de Fabrício. Ambos, porém, só reforçaram a saudade do torcedor pelo titular de origem.

No clássico do fim de semana, o Botafogo explorou exatamente a conhecida fragilidade do lado esquerdo de defesa do Vasco. Por lá, Jean passou como quis por Fabrício e cruzou para Kieza abrir o placar. No 2º tempo, com a entrada de Ramón, o Alvinegro passou a explorar mais os avanços de Moisés pelo lado lado oposto. E o Cruz-Maltino fez o inverso, atacando mais pelo lado do camisa 6. De lá, Andrey marcou após passe de Pikachu.

Pikachu, aliás, tem sido o termômetro do time. Pela esquerda, criou as melhores jogadas da partida. Na direita, após a entrada de Lucas Santos, com pouco apoio de Luiz Gustavo, passou a ter que centralizar mais as jogadas, perdendo a finalização de perna trocada, uma de suas características.

Na direita ou na esquerda, certo é que Yago é peça fundamental do Vasco para a retomada na temporada. Fica ao novo treinador a missão de não depender apenas dele. Giovanni Augusto não retornou bem. Wagner, aberto, rende menos do que no meio – posição ocupada por Giovanni. Falta, portanto, um outro ponta, que deveria ser Kelvin, mas uma nova lesão o deixou fora de combate. Caio Monteiro não rendeu. Paulo Vítor também não. Riascos, que pode deixar o clube, idem.

Ou reforça, ou muda a forma de jogar. Algo que Zé Ricardo não fez durante sua passagem.

Na frente, outro ponto a ser repensado pelo treinador. Mas que terá que passar também pela diretoria. Passados seis meses, o Vasco ainda procura um centroavante. Ríos, apesar de algumas boas exibições recentemente, não é um artilheiro. E isso fica claro quando vemos que Pikachu é o goleador do clube na temporada. O argentino, porém, tem outros recursos, como um bom pivô e visão de jogo, qualidades que podem aflorar tendo um companheiro de ataque.

Riascos pode deixar o clube, o que facilitaria – inclusive financeiramente – a chegada de um novo atacante. É preciso, entretanto, que seja para jogar. Durante toda a temporada o Vasco fez apostas em jogadores que vinham de lesões – como alertado aqui no blog em janeiro -, e hoje paga o preço por isso, com seu Departamento Médico lotado.

Zé Ricardo deixa ao seu sucessor algumas das dúvidas que recebeu de Milton Mendes. Algumas respostas, curiosamente, surgiram apenas no fim, por necessidade e não por suas escolhas – casos de Ricardo Graça, Cosendey e Andrey.

O elenco, entretanto, é mais frágil. Falta lateral-direito, zagueiro, meia e atacante. É meio time. O trabalho, para quem vier, será dobrado.



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