O peso de uma goleada



Vasco de Jorginho sofreu 7 gols nos últimos dois jogos (Foto: Carlos Gregório Jr/Vasco)

Mais dolorosa do que a goleada, apenas a goleada de virada. Isso porque o massacre vem logo após a doce sensação de quase vitória. A derrota com virada não é apenas um insucesso, é uma vitória que foi arrancada de si.

Veja bem, quando o atropelo é premeditado, encaminhado desde o início da partida, o torcedor dilui o sofrimento dentro dos 90 minutos. Às vezes ele até desiste precocemente e abandona o enterro antes da última pá de cal. Mas quando a pancada vem de surpresa, em meio à euforia da vantagem conquistada, ela dói mais.

E foi exatamente isso que ocorreu no jogo entre Vasco e Corinthians, neste domingo.

O placar de 4 a 1, solto num recorte qualquer de jornal, pode dar a impressão de que foi um domínio completo da equipe paulista, do pontapé inicial ao apito final. Não foi. Foi um confronto de dois tempos distinto, onde os vascaínos foram melhores na 1ª etapa e o corintianos avassaladores na segunda.

A diferença de supremacias se desenhou exatamente no placar. O Vasco, um pouco melhor na primeira metade: 1 a 0. O Corinthians, soberano na última: 4 a 0. Final: 1×4.

O confronto, porém, foi além da simplicidade fria do placar final. A começar pelo bom início carioca.

Desde o princípio, Vasco e Corinthians mostraram estratégias distintas para vencer o duelo.

O Cruzmaltino, com Evander atuando centralizado – na posição de Giovanni Augusto, que ficou de fora por pertencer ao clube paulista -, tentava as triangulações pelo meio entre o camisa 10, Andrés Ríos e Yago Pikachu. Finalizava quase sempre de fora e para fora, mas concluía.

Os corintianos, por sua vez, tinham a velocidade pelos lados como caminho. Com Clayson pela esquerda, Pedrinho pela direita e Romero se movimentando entre os dois, o Alvinegro tumultuava a defesa vascaína mas não conseguia finalizar. A primeira tentativa aconteceu já com 43 minutos de bola rolando, com Danilo Avelar, de cabeça, e parou no travessão defendido por Martín Silva.

Ou seja, o Corinthians se arrumava, se penteava, botava perfume, mas não saia de casa. O Vasco, mesmo sem a mesma grife, com a roupa ainda meio amarrotada, já se preparava pra abrir a primeira cerveja. E abriu.

Um pouco antes de Avelar carimbar o travessão de Martín, Jorginho inverteu os lados de Kelvin e Pikachu. De isolado na direita, com as poucas subidas de Luiz Gustavo, Yago ganhou campo na esquerda para aproveitar os avanços de Fagner. Dito e feito.

Pikachu avançou, driblou o lateral e foi derrubado. Pênalti convertido pelo artilheiro vascaíno na temporada com 15 gols.

O Vasco foi para o intervalo com o 1 a 0 no placar e uma superioridade comprovada estatisticamente. Foram oito finalizações contra apenas três do Corinthians na primeira metade de jogo. Uma prova de que, mesmo que quisesse golear, os corintianos não teriam tido tentativas suficientes dentro dos 45 minutos iniciais.

O mesmo, porém, não se pode dizer do segundo tempo.

Tal qual um milionário inconsequente que aposta tudo numa mesa de dados, o Vasco se lançou à frente nos minutos iniciais e se atreveu a dar o contra-ataque ao Corinthians mesmo estando na frente do placar. Evander, que havia feito um bom primeiro tempo, voltou para o segundo com a displicência no qual é criticado habitualmente. Errou um cruzamento no bico da área de ataque e, em seguida, um passe no meio que gerou o contra-ataque do gol de empate.

Clayson partiu sozinho e cruzou. Martin sai para marcar Jadson no lugar de Ricardo Graça. Graça, por sua vez, foi defender como se fosse Martin. Na ciranda vascaína, quem dançou foi o próprio time. Com cinco defensores na área, nenhum foi capaz de acompanhar Romero, que empatou o jogo.

Os lados, antes bem congestionados pelos vascaínos, de repente se viu mais aberto que o debate sobre vender ou não o mando de campo em jogos importantes. O que freava a velocidade corintiana era a organização defensiva do time, que se perdeu na irresponsabilidade de querer acelerar um jogo que até então vinha sendo favorável.

Faltou apreço pela bola na volta do intervalo. Assim como faltaria tranquilidade e capacidade de reorganização da equipe.

Jorginho acabou provando do próprio veneno quando Loss tirou Pedrinho da direita e o centralizou, se aproximando mais de Clayson e Romero, passando a jogar em cima de um nervoso Luiz Gustavo, que não repetiu as boas atuações defensivas que havia tido recentemente.

O segundo gol corintiano, inclusive, é um quadro do que se tornou o Vasco após sofrer o empate.

Estáticos e impotentes, Luiz Gustavo, Pikachu e Andrey apenas assistiram a enfiada de Clayson para Pedrinho, que foi livre ao fundo e cruzou para o Romero virar o jogo. Ricardo Graça, outro que parece ter se desencontrado nas últimas partidas, novamente cedeu a antecipação ao atacante, assim como já havia acontecido contra a LDU, no meio de semana.

E aí que chegamos ao que citei no início do texto.

Após a euforia da vitória parcial, rapidamente o Vasco sentiu os castigos da virada repentina. O time de Jorginho, aparentemente desnorteado pela reviravolta sofrida em apenas 11 minutos, se perdeu ainda mais. Assim como o seu treinador.

Mesmo dando certo a inversão de Pikachu, o técnico voltou para a etapa final com Kelvin na esquerda. Após os gols, pôs Wagner e sacou Evander, que se foi mal em lances decisivos no 2º tempo, ao menos havia sido mais participativo e criativo que o veloz atacante, que terminou o jogo como o líder em perdas de posse de bola – oito, segundo o Footstats. O camisa 10, em contrapartida, vinha sendo o líder em assistências para finalização, com quatro.

A alteração deixou o ataque cruzmaltino, que se não era eficiente ao menos criava, previsível. O volume de chutes diminuiu, de oito para três, e o de cruzamentos aumentou, de quatro para 16. O time que criava pelo meio, com triangulações e jogadas de pivô com Ríos, passou a buscar lances laterais. Ineficientes para quem tem como elemento surpresa o baixinho Pikachu.

E se os laterais sobem, os espaços aumentam.

Mateus Vital entrou para cair às costas de Luiz Gustavo, e conseguiu um pênalti – discutível, assim como o do Vasco. Jadson bateu e ampliou. Com os vascaínos entregues, Romero ainda fez o quarto, dando um peso ainda maior a derrota.

Jorginho rebateu as mudanças do Corinthians com dois jogadores jovens e de velocidade, Lucas e Paulo Vítor. Ambos entraram, porém, exatamente quando os paulistas se fechavam e buscavam contra-atacar. Com a defesa bem posicionada, nenhum dos dois conseguir criar. Faltava o passe, que Wagner não conseguia dar.

Jorginho trocou a posse pela velocidade. As jogadas trabalhadas de pé em pé, pelo um contra um, que não funcionou. E nem parecia que funcionaria.

O Vasco foi até Brasília para faturar um pouco mais – recebeu uma cota fixa de R$ 800 mil -, mas deixa a capital ainda mais endividado com o seu torcedor. Seja de onde ele for.

Após alguns dias de boas notícias fora de campo, o Vasco deu de frente com velhos problemas dentro dele.

O time ainda é frágil. O trabalho de Jorginho, que já chegou contestado, também.

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