O outro jogo



 (Foto: Divulgação/Vasco)

(Foto: Divulgação/Vasco)

O menino chega em casa suado, camisa meio torta pendendo para a direita e a bermuda com marcas que só a infância explica. Em uma das mangas é possível ver os fios puxados de quem parece ter passado no muro de chapisco inúmeras vezes. O rosto vermelho dá a impressão de que a tarde foi na praia, mas não é o caso.

Com sede, atravessa a sala sem ao menos dar boa noite. Seu pai, chega mais de um minuto depois, após estacionar o carro e caminhar calmamente, contrastando com o filho.

‘- E aí, meu neto, como foi o jogo?’, pergunta o avô enquanto o garoto responde positivamente com o dedão sem ao menos olhar para o senhor sentado numa poltrona verde, que aos poucos se torna beje. Na outra mão, uma velha garrafa pet cheia de água, quase congelada, ainda com um pequeno pedaço vermelho do rótulo original na lateral, refresca o garoto.

Após um gole demorado, o menino puxa o ar como se retornasse de um longo mergulho por uma caverna só sua. A garrafa, com o afrouxar da mão, estala voltando ao seu formato normal e quebra o ‘quase transe’ do jovem.

‘- Foi sim, vô. Bem legal!’, responde ainda ofegante após sua apneia da hidratação.  Metade da água vai na camisa, para o desespero da mãe que vê a sujeira virando lama no traje branco e também no chão, em cada gota.

‘- Que golaço do Pikachu, hein? Já tá batendo assim na bola?’, segue o patriarca na conversa. A saúde já não lhe permite frequentar as arquibancadas, por isso tem no neto os olhos e ouvidos que mantém a distância do estádio, quase sempre ligados no velho radinho.

‘- Já pedi pra seu pai trazer pilhas novas para o Zé – nome que deu ao rádio em homenagem ao locutor José Carlos Araújo -, fui obrigado a ver pela televisão. Não é a mesma coisa.’, resmunga antes mesmo que o garoto consiga lhe responder.

‘- Nem vi o gol, vô. Mas papai falou que foi bonito. Quando olhei já estavam comemorando. O ruim do estádio é isso, não tem replay’.

‘- Ruim do estádio? Como assim? A hora que não puder ir, como eu, você vai se arrepender de ter dito isso… Prefiro mil vezes perder a imagem de um gol do que a vibração de uma arquibancada. O gol é o pretexto da alegria, não o real motivo. Ela tá lá já, só esperando a rede balançar para pôr pra fora.’

‘- Eu sei, vô. Não quis dizer isso. Adorei ir ao estádio. Aliás, já marquei com o pai de voltar lá na quarta-feira. Ele até comprou os ingressos. Inclusive um pra você.’

‘- Vocês sabem que não posso ir! E também, de que adianta eu ir se você não presta atenção no jogo? O que você faz lá, fica no celular do seu pai? Já falei com ele pra regular isso. Tem que saber separar os ‘Pikachus’, tem hora pra tudo!’, enquanto fala, levanta com um ar desolado e ruma para o seu quarto. Antes, olha para o filho que, calado, ouve tudo sem esboçar nenhuma reação.

‘- Não, vô. Lembra que você me falou que o seu sonho era um dia jogar em São Januário? Então, fiz isso por você, por isso não vi o gol…’

‘- Como assim, moleque?’

‘- Acho que não foi do jeito que o senhor queria, mas foi bem divertido, vô. Lembra do Sabará, que você sempre fala? Então, eu falei que era ele. Fiz dois gols assim! O Miguel, filho do Ronaldo, vizinho, queria ser o Juninho. Nem reclamei. Sabia que você preferia o Sabará.’

‘- Quarta eu deixo você ser o Sabará, vô! Posso ser o Ipojucan?’

‘- Com certeza, meu filho. Com certeza…

Obs: vídeo feito pelo amigo @Cristrollvao



  • Bruce

    Bela crônica! Como é bom ser VASCO!

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