O novo Maraca e o velho vascaíno



O amor pelo Vasco não tem idade (Foto: André Schmidt/Blog do Garone)

O amor pelo Vasco não tem idade (Foto: André Schmidt/Blog do Garone)

Waldir levanta cedo e logo começa a passar sua camisa. A calma e a atenção nos mínimos detalhes fazem parecer que é ele quem estará em campo logo mais.

Após o almoço, puxa o seu banquinho para a parte de fora da casa, estica as pernas e chama Dona Neuza, sua companheira com quem já completara Bodas de Ouro, para lhe ajudar a proteger o seu joanete, antes de calçar suas chutei… Ops, seus sapatos.

Os preparativos, o ritual, são dignos de um craque da bola. Waldir está se preparando para ir ao Maracanã – ou o que restou dele – após quase 20 anos. São mais de duas décadas sem ver o Vasco – ou o que restou dele – em campo.

São 72 anos de vida e 73 de Vasco, como gosta de falar. O andar calmo entre o estacionamento e a fila de gratuidade escondem a ansiedade de quem irá encontrar um velho amigo que há tempos não vê. Não ter pressa é uma das grandes virtudes que a vida lhe ensinou.

‘Parece um shopping’, é a sua primeira frase ao chegar na área interna do anel do Maraca. As palavras saem secas, sem qualquer tipo de emoção, nem positiva e nem negativa. Mas é nítida a frustração em ver um de seus velhos companheiros tão diferente. É um ‘novo amigo’, não o antigo.

Ao sentar, tira seus sapatos e os empurra suavemente para baixo da cadeira. É o alívio para o joanete que tanto esperava, mas que em momento algum fez menção de reclamar.

‘- Mil novecentos e quarenta e três’, diz de forma inesperada. Sem entender nada, olho para ele aguardando a continuação.

‘- A resposta é 1943, o ano em que eu nasci.’, completa enquanto eu me viro e vejo sobre o que ele falava.

No telão, a pergunta que eu sequer havia visto e que ele já tinha respondido: ‘Em que ano o Vasco estreou a camisa com a faixa branca diagonal?’.

Ele finalmente se sente em casa.

A torcida canta e ele apenas observa, afinal até as músicas mudaram. Mas aplaudir ele pode, e o faz, com as mãos fortes que os anos de marcenaria ajudaram a talhar. O Vasco ataca, os torcedores levantam e ele acompanha a jogada sentado, apenas pela reação da torcida e uma pequena fresta entre os corpos eufóricos sedentos por um pé salvador.

No intervalo, apenas um comentário simples, mas que resume tudo: ‘Tá difícil pra gente, né?’.

Durante as duas horas em que fica no estádio, poucas palavras e reações. Nem o gol sofrido no fim o tira do sério. Waldir parece mais preocupado com o rapaz – como ele mesmo disse sobre o homem de seus 40 e tantos anos – que chora ao seu lado desolado do que com o time que sai de campo cabisbaixo.

‘- Desculpa te trazer aqui para ver isso, Waldeco.’, digo logo que nos levantamos dos assentos.

‘- Que isso, meu filho, você disse que me traria para ver o jogo, não me prometeu a vitória. Só fico triste de não ter visto nem o Maracanã da minha adolescência e nem o Vasco da minha juventude. Mas isso também não é culpa sua.’, me responde com toda a tranquilidade do mundo.

‘- Gostou pelo menos do passeio, vô?’, eu insisto esperando arrancar ao menos algo de positivo de uma noite trágica.

Ele apenas faz um ‘joia’ com a mão e segue sua calma descida pela rampa. Notando minha decepção com o sábado frustrado, decide falar.

‘- Psiu, você sabe aonde mora o Vasco?’, pergunta num tom que destoa de toda a movimentação agitada da saída.

‘- São Januário?’, respondo eu com a certeza de que estou errado.

‘- Não é não, é aqui.’, e suavemente toca com seu dedo indicador no meu peito e depois no dele.

‘- É no coração meu filho, não ocupe também a sua cabeça com isso.’, completa sem que ao menos eu tenha tempo de indagá-lo.

Aos 48 do segundo tempo saiu o gol que arrancou lágrimas da torcida. Aos 72, finalmente o sorriso que busquei ver durante todo o sábado.

Ao voltarmos para casa, ele convida para uma última cerveja, para dormir melhor, diz ele. Eu aceito, é claro.

‘- Toma, vamos beber nesses copos’, fala enquanto coloca duas tulipas com a Cruz de Malta em cima da pia e abre uma latinha.

‘- Pior seria se estivéssemos sozinhos lá, meu filho, mas viu quanta gente?’, diz enquanto enche os copos.

‘É sinal de que não somos malucos, apenas apaixonados… Tim tim!’, finaliza encerrando o assunto e o dia.

Até a próxima, ‘vô’.



  • Carlos

    A tranquilidade de seu avô , contrasta com os nossos jogadores no Brasileiro . O jogador símbolo da arrogância , após perder , o gol mais feito da partida . THALES !

  • Ricardo

    Um exemplo de vascaíno. Parabéns para o “seu” Waldir. Também sofro como ele. Tenho 70 anos e sou vascaíno há 60 anos, nos bons tempos em que o Vasco formava estupendos times. Hoje, não tem jeito mais…

  • Claudio

    Isso é tudo muito bonito, mas a situação do Vasco é crítica e vexatória, senão me engano acho que é a pior dos Brasileiros até agora, pq fazer só 8 gols em 21 jogos, e´brincadeira.
    Pode escapar, matematicamente sim, mas o que vemos é um bando em campo e um dirigente retrógado e ignorante.

  • ODILON SILVA = RJ

    Saudades quando esses clube tinha grandes vascainos que amavam esse clube de verdade, saudades dos grandes notáveis vascainos, saudades quando existia o fogo ingênuo da vascainidade, saudades quando serviam esses clube, saudades dos grandes vascainos que construiram esses clube com muito suor………………..Hoje só bagunçam esses clube, hoje só pensam em saquiar esses clube, hoje só pensam em fazer vidinha nesse clube, hoje só pensam em fazer desse clube a fonte das realizações de seus desejos, hoje só tem aproveitadores, saudades dos verdadeiros corações vascainos…………

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