O infeliz dorme aos 45



Luis Fabiano marcou mais uma vez (Foto: Paulo Fernandes/Vasco)

Luis Fabiano marcou mais uma vez (Foto: Paulo Fernandes/Vasco)

O vascaíno é, por natureza, um alcoólatra inveterado, que acorda com a boca amargando na segunda-feira, jurando que nunca mais irá beber. Ainda tropeçando nas pernas, antes do almoço, entretanto, toma uma pinga para abrir o apetite e se banha novamente no perfume da ebriedade.

É um viciado, um inexpugnável. Alguém que conhece as dores de seus hábitos, suas mazelas, mas não os larga.

Seu vício é a sua paixão. Amar demais é o que lhe entorpece.

Apenas essa relação quase umbilical explica dois fins de semana seguidos com arquibancadas cheias em São Januário após atuações tão ruins no início do ano. Somente um bêbado convicto e bem treinado para compreender que os tombos são tão marcantes quanto os sorrisos.

E ambos são melhores quando realizados em grupo.

A sede que o vascaíno tem é proporcional a fome que Jean tem em campo. O volante é símbolo do amor e ódio que vivem os torcedores com o time, capazes de vibrar e xingar em questões de segundos. E com razão.

O Vasco é tão imprevisível quanto os efeitos de uma dose de vodka no fim da tarde. Pode ser o ponto alto do seu dia ou o fim dele. E, por mais que o resultado de seu gole seja incerto, ele se embebeda sem pudor.

O vascaíno, a cada rodada, mergulha em apneia sem a certeza se voltará. E quando submerge, com as bochechas vermelhas e os olhos ainda em êxtase, sorri.

Ninguém percorre um clássico com duas viradas e um gol decisivo aos 47 do 2º tempo de maneira sóbria e equilibrada. Isso é coisa de desequilibrado, que em meio à loucura se sente em casa. No caos, são os normais que precisam se adaptar.

O torcedor do Vasco, hoje, é um bêbado que desfila seu porre com orgulho apesar dos ralados que os últimos tempos lhe deu. Ele sorri sem timidez, enquanto os outros apenas contemplam e tentam entender de onde vem tanta alegria.

Vem dele mesmo.

A torcida cruz-maltina marcou uma festa em São Januário neste sábado e convidou o time. Não o inverso.

O Vasco venceu o Fluminense por 3 a 2 com a emoção que uma roleta-russa alcoólica regada a gim e conhaque costuma ter. O time se embebedou da paixão de seu torcedor e foi soberano no 1º tempo.

Voltou a se embriagar de velhas bebidas, golfou, e permitiu a virada.

Porém, foi no gosto do velho whisky de Nenê que o vascaíno saboreou a vitória. Do amargo da antiga garrafa já guardada no fundo do bar, nasceu a saideira vascaína. Aquela que não tem hora para acabar. Como a alegria vascaína.

Pobre daquele que não se alegra com um gol nos acréscimos em um clássico. Esse, já não beija enquanto faz amor. Já não há mais paixão.

O infeliz dorme aos 45. O que tem fé, ainda saboreia a saideira…  E nem olha para o relógio.



  • Ygudu

    Analogia fantástica, texto belíssimo.

  • Gleidson Closterman

    Nossa… que comparação mais infeliz num país cheio de coitados com a vida acabada pelo vício do álcool. Não julgo que seja patrulhamento meu, mas acredito que vc tem capacidade suficiente para ter escolhido uma comparação bem melhor para seu texto. Aliás , o amor de seu torcedor pelo time nem precisa de metáfora alguma para ser ilustrado….

    • TulioDantas

      O nome disso não é uma comparação, o nome disso é ANALOGIA, meu caro.

      • Gleidson Closterman

        Obrigado pelo falso intelectualismo Tulio. Pesquisado no dicionário :
        ” Sinônimos de Analogia :
        semelhança aproximação ponto em comum paridade similitude ligação comparar relacionar comparação alfinidade analogia conexão conformidade parentesco relação tendência armadura coerência conjunção dependência encadeamento ligação nexo travaçao acordo concerto concordância consubstanciação correspondência entendimento harmonia homogeneidade identidade igualdade regularidade resignação submissão unanimidade unidade correlação homologia mais…”

      • Gleidson Closterman

        Obrigado pelo falso intelectualismo. Pesquisado no dicionário :
        ” Sinônimos de Analogia :
        semelhança aproximação ponto em comum paridade similitude ligação comparar relacionar comparação alfinidade analogia conexão conformidade parentesco relação tendência armadura coerência conjunção dependência encadeamento ligação nexo travaçao acordo concerto concordância consubstanciação correspondência entendimento harmonia homogeneidade identidade igualdade regularidade resignação submissão unanimidade unidade correlação homologia mais…”

    • André Schmidt

      Desculpa, mas infelicidade é você ler o texto e só conseguir tirar essa imagem deturpada dele.
      Abraço.

      • Gleidson Closterman

        Talvez vc não tenha um alcoólatra com a vida familiar dilacerada em sua família ou entre seus amigos , André. E eu o felicito por isso e peço a Deus que assim continue. Obrigado e abc tb.

        • André Schmidt

          Na verdade eu tenho. Sempre tive. Obrigado pela preocupação.
          É algo difícil de largar, né? Algo que entranha na pessoa, apesar da consciência do mal que faz…
          A paixão de um torcedor também. A analogia é essa.
          Abraço!

          • Gleidson Closterman

            Muito difícil e muito triste… força aí e abc tb.

          • Nei Menezes

            No grande boteco da vida, bebemos a mesma bebida amarga servida no mesmo copo. Somente a ressaca de muitos porres sofridos e a irrefreada paixão nos levam a produzir e entender alguns dizeres (e “escreveres”).
            Parabéns pelo texto.

    • Paulo Henrique Horovits

      Mimimimimimimi

    • Marco Antonio

      Nada a ver vc comparar isso ao futebol, foi uma analogia que o autor do texto encontrou, se formos pensar somente no lado ruim da coisa a alegria de outras de nada adiantará

    • Vander Vasco

      essa é a geração mais MIMIZENTA DA HISTÓRIA!!! O “politicamente correto” tá tirando a graça da vida, das piadas, até das analogias “poéticas” como essa… tudo vira PROBLEMATIZAÇÃO!!!! Que saco mermão!!!

    • Luciano Silva

      Larga de ser chato parceiro . Um dos melhores textos do Garone . Para se ver que ainda existe vida inteligente na crônica esportiva

  • Marco Pacheco

    texto foda !! parabéns!

  • Marcelo Ramos

    Analogia perfeita! Acho que a maioria entendeu! Sem ofensas !

  • Michel Botelho

    Parabéns André pelo texto, uma analogia perfeita, e e assim a vida, como um bar, nesse bar, bebemos, sorrimos , choramos, caímos levantamos, e seguimos em frente…um forte abraço!

  • alessandro972

    Depois da ressaca do campeonato carioca, cujo efeito foi um apagamento alcoólico dos “brabos”, acordamos sem saber o que houve, mas com uma certeza do que iria haver. Dai, levantamos da sarjeta e caminhamos até o bar do brasileirão 2017. SDV

  • Dirceu

    Ontem, vimos um time com espírito de luta, que foi excitado pela vibração de nossa torcida, mas também um time organizado, que enfrentou o, antes favorito, Fluminense, de igual para igual.
    Até as preocupações com nossa defesa, não encontraram respaldo na postura tática da equipe, que usava seu conjunto para a defesa e ataque. Gostei da evolução apresentada pela equipe, que deixou para trás as caóticas performances e começa a ter um regente, a previlegiar o conjunto.
    Ontem me senti o vascaíno que sempre foi respeitado por todos. A explosão de um grito de desabafo aos 47 do segundo tempo, trazia consigo a paixão, o orgulho, mas também a raiva pelo compulsório caminho de derrotas, a que nos conduziram os nossos incompetentes dirigentes.
    Um longo caminho temos pela frente, mas agora precisamos estar sóbrios, pois, se em campo renasce a esperança de um Vasco em crescimento, mesmo depois de tantos erros, não esqueçamos que sem a união em torno de um processo de renovação da competência profissional, da transparência na gestão de nosso clube, não existirá recuperação definitiva, e os dias de embriaguez estarão somente adormecidos, prontos para nos recolocarem no destrutivo vício, que só nos trouxe a tristeza e o desrespeito.

  • Carla

    Na boa o mundo ta muito chato!!!! Sou viciado no meu Vascão!!!!!!!!

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