O imponderável



Fabrício fez o gol da classificação vascaína (foto: Paulo Fernandes/Vasco)

Durante toda a semana, jornalistas, torcedores, curiosos e desavisados, discutiram a importância do ‘tatiquês’ no futebol. O debate envolvia o excesso de novas expressões buscadas em livros e estudos para explicar o que se vê em campo.

O que poucos têm discutido, porém, é o que não pode ser visto no gramado. O imponderável, o impalpável, poucos tem tido o trabalho de tentar entender. Ou descrever.

Pois o que aconteceu no Maracanã, nesta quinta-feira, no encontro entre Fluminense e Vasco, foi mais uma grande atuação do inesperado, do improvável. Mais um clássico que, como se tivesse vida própria, se recusou a ser somente estatística.

Não há tática capaz de definir o posicionamento de Sobrenatural de Almeida – famoso personagem de Nelson Rodrigues – em campo. Sua função, só o futebol em sua forma mais pura, a passional, explica.

Não existe pirâmide invertida que coloque numa prancheta bem desenhada as voltas que a vida pode dar dentro de 90 minutos. Mesmo com uma bola quadrada, num grande retângulo verde com ângulos nem sempre retos, é possível deixar o campo como estrela. Nem tudo no esporte são linhas e triangulações, às vezes o que muda um jogo são as curvas inesperadas.
A verdade é que no futebol, quando se esgotam as chances de triunfo dos heróis, destes que se apresentam com uma capa brilhosa e um cavalo branco de ancas largas, ele dá ao vilão a chance de extirpar de si a alcunha que carrega. Uma única oportunidade, como se dissesse baixinho, em tom de deboche: erra mais uma vez, vai.

Mas Fabrício não errou.

Eu disse no Twitter, quando o placar marcava 2 a 2, que não havia mistério no Vasco. Era nítido, pra mim, quem definiria positivamente e negativamente o jogo. Erros individuais defensivos – algo recorrente – ajudaram nos gols do Flu. Na frente, brilhos de Pikachu e Paulinho deixaram o Cruz-Maltino vivo. E assim se arrastou o confronto até os minutos finais, com heróis e vilões bem definidos, como num filme da Sessão da Tarde. Quem errou, porém, fui eu.

Uma coisa é duvidar de um time. A outra, bem mais grave, é desconfiar da capacidade do futebol de surpreender.

Fabrício errou dez passes na partida. Errou ainda o bote em Gilberto, no primeiro gol tricolor. Errou, também, outros quatro lançamentos no jogo. Teria, talvez, errado o nome do próprio filho no cartório na hora de registrá-lo se fosse um dia comum. Porém, jamais, de forma alguma, teria errado um chute aos 49 minutos do segundo tempo, em um jogo decisivo, num clássico, após ter sido tão vilão. Nem se quisesse.

Veja bem, nada é impossível para um homem vaiado. Do aplaudido, por vezes, notamos uma certa postura arrogante, desleixada. O famoso salto alto. Agora, naquele que foi xingado, desacatado, há uma inquietação natural. Um inconformismo necessário nestes momentos.

A bola teria caído em outros pés, se não fosse o roteiro, até então trágico, traçado pelo próprio jogador. Mas em certas ocasiões, é necessário ser vilão antes de ser herói.

Fabrício, segundo suas próprias palavras, amassou a bola durante todo o jogo. Seu chute, porém, entrou manso, tendo o cuidado de tocar nas redes duas vezes, em cima e do lado, para que não houvesse dúvidas.

Houve quem achasse que ela faria uma espécie de sinal da cruz por dentro das traves, perdoando Fabrício de todos os seus pecados.

A bola correu sempre perto dos postes, como se recusasse a ir ao fundo do gol.

A redonda, tantas vezes amassada pelo camisa 6, talvez surpresa, também quis sair para comemorar. A festa, entretanto, era de Fabrício, o herói improvável mais sincero que o Maracanã já viu.



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