O imponderável não tem lado



Evander não foi bem na final (Foto: Paulo Fernandes/Vasco)

É possível jogar uma final sem lateral. Ou com quatro. Já vi ganharem até sem atacante. E até mesmo sem goleiro. Mas jamais vi um campeão sem alma. E o Carioca deste ano não foi diferente. Não seria, também, se desse outro resultado. Vasco e Botafogo já duelavam em clima de final desde os primeiros jogos entre as equipes no ano, na Taça Rio. E em todas se equivaleram.

Cruz-Maltino e Glorioso fizeram quatro finais em menos de um mês, e respeitaram cada uma. Até o último minuto. Em todas.

Ora, não há nada mais sentimental, emotivo, do que uma decisão. É algo que mexe com a torcida horas antes do confronto e permanece nela por dias. Como cheiro de cigarro, que às vezes nem o próprio fumante nota que ainda está nele, entranhado. Finais são intensas, duradouras. E quando dois rivais se propõem a disputar antes mesmo do tempo, pode se esperar de tudo.

Os botafoguenses dizem que existem coisas que só acontecem com o Botafogo. Não só dizem, afirmam. E afirmam com uma certeza que não sabemos nunca se é pessimismo ou otimismo. Só eles sabem. Depende do dia, eu acho.

Não se sabe o que, mas o botafoguense está sempre certo de que algo acontecerá. Para o bem ou para mal. E acertam, quase sempre. Neste domingo, exatamente contra aquele que vinha sendo o rei do imponderável, o Alvinegro aprontou mais uma vez. Devolveu o veneno que até então parecia ser remédio para o Vasco: o gol inesperado no fim.

O gol nos acréscimos tem um ar de deboche, provocativo. Como se o autor escondesse um segredo durante 90 minutos, e o revelasse apenas no fim, causando ao adversário uma dor quase que renal.

Cheguei a escrever outro dia que cinco minutos não são acréscimos, é repescagem. Tenho pra mim que nunca, ninguém, marcou aos 12 minutos. Ou aos oito, sei lá. E se o fez, ninguém lembra. Agora, após os 45, é inesquecível. É quase um fetiche.

Mas vamos ao jogo.

Exatamente por ser conhecerem tão bem, Vasco e Botafogo jogaram para se anular. Citei os dois, mas na verdade essa foi uma escolha cruz-maltina. O Alvinegro precisava da vitória, necessitava somar. O clube de São Januário, apenas neutralizar. Zé Ricardo entrou em campo com Henrique no meio, na vaga deixada pelos lesionados Paulinho e Giovanni Augusto, buscando dificultar a saída do Bota com Marcinho e Carli pela direita.

Durante 35 minutos, a grande troca de socos em guarda baixa, vista nos três encontros anteriores, se tornou uma discussão rotineira de vizinhos, entre muros. Era tudo o que a equipe de Zé precisava: repetir o que havia feito com o Cruzeiro, pela Libertadores. Por um pouco mais de meia hora, conseguiu.

Até a expulsão de Fabrício.

Com um a menos, é possível ser campeão. O Vasco, que tanto esticou o tempo nos últimos jogos, quase foi. E talvez não tenha sido exatamente por não ter conseguido controlar ele. Sem uma peça exatamente no seu lado mais frágil, seu fígado, local que Zé Ricardo buscava proteger, o time vascaíno precisou correr mais do que deveria. E, possivelmente, mais do que conseguiria.

A opção do treinador foi encurtar o campo. Porém, próximo do seu gol. Com Werley e Ricardo Graça nas vagas de Galhardo e Riascos, o Vasco se curvou nas cordas, abaixou o queixo e aguardou o gongo final. O Botafogo passou a cruzar bolas da intermediária, consagrando Erazo e Paulão. Martin Silva chegou a parar Brenner no peito. Não na força, no coração.

No fim, o gol de Carli concluiu a dramaticidade que toda grande final costuma ter. Um herói improvável, no minuto inesperado, logo após ter também um jogador expulso. Por 60 minutos o Vasco segurou o Botafogo jogando com um a menos. Mas bastou menos de um minuto em igualdade para afrouxar seu kimono cedo demais e receber o golpe final.

A defesa de Martin no pênalti de Pimpão, com o braço esquerdo, o mesmo de Paulinho, o mais próximo do coração, ainda deu uma sobrevida ao time da Colina. Werley e Henrique, entretanto, pararam em Gatito, outro estrangeiro que brilhou no Carioca.

Vence o Botafogo, o último a desistir. Perde o Vasco, por entregar no fim mesmo se entregando durante todos os outros minutos. E ganha o futebol carioca, com uma decisão digna de sua tradição. Respeitada até o último chute. Ou melhor: até a última defesa de Gatito. A do título.

Canal do Garone: Análise de atuação do Vasco



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