O futebol que (quase) ninguém vê



Serrano x Duquecaxiense no Atílio Marotti (Foto: Guilherme Riggo)

Serrano x Duquecaxiense no Atílio Marotti (Foto: Guilherme Riggo)

Há algo de familiar nas divisões inferiores do futebol. Um sentimento de almoço de domingo, de pelada com os amigos, de churrasco no tijolo. Campo pequeno é casa de vó, acolhedor e cheio de personalidade.

Atrás do gol, no alambrado sem arquibancada, o olhar é no olho. Não há diferença de plano. Não tem grito de guerra, é berro ao pé do ouvido. Individual e direcionado, como bronca de pai.

O futebol globalizou, e as crianças hoje torcem para um time em cada país, como se fosse um crime assistir a todos os jogos da Premier League sem necessariamente escolher um favorito. Mas entendemos a euforia, o que não podemos permitir é a covardia. E isso eles não têm. Se entregam mas não estragam.

Os mais jovens sonham com o distante, almejam o intocável e esquecem do próximo. Desejam conquistar o mundo antes de serem donos de suas próprias casas. Os mais experientes querem o passado de volta, colo de mãe, broa da avó, água da bica, terrão e dedão sangrando.

Saudosismo? Talvez.

Quem viu pouco do mundo quer tudo ao mesmo tempo. Deseja todos os filmes produzidos em Hollywood nos últimos meses. Sonha com efeitos especiais novos. Aquele que já viveu um pouco, gosta da guitarra destorcida, o ruído do LP, o original daquele cinema clássico.

Pode ser lindo o novo filme do Al Pacino, mas dificilmente fará eu me emocionar tanto quanto o teatro da escola da minha filha. Nem tudo é qualidade e produção, quase (?) tudo é sentimento e coração. Ao menos para mim.

A Série C do Carioca tem um tanto dessa nostalgia, ainda que vivida em frente aos seus olhos, em tempo real. Tem quero-quero na lateral, maqueiro derrubando jogador, gol de pênalti duvidoso aos 45 minutos do segundo tempo, pressão da torcida, torcedor símbolo atravessando o campo de joelhos, vizinho assistindo da laje fazendo churrasco…

No último domingo, tudo isso esteve presente do Estádio Atílio Marotti, em Petrópolis. Para quem é da cidade, o famoso Campo do Serrano. Aos que estiveram no lugar, o novo ‘Campo dos Sonhos’. Ali, Garrincha assinou seu primeiro contrato profissional, Acácio ganhou projeção, Anapolina impediu o tetracampeonato do Flamengo, em 1980, e, particularmente, iniciei minha carreira como jornalista aqui no LANCE!, em 2013, no projeto Craque do Futuro.

Contra o Duquecaxiense, neste fim de semana, o Serrano venceu por 2 a 1 e garantiu o acesso para a Série B do Campeonato Carioca. Para quem não conhece a realidade destes clubes, algo pequeno. Para quem entrevistava jogador enquanto ele costurava a chuteira pós-treino e ajudava no ‘ratatá’ do pastel, a certeza de que foi um feito gigante.

Não só para quem subiu, mas para quem nunca desistiu.

O Leão voltou, até onde pode ir no momento. Mas não ao limite do que sonha.



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