O Clássico da Paz



Vasco venceu o América por 3 a 1 (Foto: Paulo Fernandes/Vasco)

Vasco venceu o América por 3 a 1 (Foto: Paulo Fernandes/Vasco)

Vô David é o irmão mais velho de Tio Tavinho. Ambos são filhos de Vô Nico e Vó Nana. Todos com letra maiúscula no grau de parentesco, eram – e são – tão nome próprio quanto o mesmo. O mais novo, torcedor do América. O primogênito, vascaíno. Ambos nasceram na década de 30 e praticamente viram o futebol nascer no Rio de Janeiro.

Em paz, sempre souberam lidar bem com a diferente posição na arquibancada. Já moços, assistiam juntos aos jogos na geral do Maracanã. Vovô deixava o táxi mais cedo para ir ver seu grande amor e, na volta, ainda levava meia dúzia de torcedores para casa sem cobrar bandeira dois. Já salvava pelo menos o valor do ingresso.

“- Só não cobrei do Jair, aquele jogava muito.”, dizia orgulhoso por ter tido Jair Rosa Pinto certa vez no banco traseiro de seu Fusquinha. Vô David seria hoje um excelente Uber, mas certamente não teria tanta orgulho do talento de seus passageiros com a bola nos pés. Talvez nem corresse tão rápido quanto Madson também.

De fala mansa, Tio Tavinho se refere a Zico com o irmão de Edu. Vô David, mais agitado, sequer citava o nome do craque rival. Mas também não se aborrecia, era tudo na paz. Sentimento esse que foi selado em 1937, ano de nascimento do mais jovem, quando América e Vasco se enfrentaram em um amistoso de reconciliação entre as federações de futebol do Rio de Janeiro. O Clássico da Paz.

David foi ao Maracanã pela última vez em 99, ver seu Cruz-Maltino enfrentar o Fluminense – deu Flu, 4 a 2 com show de Roni e Magnata. Tavinho largou as arquibancadas há anos, mas não o Mequinha. A camisa vermelha faz parte do uniforme de tênis, outro hobby que não deixou de lado.

Nesta quinta-feira, David não pôde ver seu Vasco enfrentar o América de seu irmão. Um câncer encerrou seu clássico em outubro de 2008 – talvez para poupa-lo do desgosto das quedas que viriam a seguir. Morreu amando sem dúvidas e nem poréns. Em paz.

O time não é mais o mesmo do seu tempo, mas seu pudesse fazer uma ligação rapidinha para lhe contar como foi, não o deixaria jamais saber disso. Talvez o lado bom seja realmente o melhor a ser olhado. Ainda mais quando se tem Nenê em campo.

‘- Vô, ele parece o Geovani, não erra nunca!’, eu diria para que ele soubesse a importância do camisa 10 para essa equipe. O Pequeno Príncipe foi um de seus últimos ídolos.

“- Tem um colombiano agora também, vô, você não vai acreditar no que ele fez… Lembra daquele voleio do Bebeto? Então, foi daquele jeito! E o lançamento desse Nenê que eu te falei?! Parecia o Bismarck, vô!”.

É melhor o exagero da comemoração do que a angústia da frustração.

“- Mas e o Meca do Tavinho, meu filho? Joga mais não? Continua naquela draga que tava?”, ele me perguntaria.

“- Que isso vô, tá melhorando, voltaram para a primeira divisão. O tio deve estar contente, fizeram até um belo gol, achei até que poderiam empatar. Conhece teu Vasco né, dá umas bobeiras de vez em quando…”.

“- Tavinho deve ter vibrado…”

“- Com certeza, vô. Com certeza…”

“- Mas foi só isso? Acabou em 2 a 1? Na minha época tinha 4 a 4, 5 a 3… Lembro até de um 6 a 2 em 1945, pelo Torneio Municipal. Lelé fez dois e se não me engano Chico, Izaías, Djalma e Sabará fizeram os outros, tô certo?”.

“- O último foi do Santo Cristo, vô, vi no Google.”

“- Isso aí, ele jogou bem no Fluminense depois também… Esse Google é jogador? Outro gringo? Colombiano ou tem esse apelido por ser artilheiro? Gu-gol!”

“- Não, vô, é outra coisa, deixa pra lá. Tínhamos o ‘Quase Gol’, estrangeiro, mas isso é outra história. Te explico em outra oportunidade.”

“- Mas e aí, o Mequinha empatou ou o Lopes conseguiu segurar a vitória? Ele adora tacar um terceiro zagueiro no fim do jogo, fazia sempre isso com o Alex Pinho. Eu ficava doido quando ele tirava o Juninho pra isso!”

“- Não é mais o Antônio Lopes não, vô, é o Jorginho, aquele mesmo que era lateral do América, jogou no Flamengo, Seleção e que foi campeão pelo Vasco em 2000. Ele agora é treinador, tem ido muito bem, deu padrão, não tem medo de lançar os garotos, organizou a casa, passou confiança para o time…”

“- Gostava dele, sempre achava o Romário…”

“- Mas então, vô, sabe aquele Nenê? Mais uma vez ele acertou o cruzamento, só que dessa vez foi o Rodrigo que fez o gol, um zagueiro bem no estilo que você gostava, brigador, xerife. Terminou 3 a 1 pra gente, pode ficar tranquilo.”

“- Já gostei desse Nenê… E olha que nem o vi jogar… Bate pênalti igual o Geovani, cruza igual Bismarck… Quando estiver com ele fale que lhe mandei um abraço.”

“- Pode deixar, vô”.

“- Esse time deve estar uma máquina, meu filho…”

“- Oooh… ”

“- Só mais uma coisa, André. Quando puder, liga para o Tavinho também…”

“- Pode deixar, vou falar que o senhor está bem e que o América vai se recuperar.”

“- Não é isso não, quando ele atender fala que eu mandei um recado pra ele.”

“- E qual é, vô?”

“- VAAASCOOOO!!!”



  • André Rocha

    Bela crônica

  • Egberto Casazza

    Caro Garone, vc é um excelente escritor. Seus textos lembram dos tempos nos quais a nossa Língua Portuguesa sempre comunicava com arte. Para nossa alegria vc usa esse talento para falar do nosso Gigante. Parabéns. Saudações Vascaínas!

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