No Independência, a morte



Pikachu fez mais uma partida discreta (Foto: Carlos Gregório Jr/Vasco)

Confesso que não assisti ao 1º tempo de partida entre América Mineiro e Vasco. As notícias que chegavam pela internet, porém, davam conta de mais um açoitamento vascaíno em praça pública. Um dos males da velocidade da informação, inclusive, é esse: tal qual as alegrias, o sofrimento também ocorre em tempo real.

Cheguei em casa durante o intervalo e acompanhei a etapa final. Para o meu azar, não tinha trânsito. O placar já marcava 1 a 0 para os donos da casa, mas era o Cruzmaltino que ruminava a bola, indo e voltando com ela em sua intermediária, como uma baba viscosa que se recusa a ir até o fim.

A troca de passes, estéril por natureza, era o retrato da ineficiência vascaína. Espera-se de um time que figura nas mais profundas covas da classificação, e que vem perdendo a partida, um mínimo de inquietação em campo, uma vivacidade em cada suspiro, uma disposição quase que amargurada. Mas não foi o caso.

O Vasco manteve a displicência habitual, tocando mais de lado que um guitarrista canhoto sem as cordas invertidas. Me lembra, algumas vezes, aquela brincadeira do balão, comum em programas de auditório, onde o apresentador faz perguntas enquanto os participantes seguram uma bola que vai enchendo, e passando um para o outro, até estourar. Os acertos são irrelevantes, apenas um rito de passagem. No fim, sempre termina com erro e susto. Assim é a dita posse de bola vascaína.

No primeiro lance de perigo na etapa final, Ríos recebeu dentro da área, girou e esperou um convite em duas vias registrado em cartório para finalizar. Preferiu a incerteza do apito do que a possibilidade do chute. Caiu sem ter nenhum dos dois.

O empate do Vasco, quando o relógio já marcava 31 minutos, num pênalti que só é marcado com muita boa – ou má – vontade, era a deixa que a equipe precisava para transformar uma atuação medíocre em três pontos. Afinal, diante do cenário que se desenha, resta ao time somente pontuar, e nada mais. Seja jogando futebol propositivo, reativo ou até mesmo cognitivo. Pode nem ser futebol, desde que coloque nos bolso alguns pontos que o façam respirar.

O não-futebol jogado pelo Vasco, entretanto, não seguraria o América por mais que dois minutos. Tempo suficiente para Aderlan, em ataque pela direita, fazer de Marrony o júnior que ainda é e de Henrique o sub-20 que em cinco anos de profissional não consegue deixar de ser, e cruzar para Gérson Magrão. Com a mesma tranquilidade que tiveram Gabigol no último fim de semana e Carlinhos no 1º tempo, o meia finalizou no não tão canto de Martin Silva, o goleiro com a 33ª pior média de defesas difíceis do Brasileiro*.

Na partida que poderia representar sua independência, uma dia antes do 7 de setembro e no estádio que carrega o nome do ato, o Vasco mais uma vez sucumbiu à morte. Um óbito que já não é mais lento. A queda é rápida, assim como o golpe.

O time cruzmaltino segue à margem, mas bem distante do Ipiranga. O Vasco, hoje, na verdade, margeia a sua própria história.

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* De acordo com o Footstats, Martín Silva tem a 33ª pior média de defesas difíceis entre os goleiros do Brasileirão 2018, com 0,37 por jogo. Um número muito baixo para quem tem um dos gols mais bombardeados do campeonato.



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