Entrevista exclusiva: Alexandre Campello, candidato à presidência do Vasco



Alexandre Campello é um dos candidatos de oposição (Foto: Reprodução)

Alexandre Campello é um dos candidatos de oposição (Foto: Reprodução)

Na segunda entrevista com presidenciáveis do Vasco, conversei com Alexandre Campello, da Frente Vasco Livre. Médico, com longa passagem pelo clube, o candidato falou sobre seus projetos e até sobre a possibilidade de união com Julio Brant, da Chapa Sempre Vasco. Confira: 

André Schmidt – Apresente-se ao torcedor vascaíno: qual a sua profissão, seu currículo e o seu vínculo com o Vasco?

Alexandre Campello – Olá, me chamo Alexandre Campello, sou cirurgião-ortopedista, tenho 57 anos, dos quais 25 passei como médico do Vasco. Frequento São Januário desde o tempo em que as sociais possuíam bancos de madeira e em torno do campo havia uma pista de atletismo de carvão. Pós-Graduado em medicina desportiva pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), iniciei minha carreira no clube do coração, ainda como acadêmico, em 1984, no time de juniores, do qual faziam parte jogadores como Romário, Mazinho e Lira. Em 1986, fui alçado aos profissionais, dando início à uma vitoriosa trajetória, que teve como ponto alto os títulos estaduais de 1987, 1988, 1992, 1993, 1994, 1998 e 2003; os Campeonatos Brasileiros de 1989, 1997 e 2000; a Copa Libertadores de 1998; o Rio-São Paulo de 1999 e a Copa Mercosul de 2000. Em 2004, por divergências com o comportamento ditatorial do atual presidente, me afastei, voltando a acompanhar o Vasco apenas como torcedor. Em 2008, a paixão falou mais alto, e por isso, a convite do então presidente eleito, Roberto Dinamite, retornei a São Januário como membro do departamento médico. Colaborei na conquista de mais uma taça, a da Copa do Brasil de 2011. Em 2012, percebendo que o clube tomava rumos com o qual não concordava, optei por me desligar. E, no ano seguinte, debrucei-me sobre as questões políticas, ingressando no grupo Identidade Vasco.

André Schmidt – Qual será o foco principal de sua gestão?

Alexandre Campello – O legado a ser deixado por nossa gestão se traduz em algumas prioridades estratégicas: o resgate do relacionamento com os vascaínos, a partir de um novo plano de sócios, mais adequado ao perfil do sócio e do torcedor; alavancar a marca Vasco, hoje apenas a décima mais valiosa do país, quando deveria, tranquilamente, figurar entre as quatro maiores; promover o equilíbrio financeiro através do aumento de receitas não oriundas das cotas de TV, tais como marketing, plano de sócios, exploração da marca e licenciamentos; e a construção de um Centro de Treinamento, com recursos próprios.

André Schmidt – Como fazer grandes investimentos no futebol sem comprometer financeiramente o clube? E como reduzir as dívidas atuais?

Alexandre Campello – Mesmo considerando as imensas dificuldades financeiras a serem enfrentadas por quem assumir o clube, é imperioso que o futebol caminhe bem, com base em organização da atividade profissional e da base. Prevemos, inclusive, um aumento do orçamento para o futebol profissional já em 2018, entendendo que um bom desempenho esportivo certamente irá nos ajudar a atrair mais investimentos. Faremos, aliás, uso intensivo da base – basta ver os jogos do Vasco no atual Campeonato Brasileiro para perceber que temos um futuro promissor. As principais decisões do futebol serão rigorosamente controladas por um colegiado a ser formado, proporcionando maior transparência e qualidades nas principais negociações do Vasco. Além disso, é de fundamental importância incorporar as melhores técnicas disponíveis ao clube. O Big Data já é uma realidade no futebol para tomar decisões confiáveis e estratégicas e identificar riscos e oportunidades. Por meio de diversos dispositivos, as informações serão integradas no intuito de obter estatísticas avançadas que permitem um melhor acompanhamento dos atletas por parte da comissão técnica e gestores. Visamos profissionalizar o departamento de futebol com o que existe de melhor, tanto a nível material quanto humano.

Como dito, uma de nossas propostas é de reestruturar toda a parte que diz respeito ao programa de sócios, que hoje é o menor do Rio. Um programa de sócios bem feito, transparente, contemplando diversas categorias, será uma excelente fonte de receitas para o clube. Hoje, as receitas do Vasco são quase que exclusivas do direito de transmissão da TV, então há uma necessidade de explorar melhor outras fontes de receita como o marketing, o licenciamento, a área comercial…. Temos que buscar um aumento dessas receitas e diminuir os gastos, controlá-los, trabalhando o orçamento com planejamento, gerindo bem os recursos. O dinheiro do Vasco tem que ser mais bem gasto do que tem sido.

André Schmidt – Já houve contato com algum possível investidor/patrocinador?

Alexandre Campello – Existem conversas com empresários de diversos setores, empresários vascaínos, que me falam da vontade deles em associar suas marcas ao Vasco, mas apenas quando o clube passar a ter uma administração responsável, transparente e que engaje os torcedores – neste caso, falo de torcedores/consumidores. Falar em nomes neste momento não é ético. Certo é que o Vasco poderá voltar a atrair patrocinadores fortes quando priorizar uma gestão moderna, descentralizada, sem nepotismo, exatamente como vamos implementar.

André Schmidt – Como fortalecer a marca Vasco novamente no cenário nacional, visto que o clube tem tido dificuldades para encontrar patrocinadores nos últimos anos?

Alexandre Campello – Várias ações vão contribuir para que a marca Vasco da Gama recupere seu lugar de destaque no cenário nacional: o resgate com os sócios e torcedores; o equilíbrio financeiro; um futebol competitivo; uma gestão moderna e profissional; transparência; valorização do patrimônio; expansão das receitas comerciais; e a valorização dos demais esportes. São estes nossos principais pilares. O Vasco da Gama é uma potência, mas hoje é comandada por bravatas – bravatas essas que, felizmente, não convencem mais sócios, torcedores e muito menos potenciais investidores.

André Schmidt – Durante a gestão atual, o Vasco reativou, entre outros esportes, o basquete profissional do clube. Por outro lado, perdeu sua representatividade no futebol americano. Qual o seu projeto para os outros esportes, além do futebol?

Alexandre Campello – A atuação do Vasco em esportes como o remo, basquete, natação, entre outros, sempre foi historicamente importante e deve, claro, ter continuidade. O torcedor gosta, acompanha. O que queremos é que estes esportes sejam autossuficientes, ou seja, não funcionem custeados com recursos do futebol, por exemplo. É imperativo a obtenção de patrocínios exclusivos e recursos oriundos de incentivos fiscais. Entendemos que o remo e o basquete, ainda que não consigam ser autossustentados, devem ser mantidos devido à tradição desses esportes no Vasco. Entretanto, outras modalidades devem buscar projetos que as tornem autossustentadas. No novo programa de sócios, haverá a opção para que o sócio dê uma contribuição voluntária para apoiar seu esporte favorito.

André Schmidt – Todo ano de eleição no Vasco é repleto de polêmicas e contradições. Uma das críticas por parte da torcida é sobre a falta de planos de sócios que dão direito a voto e a dificuldade de torcedores de fora do Rio de Janeiro em participar das eleições. É possível mudar esse panorama, tornando o processo mais democrático? Há brecha no estatuto do clube para ampliar os pontos de votação? Como poderia ser feito isso?

Alexandre Campello – A democratização das eleições é um ponto fundamental, e vamos certamente brigar para tornar isso realidade. Um clube como o Vasco não pode ter seu futuro decidido por 3.500, 4 mil pessoas. É muito pouco. E isso facilita as artimanhas de quem pretende se perpetuar no poder.

André Schmidt – O que fazer para alavancar o número de sócios-torcedores do clube?

Alexandre Campello – O plano de sócios atual não está perfeito. Pretendemos num primeiro movimento diminuir a joia do sócio proprietário para capturar novos sócios e promover um recadastramento de sócios. Entendemos também, como dito, que o direito a voto aproxima o clube do seu torcedor.

Estão previstas ações para resgatar sócios inadimplentes e sócios que tiveram a matrícula cancelada por falha do clube. Está sendo trabalhada também uma categoria para sócios fora da região metropolitana do Rio de Janeiro que têm pouco acesso a São Januário. Para estes, existe um grupo de trabalho que está estudando os principais planos de sócios no Brasil e no exterior para que tenham benefícios específicos para os sócios distantes.

É importante deixar claro que nenhum sócio contribuinte ou remido perderá o seu direito adquirido. Para estes que contribuem nesse período complicado do clube e para aqueles que contribuíram no passado também estão sendo previstas ações específicas. O clube precisa reconhecer e agradecer a esse sócio.

Nossa ideia também é ampliar os parceiros e aumentar o programa de fidelidade para que a experiência de sócio seja cada vez mais vantajosa para o vascaíno.

Além disso, haverá desconto nas joias e mensalidades para as mulheres. É importante que elas participem mais ativamente do processo. Recentemente, organizamos um evento apenas com mulheres e ficou claro como elas desejam também fazer parte do quadro social, se engajar nas questões do clube e debater Vasco. Há uma falha nesse sentido, e vamos corrigi-la.

André Schmidt – Atualmente, há pouca união entre os grandes clubes cariocas, e isso não tem ajudado muito o futebol do estado. Como você entende essa relação com os outros clubes e o que pode ser feito para a recuperação do futebol carioca de forma coletiva?

Alexandre Campello – Somos adversários apenas em campo. Fora dele, a união é fundamental. Sou um cara de diálogo, de bom trânsito com dirigentes, e acredito que a relação será saudável e de muito respeito. Nos últimos anos o Campeonato Carioca vem sendo muito desvalorizado e especialmente desmoralizado. Isso resulta em perda de receita para os clubes e diminui a possibilidade de empregar mais pessoas. Os clubes menores estão desaparecendo por conta disso, o que é lastimável. Penso que os grandes deveriam ajudar os menores, assim como a própria Federação, para que o campeonato fosse mais competitivo e com isso mais atraente.

André Schmidt – Um dos pontos positivos dos últimos anos foi o bom aproveitamento da base, que revelou Douglas Luiz, Paulinho e Mateus Vital, entre outros, e conquistou o Campeonato Carioca sub-20. Qual a sua visão sobre o trabalho realizado atualmente e como manter, ou melhorar, o departamento de base para os próximos anos?

Alexandre Campello – A ideia é que o Centro de Treinamento integre a base e os profissionais. Queremos acompanhar de perto os garotos. Valorizar a base é valorizar o mais importante ativo do Vasco, além de ser fundamental na montagem de um time aguerrido, que tenha identificação com a camisa do clube. Manter o Certificado de Clube Formador (CCF), respeitando determinados requisitos exigidos, também será prioritário. Dos grandes clubes do Rio, o Vasco foi o último a obter o documento concedido pela CBF e que permite uma série de benefícios – entre eles, o de proteger os jovens atletas de interesses de outros clubes. É preciso mais investimento para que esses atletas formados no Vasco permaneçam no clube por mais tempo e, se forem negociados, que isso ocorra quando estes estiverem mais valorizados. Acho inadmissível o Vasco vender um jogador como o Philippe Coutinho sem que ele tenha sido ídolo do clube.

André Schmidt – A reforma e a ampliação de São Januário é um tema que há décadas é debatido no Vasco. Há algum projeto neste sentido?

Alexandre Campello – Acreditamos que São Januário precisa ser modernizado. Queremos melhorar não apenas o entorno, mas também deixar o estádio e suas dependências mais confortáveis para o torcedor. Vamos transformar positivamente a experiência de quem sai de casa para assistir a um jogo do Vasco. Dar atenção ao nosso estádio certamente será uma das prioridades da gestão que pretendemos implementar. Por meio de parcerias com entidades da Sociedade Civil, serão desenvolvidas propostas para tornar São Januário um estádio moderno, acessível e ambientalmente sustentável. Mas tudo pensado com os pés no chão. Quem fala em ampliação imediata e transformação em arena, infelizmente, está vendendo sonho. Mas é possível, sim, melhorar. Uma de nossas prioridades, por exemplo, será a construção de um museu e remodelação da sala de troféus.

André Schmidt – E a criação de um CT, é viável?

Alexandre Campello – Nosso CT será construído com recursos próprios. Orçamos sua construção em R$ 30 milhões, em uma área a ser adquirida. Podemos captar recursos com patrocinadores, com o programa de sócios, criando uma modalidade do tipo sócio benfeitor remido, e também a partir de outras formas de captação.

André Schmidt – Qual é a principal urgência que você vê no clube atualmente? Qual será o seu primeiro passo em caso de vitória nas eleições?

Alexandre Campello – O Vasco da Gama é um gigante no esporte nacional e internacional, com uma torcida apaixonada e uma história linda. Hoje, diagnosticamos que o Vasco fatura muito pouco com bilheteria e com o programa de sócios, tem baixa interação com a torcida, e eleições sem abrangência e legitimidade. Natural que, de cara, a gente precise resgatar o relacionamento com sócios e torcedores. Fora isso, o equilíbrio financeiro é fundamental. O Vasco gasta mais do que arrecada. Precisamos rever os gastos e negociar melhor as dívidas do clube, além de aumentar as receitas que são quase que exclusivas das cotas de TV. Com o aumento de recursos, poderemos investir mais no futebol para que ele seja mais competitivo. Trazer um craque! Porque é o craque que leva o torcedor aos estádios. Eu lembro que antes dos clubes receberem cotas de TV, eles viviam da renda dos jogos e, quando havia um clássico, se o Roberto Dinamite por exemplo se machucasse, a renda ficava comprometida porque a torcida já não ia ao jogo.

André Schmidt – Já há algum nome definido para a sua diretoria em caso de vitória nas urnas? Qual?

Alexandre Campello – O momento não é de falar em nomes. O momento é de lutar pela união da oposição. Eu gostaria do Julio Brant como primeiro vice-presidente geral e atuando no marketing. Acho que seria ótimo para o Vasco. E já posso adiantar: o doutor Alcides Martins será o presidente da Assembleia Geral em nossa gestão.

André Schmidt – O que o torcedor do Vasco pode esperar da sua gestão, caso seja eleito?

Alexandre Campello – Muitos me perguntam os motivos que me levaram a aceitar o desafio de presidir o Vasco. Simples: a paixão. Dediquei boa parte da minha vida ao clube, venho de família portuguesa, e gostaria muito de marcar meu nome como um presidente que colaborou para colocar o Vasco no século XXI, com uma gestão moderna, profissional, transparente. Tenho uma situação estável, que me permite dedicação exclusiva à função. Temos também um projeto ambiciosos e ao mesmo tempo viável. O vascaíno voltará a sentir o gostinho das conquistas e o orgulho de fazer parte de um clube totalmente diferente do que vemos hoje. Queremos um outro Vasco. Com a marca fortalecida, vamos gerar mais recursos, aumentar os investimentos no futebol, conquistar títulos e recuperar o orgulho de torcer pelo VASCO DA GAMA!

Obs: Todas as mesmas 15 perguntas foram enviadas para todos os candidatos  e serão publicadas no blog de acordo com a ordem de resposta de cada um.



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