Entre gritos e lágrimas



Vital fez o gol da classificação (Foto: Paulo Fernandes/Vasco)

Nos últimos anos, torcer pelo Vasco se tornou um dos atos mais insalubres do futebol brasileiro. Outras paixões talvez tivessem sucumbido às temporadas frustrantes recentemente, mas a do cruzmaltino não.

O vascaíno é, antes de tudo, um otimista por natureza. Até mesmo os que carregam no peito discursos pessimistas e mazelas inegáveis. Esses, o fazem como escudo.

Veja bem, quem já não acredita no clube, em sua recuperação, na volta dos anos de glória, independente de momento político ou desportivo, simplesmente já não se anuncia como torcedor. Esses poucos passaram o domingo à tarde vendo Eliana.

A verdade é que o torcedor que acorda calmo em dia de decisão, sem suor nas mãos ou pequenos espasmos musculares, já não pode receber essa denominação. Ele já não beija durante o amor. Talvez sequer sorria durante o nascimento do filho. Portanto, não será uma rede balançando que o fará derramar lágrimas.

E um torcedor que não chora, amigos, é como um romancista que não se apaixona. É um eunuco.

Agora, o vascaíno inabalável, aquele que girava camisas em São Januário como se fossem hélices tentando elevar o time, ou o que assistia pela tv, entre lágrimas e orações, esse tem amor. Não que se apaixonar pelo clube seja difícil, ou algo raro, muito pelo contrário. Mas manter-se fiel e inquebrantável em momentos tão conturbados é ação de uma pessoa de convicção. E é na dificuldade que ele aparece.

Em dia de decisão, quem não sabe rezar aprende. E não basta acender velas, é necessário ascender a alma.

Torcer por um clube é entregar-se por completo. É lotar ruas e arquibancadas como se tudo fosse casa. E foi exatamente o que o cruzmaltino fez neste domingo, contra a Ponte Preta. A vaga para a Libertadores, veio, antes de tudo, da paixão da sua torcida.

Torcida do Vasco recebe o time em São Januário (Foto: Matheus Lima/Bancada Vasco)

A sensação que o vascaíno tem é que o último jogo tranquilo da equipe foi o 6 a 0 sobre o União São João de Araras, em 1997. E é quase verdade. Instituiu-se no Vasco, quase que de forma estatutária, embrionária, a obrigação da emoção. Ainda assim, o torcedor está lá.

Porquê? Pelo simples fato que ele, torcedor, é essencialmente paixão.

Quando Paulinho marcou de cabeça, após excelente cruzamento de Pikachu, voaram por São Januário gritos, lágrimas e alguns palavrões. Sim, palavrões. Não havia na histórica arquibancada da Colina um torcedor sequer que não fosse de extremos, passional. O passivo, desinteressado, passeava com a família no shopping.

A euforia plena poderia ter nascido dos pés de Nenê, após pênalti cometido em Madson, no melhor estilo Wagner Diniz. A trave, porém, tantas vezes amiga, dessa vez seguiu o instinto de defender as redes, e mandou pra longe a batida de canhota do meia.

Em um outro momento, ouviríamos vaias em São Januário. Porém, o que ecoou foram gritos de apoio ao camisa 10, um dos jogadores mais participativos do 1º tempo. Firmou-se ali, mais uma vez, o compromisso da arquibancada com o time: jogariam, novamente, juntos, até o fim.

Convenhamos: São Januário em dia de festa é o recorte perfeito de uma vida bem vivida. É o despojamento do subúrbio, irrigado por cerveja e churrasco, servindo como palco para o encontro de velhos e novos amigos, que cantam e sorriem. Com sorte, tem até futebol.

E quando estes fatores se encontram, nem mesmo pênalti na trave é capaz de alterar o feng shui vascaíno.

O gol de Mateus Vital, no 2º tempo, quando a Macaca impunha sua maior pressão – principalmente no jogo aéreo – apenas confirmou o que se desenhava desde o primeiro foguete lançado próximo a São Cristóvão: o Vasco estava de volta à Libertadores.

O gol de Lucca, de pênalti, no fim, serviu como último lembrete ao seu torcedor: nunca será fácil. Como não foi. E nem deverá ser na pré, pós ou durante, Libertadores. Ou Carioca. Ou Copa do Brasil. Ou Brasileirão.

O cruzmaltino, que superou o próprio descrédito nos últimos anos, finalmente se olha no espelho, após gritos e lágrimas, descabelado, numa cena digna de Rocky, e afirma, com a honestidade de um Bukowski: estamos de volta!



  • Bruce

    Estamos de volta! Grande Garone, sempre impecável nas palavras

  • Eledilson Duarte Ribeiro

    Voltamos e é sempre candidato ao título, mais precisamos de reforços de 1° qualidade.
    Com esse time não vai não.

  • Carlos Eduardo Brasil Neves

    sensacional Garone, com os lhos marejados ao final do seu texto! Graças a Deus consegui passar toda minha paixão pelo Vasco para meu filho de 8 anos!!!! Ontem eu pedia para ele ficar calmo durante o jogo e já prometi que vamos ver o Vascão na libertadores no caldeirão

  • Carlos Ferreira

    Cara, essa referencia ao 6×0 by Animal foi genial. Parabéns pelo texto…um murmúrio de Vascaino satisfeito!

MaisRecentes

Os fantasmas de Thalles



Continue Lendo

Em enquete, Anderson Martins é eleito o melhor jogador do Vasco em 2017



Continue Lendo

Vasco tem 15 jogadores em fim de contrato



Continue Lendo