Em algum lugar de São Cristóvão



torcida vasco - paulo fernandes

Torcida se divide entre otimistas e pessimistas (Foto: Paulo Fernandes/Vasco)

Num bar qualquer de São Cristóvão, dois vascaínos se encontram. É o ritual de domingo. Se não é pré-jogo, é pós. O assunto é sempre o mesmo: Vasco. Ainda que a conversa sempre inicie com algum fato pitoresco acontecido durante a semana ou alguma novidade na família, o papo ganha caminhos que sempre o levam até São Januário.

“- E do Vasco, ninguém fala?”, brada um deles quando o silêncio começa a se fazer presente junto com o cheiro forte e gostoso do café que toma conta da calçada.

“- Hoje é melhor nem falar, perder para o Paysandu em casa é brincadeira! O ruim de jogar sábado é que quando essas coisas acontecem estragam o fim de semana inteiro. Já estava torcendo pra não te encontrar para não ter que falar disso.”, responde o outro claramente contrariado.

O desabafo já era esperado, e o mais jovem apenas sorri. Logo após, toma um gole quente de sua xícara e continua:

“- Mas uma hora essas invencibilidades tinham que acabar, cara. Não tem jeito. Tudo tem um fim, até as coisas boas. O time foi longe demais com essas marcas, temos que reconhecer e aplaudir o que foi feito. Agora é tentar recuperar, foi um dia ruim.”

“- Em casa não pode perder de zero, ainda mais jogando a Série B. Ganhar jogo na Segundona já não dá para comemorar muito, perder então… A verdade é que não vem bem há tempos e as vitórias mascaravam isso”, diz enquanto caminha para o lado de fora do bar para acender um cigarro.

“- Com certeza, mas mesmo oscilando ganhou o Carioca. O que é melhor: ganhar jogando mal ou perder jogando bem? No dia após o título não te vi aqui apontando falhas. Pelo visto a alegria também serve de máscara. Neste caso, prefiro manter o sorriso. Seguimos na liderança.”, responde enquanto bebe o último gole e agradece ao balconista, deixando algumas moedas para pagar o pingado.

Os dois deixam o bar e caminham lado a lado pela calçada, em silêncio. O gelo só é quebrado quando um deles para repentinamente:

“- Que ideia foi aquela do Jorginho em tirar todos os volantes? É óbvio que não ia dar certo! Perdemos o jogo quando ele sacou o William, garoto tá jogando bem. Na defesa e no ataque. Não pode sair nem no coletivo!”, fala interrompendo abruptamente os passos calmos dos dois.

“- É verdade, mas o Jorginho tem crédito, né? Ele já colocou o Jorge Henrique até de zagueiro e ganhamos a Guanabara assim. O Vaz de atacante e avançamos na Copa do Brasil… Não adianta, tem dia que não é pra ser. Contra o Papão não era. Ainda bem que foi contra o Paysandu, sabe, tenho um carinho especial pelo clube desde aquela vitória sobre o Boca Juniors, em 2003. O Tinho, cria nossa, tava na equipe”, diz em tom saudoso.

“- Agora você quer me convencer também que existe “melhor adversário” para perder? Só pode estar de brincadeira comigo… ”

“- Não é isso, mas se tem que perder para alguém, que seja para um clube de tradição e não para esses times itinerantes”, rebate enquanto voltam a caminhar. Novamente calados.

“- Que seja…”, resmunga baixo antes de arremessar a guimba e dar o primeiro passo.

Mais três minutos lado a lado e chegam em suas casas, divididas por um muro alto, de chapisco, com algumas partes mostrando o tijolo.

“- Você é muito otimista, filho”, se despede enquanto sorri de canto de boca tentando não mostrar os dentes.

“- Aprendi com seu pessimismo, pai”, responde o mais novo seguido de um gargalhada breve, porém intensa.

“- E mais tarde, vai fazer o quê? Assistir o ‘seu’ Papão?”, diz em tom de deboche.

Sorrindo, o filho responde sem pestanejar:

“- Não, vou ficar esperando o senhor bater na porta para me perguntar que dia será o próximo jogo em casa e se podemos ir juntos”, fala enquanto abre o portão cinza que dá para a rua.

“- Então já vai comprando os ingressos porque perder duas em casa eu duvido muito! Sua mãe também vai!”, grita enquanto entra em seu terreno com o molho de chaves chacoalhando em sua mão direita.

“- Acabou o pessimismo, pai?”, pergunta.

A conversa agora mais parece um jogo de vôlei, com palavras arremessadas por sobre o muro.

“- Até isso tem prazo de validade, meu filho. E seu otimismo?”

“- É uma das poucas coisas que me restam no futebol, pai…”



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