Dener, e se…



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Madrugada do dia 19 de abril de 94, o atacante Dener sofre um acidente de carro na Lagoa Rodrigo de Freitas. Apesar do carro ter sido destruído, o jogador sai ileso da batida graças ao cinto de segurança.

Debochado, horas depois o menino ri do acontecido e declara: “Se fosse eu dirigindo, teria driblado a árvore e deixado ela deitada do mesmo jeito”, diz com um leve sorriso no rosto, como se imaginasse a cena.

Sem ter noção do perigo que correu, treina normalmente no dia seguinte e se diz pronto para enfrentar o Flamengo no fim de semana. Expulso no primeiro duelo entre as equipes – vitória vascaínaa por 3 a 1 -, Dener queria infernizar o rival. E o fez.

Com o Maraca lotado, o menino deita em cima do rubro-negro. Sem o menor respeito, entorta Gélson Baresi e Rogério Lourenço em cada jogada. Dener não quer jogar, quer dar show. E o faz. A cada drible, cada caneta, os cruz-maltinos que lotam as arquibancadas gritam seu nome. Ninguém para Dener.

Dos pés de Valdir sai o gol único do jogo, mas é o camisa 10 que sai ovacionado de campo. Dessa vez, após o apito, não depois de um vermelho.

O Vasco conquistaria o tricampeonato carioca de forma invicta naquele ano. Porém, para desespero dos torcedores, o atacante já havia acertado sua ida para o Sttutgart, da Alemanha. Ao fim do Estadual, deixa a Colina.

Endiabrado, é chamado por Parreira e vira o 12º jogador do time na Copa de 94. Após entrar no segundo tempo no lugar de Zinho e mudar a partida contra a Suécia, deixa o gramado cobrando sua vaga entre os titulares. Parreira não gosta e o deixa fora dos jogos contra Estados Unidos, Holanda e, novamente, a Suécia. Vitórias suadas e a nítida falta que o menino fez.

Dener seleção

Porém, quando o Mundial parecia ter acabado para Dener, o treinador o lança no primeiro tempo da prorrogação contra a Itália, na final. Convencido por Ricardo Rocha, parceiro de Dener no Vasco, Parreira dá o braço a torcer e o coloca em campo na vaga de Mazinho. No primeiro lance, deixa Maldini deitado e rola para Branco bater cruzado, pra fora.

Faltando três minutos para a decisão ser definida nas penalidades, rouba a bola de Massaro no campo de defesa, tabela com Cafú, e avança pelo meio. Romário pede livre, mas ele não passa. É o lance que tanto sonhou. Sem pernas, os italianos não acompanham o pique do garoto. Dener é rápido e habilidoso demais para Baresi pará-lo. Nem com falta.

“Oddio!”, esbraveja o defensor ao ver aquele moleque abusado vestindo a camisa 21 partindo com a bola dominada em direção ao gol.

Com um toque por cima, tira de Pagliuca e corre para o abraço. “É tetra! É tetra! É o gol do tetra! Dener é mágico!É tetra!”, gritam os narradores aos prantos. Dener vira herói nacional.

Ídolo no Brasil e campeão do mundo, chega à Alemanha com status de craque. Com dribles e arrancadas, ajuda o Stuttgart a chegar ao seu 5º título alemão e, de quebra, ainda leva a Copa da Alemanha.

Mais maduro, retorna ao Vasco em 98, após a saída de Edmundo do clube. Precisando de um novo 10, Eurico Miranda vai até a Alemanha repatriar o atleta. Mais de 30 mil vascaínos fazem a festa em São Januário para ver a apresentação do craque antes da estreia do time, contra o Bangu.

De helicóptero, Dener chega à Colina após quase quatro anos fora. Ao lado de Luizão, aceita a missão de comandar o ataque na Libertadores daquele ano. E consegue.

Na semifinal, contra o River Plate, deixa o campo aplaudido pela torcida adversária. Caindo nas costas de Sorín, bagunça o lado esquerdo da defesa argentina. Com cortes rápidos e curtos, tira para dançar seus marcadores e cria as melhores jogadas vascaínas.

Antes do intervalo, Dener já havia deixado Escudero e Ayala pendurados com cartões. Desesperados, os jogadores do River só conseguiram parar o atleta com falta. E é em uma delas que vem o momento de consagração.

Felipe rouba a bola de Gallardo e inverte para Dener. Sem deixar a bola cair, dá um chapéu desconsertante em  Solari, protagonizando um momento de rara beleza, que ficaria marcado na história do clube. Com o adversário no chão, avança na diagonal e passa por Astrada deixando o braço na cara do jogador, mas o juiz não vê. Nervoso, Berizzo dá carrinho criminoso e o derruba na entrada da área. Falta!

Juninho Pernambucano acerta um lindo chute, sem chance para Burgos, e empata o jogo, classificando o Cruz-Maltino. Além do golaço do meia, fica guardada na memória vascaína a linda jogada do ‘menino-gênio’.

‘Contra o River Plate sensacional, drible do Dener, no Monumental!’. Inesquecível!

Com mais um ano espetacular pelo Vasco, chega à Seleção Brasileira para a Copa de 98 em alta. Formando um quarteto mágico ao lado de Rivaldo, Bebeto e Ronaldo, vai até a final mas cai para a França de Zidane. O 1 a 0 magro garante aos donos da casa a sua primeira taça.

Expulso no meio do segundo tempo, após cotovelada em Lizarazu, Dener deixa a competição como vilão. Errar em uma Copa do Mundo é imperdoável para alguns. Contestado e hostilizado pela imprensa e torcida, retorna à Europa.

Com a camisa do Bétis, forma uma dupla de ataque infernal ao lado de Denílson. Na temporada 2001/2002, leva a equipe até a 3ª colocação no Campeonato Espanhol e o classifica para a Champions League, fato que não alcançava desde 1965.

Com os joelhos castigados pelos rivais e já com 32 anos, Dener pouco atua na temporada seguinte. O Bétis acaba caindo na primeira fase da competição europeia e o atacante resolve voltar ao Brasil. Apesar de estar em baixa, deixa a Espanha idolatrado pelos torcedores que reconhecem seus feitos pelo clube.

Em 2004, dez anos após sua primeira passagem, acerta pela terceira vez com o Vasco. Lutando contra as dores, faz um Carioca razoável, com lampejos do menino que encantou a Colina, mas já sem a mesma alegria – no rosto e nas pernas. Os dribles de Dener encantavam a torcida, mas enfureciam os adversários. E seu corpo dava sintomas disso. As pernas sentem, e a expressão no rosto acusa.

Após altos e baixos na temporada, passando a maior parte do tempo no departamento médico, o camisa 10 deixa o clube no fim do ano e segue para a Portuguesa, onde encerra a carreira no início de 2006.

‘Malandro não para, dá um tempo’, diz Dener em sua coletiva de despedida. Mas ele realmente parou. Aos 34 anos de idade, com uma Copa do Mundo nas costas e muitos dribles para recordar, era hora de pendurar as chuteiras.

Neste domingo, Dener estará no Maracanã assistindo Flamengo x Vasco e pensando em como seria bom estar ali, no gramado. Com sua cara de moleque e seu sorriso desafiador, terá seu nome gritado pela torcida vascaína quando chegar ao estádio. É tradição: “Ê Cafuné! Ê Cafuné! O Dener é a mistura de Garrincha com Pelé!”.

Afinal, não existem ex-craques e nem ex-ídolos.

Eles são eternos.

Dener é.

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