Déjà vu



Wagner foi pouco participativo no jogo (Foto: AFP)

Escrevi aqui, certa vez, no duelo entre Vasco e Jorge Wilstermann, pela Libertadores, que qualquer coisa que se jogue acima de 2000 metros do mar deveria ser chamado de quadribol – aquele jogo do Harry Potter – e não futebol. Depois de assistir ao duelo dos cruzmaltinos contra a LDU, nesta quarta-feira, vou além: mais especificamente, o que o Vasco disputa na altitude sequer é esporte, é teste de sobrevivência.

Me atrevo a dizer que em Petrópolis – 838 metros acima do mar -, aqui na minha terra, na Região Serrana do Rio, já teríamos uma nova modalidade esportiva em caso de presença vascaína, tamanha a dificuldade demonstrada mais uma vez pela equipe. Num amistoso qualquer por terras petropolitanas, veríamos um belo rodízio de balão de oxigênio e croquete do Alemão à beira do gramado, com certeza.

É bem verdade que Jorginho deixou claro, antes mesmo da bola rolar, que a Sul-Americana é uma competição de segundo escalão para o clube, poupando alguns de seus principais atletas, como Breno, Yago Pikachu, Desábato e Andrés Ríos. O desempenho, porém, poderia ter sido outro.

O Vasco que venceu Bahia e Grêmio, e que por muito pouco não bateu também o Fluminense, nos jogos pós-Copa do Mundo, simplesmente inexistiu no Equador. A organização do time se esvaiu tão rápido quanto o oxigênio nos 2.850 metros de altitude de Quito. Sem pulmão, não houve coração e nem pernas. Muito menos cérebro.

A viagem cansa, a sequência desgasta – quatro jogos em nove dias -, mas faltou também inteligência ao time de Jorginho. Veja bem, num duelo onde a respiração é tão ou mais importante que a inspiração, correr é um grande erro. Principalmente sem necessidade. E, talvez pela fragilidade da LDU e seus espaços deixados na intermediária, o Vasco correu. Quase sempre para não chegar.

Nos minutos iniciais, o time de São Januário adiantou seus volantes, centralizou Galhardo e Giovanni Augusto, quase como dois atacantes, e forçou jogadas em velocidade com Kelvin pela direita. Wagner, na esquerda, pouco participava, mas subia. Sem sucesso.

O time que precisava dosar o gás, de repente tentava fazer pressão. E quem já abriu uma Coca-Cola após sacudi-la sabe bem que o gás que sai não volta mais. Ou se abre e fecha a tampa com cuidado ou se contenta com o xarope que nada cura – muito pelo contrário. Foi o que ocorreu.

Me lembrou a velha história do ex-atacante Macedo – que atuou no Vasco em 1996 -, então um jovem jogador do São Paulo, na Libertadores de 1992, que em seu primeiro jogo na altitude foi chamado por Telê Santana, que lhe falou: ‘Entra devagar, você está na altitude’.

Sem ouvir o treinador, na terceira jogada, Macedo já estava no chão, na linha de fundo, como uma garrafinha d’água de goleiro, implorando por oxigênio.

Com o Vasco foi parecido.

Com quatro minutos, Ricardo Graça já recebia cartão amarelo por falta no meio-campo, após perder na corrida, na primeira tentativa de contra-ataque da LDU.

Aos seis minutos e 49 segundos, devidamente marcados no relógio, Kelvin perdia a bola na área adversária. Em uma das muitas jogadas equivocadas do atacante na partida, ele prefere o drible ao passe e é desarmado. Vinte e seis segundos – exatos – depois a LDU abriria o marcador.

O espaço dado foi tão grande, que ainda teve tempo do Vasco recuperar e perder novamente a bola. Bruno Cosendey forçou o passe e errou, fazendo com que o Vasco fosse pego ainda tirando a pestana pós-almoço enquanto os equatorianos já partiam para a janta.

Jogada pela esquerda de defesa do Vasco, com Henrique e Wagner avançados, e Graça tendo que ir até a linha de fundo fazer a marcação. Em vão. Anderson Julio cruzou, Cosendey não acompanhou, Andrey não voltou, Henríquez ficou com dois – e no fim, sem ninguém – e Anangonó abriu o placar. Martin ainda tocou na redonda com a discrição de um padre no confessionário.

Onze minutos depois, a LDU carimbaria o travessão. Mais três e é a rede novamente quem abraça a bola.

Mais uma vez pela esquerda de defesa, novamente com Ricardo Graça sozinho no um contra um. Dessa vez, porém, além da falha coletiva, vem a individual. Ricardo, que tem como uma de suas virtudes a tranquilidade, teve na verdade a passividade de um monge, algo imperdoável para um zagueiro. O camisa 14 acabou perdendo a bola para Anderson Julio, que achou Johan Julio livre. Luiz Gustavo ainda bloqueou a primeira tentativa, mas não a segunda: 2 a 0.

O curioso do gol: novamente a LDU levou menos de 30 segundos entre um ataque vascaíno e o seu tento. E sequer foi um contra-ataque.

Cosendey finalizou de fora da área, por cima das traves, aos 19 minutos e 35 segundos. Vinte e dois segundos depois, a rede cruzmaltina já balançava pela segunda vez. Foi o tempo entre Gabbarini, o goleiro argentino da LDU, cobrar o tiro de meta, Henrique perder na cabeça já no meio-campo e a bola sobrar para a disputa individual entre Ricardo e Julio.

Com dois a zero no placar após 20 minutos de jogo, era impossível não pensar no vexame de Sucre. E se não fosse a ineficiência da LDU, talvez o roteiro fosse mais parecido. Mas não foi.

Tentando reduzir os danos, Jorginho mexeu no Vasco no intervalo. Pôs em campo Andrés Ríos, sacou Giovanni Augusto, levando Galhardo mais para o lado esquerdo e centralizando Wagner. Thiago, porém, seguiu com liberdade para se aproximar da área e trocar de posição com o argentino. E foi numa dessas que o time diminuiu.

Galhardo serviu Kelvin, que caminhava para mais um erro ao adiantar a bola de pé direito, mas o atacante acabou derrubado dentro da área. Fazendo jus ao sobrenome, Thiago caminhou com elegância para a marca penal e bateu quase com desdém, no meio, dando ao goleiro a sensação de fuga da bola, como se o movimento antinatural fosse o seu: 2 a 1.

O gol fora de casa, de pênalti, numa partida em que o Vasco parecia mais perdido do que tangerina no cesto de laranja, era a redução de dano que a equipe precisava. O gol freou o ímpeto equatoriano e deu uma sobrevida ao time, tanto na partida quando na competição.

A noite, porém, não era vascaína.

Os vascaínos esboçaram pressionar algumas saídas de bola, forçaram alguns chutões da defesa equatoriana, mas nada que desgastasse mais a LDU que o próprio Vasco. Aos poucos, a chama que já era pouca foi se apagando. Cosendey, que já pouco havia participado no jogo no 1º tempo, pareceu sentir ainda mais o desgaste. A defesa que dava espaços nas subidas passou a dar brechas mesmo postada.

Com PV no lugar de Kelvin, que se não conseguia concluir as jogadas ao menos incomodava, o lado direito de defesa do Vasco também passou a ser mais explorado. Apesar da boa atuação de Luiz Gustavo, um dos únicos que pareciam respirar e transpirar como se estivesse ao nível do mar.

O terceiro gol da LDU sairia num déjà vu ainda mais sombrio de Sucre. Bola aérea, volantes fora da área e nova falha de Ricardo Graça. Mais um gol de Arangonó: 3 a 1.

Vasco e altitude, definitivamente, não combinam. O clube que se orgulha de ser raiz segue mostrando dificuldade nas copas. Não das árvores, mas as nacionais e continentais. Resta agora ao clube e a Jorginho manterem os pés no chão. O que não quer dizer que deva ficar estático. A altitude deturpa a atuação, mas também expõe algumas fragilidades, físicas, técnicas e táticas.

É possível reverter o placar em São Januário, o que não dá é para a altitude jogar mais do que onze jogadores sempre.

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