Carta a Jorginho



Jorginho despertou o interesse do Cruzeiro (Wagner Meier/Lancepress)

Jorginho despertou o interesse do Cruzeiro (Wagner Meier/Lancepress)

Querido Jorginho (não, não sou a Dona Lúcia),

Sei que não me conhece, talvez nem vá ler o que estou escrevendo, mas ainda assim tomei a liberdade de escrever algumas linhas para lhe pedir uma coisa: não deixe o Vasco.

Não sei se digo isso como torcedor, ‘trabalho’ que exerço antes mesmo de escrever – em blogs ou nas paredes de casa -, ou como um conselho de amigo, ainda que distante. Não sei se ficar será melhor para você ou para o clube, mas acredito que uma saída será pior para os dois. Acredite.

Eu poderia te dizer que a torcida sempre apoiará o seu trabalho e que terá estabilidade para sempre, mas estaria mentindo. As arquibancadas de São Januário ainda irão te vaiar um dia, os gritos de ‘burro’ são mais certos do que a ‘penteada’ de Nenê na bola. Mas tudo isso será bem melhor se acontecer com a Cruz de Malta no peito e não no lado oposto. Aqui a gente se entende, relembra o passado e se acerta. Em outro lugar, eu já não sei.

Olha, talvez você me conheça sim. Ainda que não saiba. Ou não se lembre. Em 94, eu era uma daquelas crianças que caíram de joelhos quando você achou Romário no meio dos gigantes suecos. Fui eu quem gritou: ‘Não cruza, não! Toca atrás!”. Lembra? Aquele moleque no meio de outros tantos se amontoando na frente do Bar do Seu Sérgio, em Petrópolis, brigando com os adultos por um espaço que fosse possível enxergar a tv.

Ainda bem que não me ouviu…

Em 2000, na estreia do Mundial de Clubes contra o South Melbourne, da Austrália, eu estava nas antigas cadeiras do Maracanã, um pouco acima da geral que já encerrara sua vida. Bem na sua reta quando cobrou o lateral para o Juninho, que devolveu de cabeça. Dessa vez eu gritei: ‘Cruza, Jorginho!’.

Me recordo de ouvir o som da bola tocando a testa do Reizinho. Tenho certeza que me ouviu! Está lembrado? Ainda bem que você rolou para trás, na perna esquerda de Felipe, que soltou uma bomba e abriu o caminho para vitória por 2 a 0.

Pois é, parece que você toma decisões melhor do que eu.

O retrospecto está todo ao seu favor. Mas tem um detalhe: nas duas situações você optou por servir alguém, não da maneira mais fácil, mas da forma correta. Poderia ter chutado em todas, mas preferiu passar. E é isso que os vascaínos esperam de você: deixe passar.

Eu sei que o futebol é um negócio, entendo perfeitamente. Também vivo dele – ainda que com números bem mais humildes. Mas, no fim, você não será lembrado pelos negócios que fez, mas sim pelas lembranças que não se privou de ter. Aquelas que nos deu quando jogador. Memórias essas que ainda está a eternizar como treinador.

Um livro pela metade não passa de um punhado de palavras reunidas. É necessário terminar a obra. Sem pressa. Sem capítulos pela metade.

Passe essa bola para outro, Jorginho. No jogo coletivo que tanto preza, fique com os que se aproximam e tabelam com você.

Fica, Jorginho!



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