A beleza da incerteza



Cristóvão não tem mais clima para permanecer no Vasco (foto: Paulo Fernandes/Vasco)

Cristóvão não tem mais clima para permanecer no Vasco (foto: Paulo Fernandes/Vasco)

A ignorância é mesmo uma benção. O desconhecido, o incerto, traz consigo um pacote de esperança embrulhado embaixo do braço e um sorriso quase rasgado no rosto. É uma virgem envolta em uma burca.

É fácil sorrir no primeiro encontro. É quase obrigatório, um ritual preestabelecido por duas partes que sequer se conhecem. Um contrato assinado em pensamento. É da natureza humana ser simpático com quem lhe é apresentado, por mais que em casa, com os de sempre, a cara amarrada, fechada, faça parte da decoração.

Não saber algo é desconhecer também os seus defeitos. Portanto, não há repulsa. Já o conhecimento o limita ao real, não dá brechas para o imaginário. É duro como toda realidade. Não há fantasia.

Ao conhecido, a carranca. Ao novo, a compreensão e o olhar de ternura.

Isso se mostra bem claro no Vasco.

Cristóvão Borges chegou ao clube, em seu retorno, pré-demitido pelo torcedor. Teve seu prazo de validade, já tão curto entre os treinadores, ainda mais reduzido antes mesmo de distribuir os coletes e decidir quem recolherá os cones e quem pegará o saco de laranjas.

Me atrevo a dizer que o bolão da queda do técnico tem sido mais agitado que as próprias partidas do time. Uma rejeição superior até a de Celso Roth, que já largou o clube à deriva em 2010 e, quando retomou o leme, em 2015, o embicou para a Série B.

Na contramão, vem Manga. Um jovem colombiano desconhecido, de língua solta, com aquele castellano arrastado e simpático. Uma versão 2017 de Riascos, só que, dizem – os vídeos -, mais habilidosa.

Antes mesmo de pisar em campo, tem seu nome cobrado entre os 11. Cristóvão é burro por não dar uma chance, reclamam. E ele ganha. Na primeira bola, escorrega, põe a mão na bola e dá um pênalti para o até então inofensivo Vitória que jogava por uma bola. Achou.

Mas não se cobra de quem conheceu ontem. Não há bagagem ou intimidade suficiente para crucificar o desconhecido. A raiva muda para quem o colocou em campo, ainda que fosse um pedido dos mesmos que agora o xingam.

Por um azar de Manga, evidenciou-se o azar de Cristóvão.

Talvez o erro só fosse compartilhado caso Escudero – que deu lugar a Escobar – estivesse na jogada. Outro que é alvo desde que foi servido no Natal como chester, quando na verdade era o salpicão da ceia. Apenas um complemento, não o prato principal.

Cristóvão não tem a vantagem do desconhecido, como Manga. Sabe-se muito bem, por histórico, até onde pode ir. A margem para surpresa é pequena. O elenco também, mas isso é mais difícil de mudar. Portanto, mira-se o alvo mais frágil.

Em parte com razão, em outras não.

O extremismo é sempre maléfico. Achar que o problema do clube é APENAS o treinador, é uma forma de ignorar outras falhas. Inclusive de qualidade no elenco. Ou de planejamento para que o grupo estivesse fechado em menos de três meses. Não está – vide Bruno Paulista.

Tornou-se insustentável a permanência de Cristóvão no Vasco. Em 2012.

Agora, é como um casal que já não espera mais nada um do outro, não se dá bem, briga o tempo todo, mas insiste em tentar, sei lá, para mostrar para os outros que é capaz. Talvez não sejam. É possível que a bagagem já seja pesada demais para continuarem carregando.

Não é pela discussão de hoje, por aquele mal entendido de semana passada ou pelos palavrões ditos no calor do momento. É pela convivência ter se tornado insuportável.

É melhor separar do que seguir brigando.



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