Barbosa, o Maracanaço, o 7 a 1 e o medo de elogiar



Barbosa completaria 97 anos nesta terça (Foto: reprodução)

Nelson Rodrigues escreveu certa vez, antes da Copa de 58, assim: “Desde 50, que o nosso futebol tem o pudor de acreditar em si mesmo.” E seguiu: “E, hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvida: é ainda a frustração de 50 que funciona. Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: o pânico de uma nova e irremediável desilusão.”

Pois troca-se 50 pelo 7 a 1 e vivemos exatamente o mesmo sentimento. Há um medo excessivo de se elogiar a Seleção. Digo até que existe um receio em sorrir diante de uma vitória brasileira. É como se qualquer palavra mais otimista fosse fazer a equipe de Tite desandar em campo. Como se os jogadores que lá estão já não soubessem de suas capacidades, e, por isso, um elogio aqui ou ali o fariam subir em um salto qualquer. Duvido muito.

No dia em que Barbosa, homem que carregou por anos o peso da frustração de uma nação inteira, completaria 97 anos se fosse vivo, o Brasil reencontrou o seu Maracanaço mais recente: a Alemanha. E venceu, com seu goleiro precisando fazer apenas uma defesa para assegurar o 1 a 0. Mérito de um forte sistema defensivo implantado por Tite.

É verdade que os alemães não estavam com força total, mas não dá para reduzir a nada um selecionado que conta com Draxler, Sané, Kroos, Gundogan, Goretzka e cia.

É um sinal de que o Brasil ganhará a Copa? É óbvio que não. Não seria esse o caso nem se tivesse devolvido o placar de 2014 com o time de Joachim Löw completo. Assim como a Argentina não deixa de ser uma das favoritas após ser goleada pela Espanha.

O que fica claro após os últimos amistosos, na verdade, é que o imprevisível continua sendo a grande mágica do futebol. E que os fantasmas conhecidos nem sempre assombram, mas novos podem surgir pelo caminho. Faz parte do esporte.

Em 58, a Seleção desacreditada do jovem Pelé, do velho Didi e do imprevisível Garrincha, levou a taça, trazendo a alegria a milhões que haviam se frustrado oito anos antes. Menos a Barbosa, que seguiu convivendo com a estigma do Maracanaço até sua morte, em 2000. Mesmo tendo sido um dos maiores goleiros do país, passou a ser visto apenas pelo dia do seu insucesso.

O brasileiro parece não conviver bem com suas feridas. Agora, repetimos o erro novamente.

Não há mal algum em elogiar a Seleção. Não é necessário esperar um título mundial para reconhecer que a equipe de Tite hoje é uma das favoritas ao título. O que não significa obrigação de conquista. Um compromisso que não cabe nem para a Alemanha, atual campeã, quem dirá para o Brasil, quarto colocado na última edição.

É importante para a Seleção superar seus fantasmas. Não apenas dentro de campo.

Afinal, se as cinco estrelas no uniforme não embutem nenhuma vantagem em campo, além de respeito e admiração, não seriam as pequenas manchas que a colocariam algumas prateleiras abaixo. Principalmente após as últimas apresentações.

* Trechos de Nelson Rodrigues retirados do livro “O berro impresso das manchetes”.



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