A rosa de crepom



Flamengo e Vasco farão o clássico carioca no fim de semana (Foto: Reprodução)

Flamengo e Vasco farão o clássico carioca no fim de semana (Foto: Reprodução)

Arthur acorda cedo, como de costume, e prepara seu café com calma. Faz parte do seu ritual para despertar às 5 horas da manhã, antes de ir para a fábrica de botões onde trabalha. O cheiro que exala é o mesmo de todos os dias. O sorriso no rosto, porém, vem de outro sabor que conhecera recentemente. O amor.

Há três semanas, foi apresentado à Bianca, uma morena de pele macia e olhos grandes que o hipnotizaram. Ela dançava um forró em São Cristóvão quando seus olhares se encontraram. E ficaram. O sorriso chegou até Arthur mais rápido do que o cheiro do café de todas as manhãs. E suas bocas também logo se acharam.

E dançaram pelo resto da noite.

Arthur a deixou na porta de casa antes que o pai a visse chegando com um desconhecido. Ela roubou um último beijo antes do portão fechar e fazer o velho rangido que avisara sempre que alguém estava entrando. Tímidos, torcendo para ser apenas um até logo, se despediram.

No dia seguinte, não se falaram. Mas queriam. Aos amigos, eram o assunto favorito. No segundo dia, Arthur cede e liga. Bianca atende sem esconder a alegria.

Por quase um minuto apenas riem ao telefone. De nervoso, felicidade e – quem vai negar? – paixão. Não tinham o que dizer, apenas queriam estar próximos. Ainda que conectados apenas pelo som. E pelo coração.

Por dias, não se desgrudaram. Quando não estavam juntos, trocavam mensagens sobre as coisas mais aleatórias possíveis. Qualquer fato novo no cotidiano era motivo para ser compartilhado, dividido, por um sentimento que rapidamente se multiplicava.

Duas semanas depois, no mesmo forró no Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, Arthur decidiu oficializar sua paixão e a pediu em namoro.

Enquanto dançavam com o mesmo sorriso do 1º dia, Anunciação, de Alceu Valença, era tocada por uma banda local. Bianca girava e jogava os cabelos. Arthur, tentando acompanhar a amada, a admirava e a deixava conduzir, preservando lhe a liberdade que sempre sonhou.

Com as pernas um pouco trêmulas, se ajoelha. Ele tira uma pequena rosa feita com papel crepom onde um laço carrega a escrita: “Dança comigo pra sempre?”. Ela o abraça e chora.

Por alguns minutos o forró vira valsa. E todos em volta aplaudem.

O início do namoro é celebrado com conhaque barato e cachaça de milho verde. Tão simples quanto dois pra lá, dois pra cá. Tão pessoal quanto se apaixonar no primeiro olhar.

Romântico, Arthur quer conhecer a família de Bianca e revelar quem é o culpado pelo ranger do portão cada vez mais tarde. E do sorriso cada vez mais cedo.

Ela explica que mora apenas com o pai, pois a mãe faleceu há um ano, vítima de um câncer que a levou rápido demais. Seu Roberto, o pai, demorou para aceitar a perda, mas havia melhorado nos últimos meses após reencontrar velhos hobbies.

Arthur quer almoçar no domingo, em família. Com sua nova, já que seus pais ficaram no interior do estado quando o garoto deixou a casa aos 17 anos para tentar a vida no Rio. No início, voltava todo mês para vê-los. Agora, quatro anos depois, apenas no Natal.

Seu Roberto, porém, já tem planos para o fim de semana e sugere para a filha que marque um jantar na segunda à noite. Ele mesmo prepararia os bolinhos de bacalhau – receita de sua mãe, dona Maria Margarida – para receber o novo genro.

Arthur concorda e avisa Bianca que, para aproveitar o dia livre que terá – algumas vezes fazia hora extra no fim de semana, inclusive aos domingos, para melhorar o salário e enviar algo para ajudar os pais -, irá com os amigos ao estádio para assistir ao jogo do seu time.

Ela concorda e avisa que o esperará em São Cristóvão para mais uma dança. Lhe devolve a rosa de crepom e pede que a leve novamente para o forró. Ele sorri, cola os braços no corpo e a mão próxima ao queixo, como se dançasse sozinho, dá alguns passos e se despede acenando.

Os dois riem da cena e já imaginam o encontro de mais tarde. A saudade começa poucos segundos antes da despedida. E não termina nunca.

Arthur passa rápido em casa, pega a camisa do seu time, liga para os amigos e corre para pegar o ônibus. Faltam poucas horas para o jogo e o encontro com os colegas antes da bola rolar também faz parte do ritual, tal qual o café que lhe dá forças toda manhã antes de encarar as oito horas de pé no trabalho.

No bar de sempre, pede o conhaque que brindou seu amor. E uma cerveja para aliviar o calor.

Ri, grita e canta. Por seus amores. O clube e Bianca.

De repente, um forte estrondo muda o tom do lugar. Um carro canta pneus, enquanto uma lata de lixo passa voando perto da bancada onde está apoiado. Arthur olha para os amigos sem entender muito bem o que está acontecendo e começa a correr.

Na ânsia de atravessar a rua para sair da confusão, é atropelado pelo veículo que havia cantado pneu na esquina anterior. O carro tinha torcedores da equipe rival e entrou pela ‘rua errada’, sendo recebido com garrafadas e chutes.

No chão, Arthur agoniza sem entender o que está acontecendo. Em uma mão, a rosa de crepom. Na outra, o copo de conhaque que tinha o gosto da boca de Bianca.

Quem sai do carro é Seu Roberto, pai de sua amada e motorista que tentava fugir das garrafas que não encheriam seu copo, mas miravam seu corpo. Roberto errou a entrada para seu lado da arquibancada após passar em frente ao parque onde conhecera Eliane, sua esposa falecida, e não conter as lágrimas.

Ainda as enxugava quando o primeiro objeto estourou seu para-brisa.

Tentou chegar até o jovem no chão, mas foi golpeado por trás e caiu. Antônio, que toca triângulo todas as noites no forró de São Cristóvão, foi quem deu o soco. Por puro impulso de um julgamento precipitado.

Antônio lembrava de Arthur por causa de Bianca. Mas jamais havia visto Roberto. Ele ainda não havia dançado com a filha, relutava dizendo que não sabia. Mas prometera que em seu casamento o faria.

Arthur e Roberto finalmente se encontram. No chão.

Jamais chegariam a se conhecer.

Seus olhares se cruzam num breve momento. E ambos pensam em Bianca.

Enquanto isso, ela dança aguardando sua rosa de crepom. Sonha com os bolinhos do pai. Cria em sua mente o encontro dos três.

Por um personagem ‘sem nome’ – o homem que atirou a primeira garrafa -, Bianca terminará a noite sem sonhos. Ela queria abraçar mais uma vez seu coroa. Não a de flores. A rosa que aguardava era a de crepom, não as brancas, de verdade.

Não seja o homem por trás da garrafa.

Seja o Arthur que ama sem brigar. O Roberto que sofre sem gritar. Ou Bianca, que dança apenas por amar.

Não é só futebol mesmo. Somos nós.

E a vida, tão frágil como uma rosa de crepom.



  • Cleber Aguiar

    belíssima crônica!
    Sim, e deveria ser pelo lado amante a tônica de todas estas coisas.
    Somos tão frágeis, tão temporais e com prazo de validade, que se percebermos as coisas do dia a dia com a sensatez de quem ama, apenas amaríamos! Não dói, não machuca, não tem censura. Apenas trás sorrisos, contentamento e felicidade, se experimentado com carinho e devido respeito.
    Vale apena tentar!

  • Denis

    Gostaria de entender porque esse blog veio parar na página do Santos? Que mancada hein!

    • André Schmidt

      Porque é um texto sobre futebol geral. Aliás, nem é sobre futebol, é sobre torcer. Isso engloba todas as torcidas. Abraço.

  • Pedro Henrique

    lixo

  • Cláudio Di Renato

    Grande texto, parabéns. O triste é saber que isso pode acontecer a qualquer momento no futebol de hoje.

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