A medalha que ninguém tira



Seleção feminina não lutará pelo ouro, mas conquistou mais que uma medalha (Foto: Paulo Sergio/Lancepress)

Seleção não lutará pelo ouro, mas conquistou mais que uma medalha (Foto: Paulo Sergio/Lancepress)

Minha filha, em 2014, aos 7 anos:

– Pai, eu posso jogar futebol se eu quiser?

– Claro, filha. Tem escolinha no colégio, quer fazer?

– Eba! Quero sim! Quando eu crescer o Neymar vai ter quantos anos? Será que dá tempo de eu jogar com ele?

– Filha, até que daria tempo de você jogar, mas meninos e meninas não competem juntos.

Uma pausa, um leve olhar de desapontamento e uma nova pergunta:

– Mas se eu pedir para jogar com ele e for muito boa, será que deixam? Ele parece legal.

Sem querer encerrar precocemente um sonho, respondo:

– Acho que até lá as coisas podem mudar, filha, mas o negócio é você se divertir e se dedicar. O resto acontece.

– Deixa comigo, pai. Vão deixar você escrever sobre mim?

– Claro, meu anjo. Se não deixarem eu compro um jornal só pra falar de você.

– Você mente.

– Você que não sabe o que um pai é capaz de fazer pela filha. Se não tiver dinheiro para comprar jornal, monto um site seu. Pode ser?

– Pode. Mas sem aquelas montagens engraçadas que você faz no meu convite de aniversário.

– Nem aquela do iCarly?

– Nãããããããooooo!

– Tá bom…

Dois anos se passaram e a escolinha que só tinha ela de menina ganhou mais três. Jogando com os garotos, sem diferenciação ou treinos separados. Já sabe dominar, tocar e chutar. Joga de igual para igual com qualquer criança de sua idade. E o melhor, se diverte.

Diz ela que só não sabe comemorar gol. Não consegue pular e socar o ar ao mesmo tempo, como fez Bia, sua homônima. Tentei explicar que comemoração vem na hora, é coisa de dentro pra fora, mas pelo olhar desconfiado acho que só entenderá com o tempo.

Combinei de treinar altinho com ela hoje cedo, mas ela ganhou um presente melhor: foi ao Maracanã pela primeira vez. Escolheu a própria roupa: camisa do Brasil, meião e tênis de futsal. Não voltou triste, voltou com perguntas.

– Com quantos anos posso disputar a Olimpíada, pai?

– Acho que 16, filha.

– Falta muito…

– Falta nada, filha. Passa rápido. Tem que treinar.

– Vou treinar. Eu sei que você quer que eu faça natação, mas acho que vai ser futebol mesmo, pai.

– Sem problemas, meu amor. Onde você estiver mais feliz. Quem sabe não disputa nas duas modalidades?

– Será que pode, pai? E se for no mesmo horário, como vou fazer?

– Calma, filha. É só uma sugestão. Continua se divertindo, é o mais importante.

– Mas pai, eu preciso te contar uma coisa…

– Pode falar, filha.

– E se eu não quiser mais jogar com os meninos, eu posso?

– No colégio? Na escolinha ainda não dá, é tudo junto. Mas com 12 anos acho que já tem time da escola só de meninas.

– Não, quando eu estiver grande… Quero jogar com as meninas… Imagina eu fazendo altinho com a Marta, pai, igual a gente faz aqui? Aposto que ela acerta mais do que você.

– Não tenho dúvidas, pequena. Seria lindo.

– Se ela parar antes, pode virar técnica também. E ser minha treinadora. Aí eu aprendo e jogo com ela quando estivermos de folga, né? Vou chamar ela de Tia Marta, igual na escola. Ela pode ir até no meu aniversário! Primeiro pedaço vai ser dela, você já comeu muito…

E o sonho olímpico nasceu em mais uma criança. Essa medalha ninguém tira.



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