Técnico espanhol é demitido do Porto e atinge marca negativa histórica. Entenda o fracasso



O Porto anunciou nesta sexta-feira a saída do técnico Julen Lopetegui. Contratado na temporada passada com a missão de recuperar o time após perder o Campeonato Português para o Benfica, o espanhol sai sem conseguir colocar em prática a boa teoria que tinha em mente. A chave para a falta de sucesso foi que esta ideia não era sua. Daí não tinha o domínio. Mas vamos falar disso mais embaixo. Antes, uma marca histórica negativa para ele.

Com a saída consumada, ele é o primeiro técnico desde 1983 que fica por pelo menos uma temporada completa no Porto e sai sem nenhum troféu. Neste ano, o treinador era o histórico José Maria Pedroto, que em sua segunda passagem pelo Dragão, foi embora de mãos abanando.

E foi justamente depois dele, com António Morais e, principalmente, Artur Jorge, que o Porto iniciou a sua fase vitoriosa comandada pelo presidente Pinto da Costa que dura até hoje. Ou pelo menos durou até antes do início da era Lopetegui. Este segundo técnico citado foi o responsável pela primeira Liga dos Campeões do Dragão, em 1987.

Além de Lopetegui, de 1983 para cá, outros três técnicos, sem contar os interinos, saíram sem títulos: Quinito, Tomislav Ivic (na segunda passagem) e José Couceiro. Além do italiano Luigi Delneri. Mas esse não conta, já que deixou o time antes mesmo de estrear.

Agora vamos falar das causas do fracasso de Lopetegui. Ele fazia parte da estrutura da seleção espanhola. Comandou seleções de base entre 2010 e 2014, e levou duas Eurocopas. A Roja mantém o seu estilo também nas equipes de jovens, e a ideia era implementar isso no Porto.Julen Lopetegui (Foto: Miguel Riopa / AFP)

Tentou. E fez, na verdade. A diferença, é que na Espanha ele tinha a missão de dar essa base aos jogadores. Títulos são importantes. Óbvio. Mas ainda mais era criar jogadores. Por suas mãos passaram valores como De Gea, Alberto Moreno, Illarramendi, Thiago Alcântara, Koke, Tello, Isco, Morata, Rodrigo, Muniai, Paco Alcácer, Jesé, Óliver Torres, Deulofeu, Denis Suárez e Bernat. Nada mau. E é legítimo dar a Lopetegui méritos pelos que fez na Rojita.

Porém, em um clube com alta exigência e muita pressão, tudo é diferente. Ele tentou levar o espírito de jogo, o esquema, e funcionou algumas vezes. O problema era justamente quando não funcionava. Tentou usar algo “emprestado” misturando o que o seu amigo Pep Guardiola e Vicente del Bosque fazem.

Quando algo dava errado, simplesmente não tinha como consertar. Ou não sabia como… Afinal, não era algo que vinha de sua cabeça. Se não dominar totalmente e filosofia de jogo, se não for algo de sua concepção, fica bem mais difícil procurar alternativas em alguma necessidade.Nuno Espírito Santo (Foto: Biel Alino / AFP)

Justiça seja feita: Lopetegui perdeu muitos jogadores importantes no elenco. Em apenas uma tacada, foram embora Danilo, Alex Sandro, Casemiro, Óliver Torres, Jackson Martínez e Quaresma. Apenas este último não era titular absoluto. Mas entrava sempre e era fundamental no elenco. Além de ídolo da torcida. A reposição não foi no mesmo nível, e ele não conseguiu tirar tudo do que tinha em mãos.

Agora a tendência é que venha alguém que conheça a casa. Alguns dos treinadores de mais sucesso do time, como Artur Jorge, José Mourinho e André Villas-Boas assumiram já sabendo o que o clube era. A bola da vez é Nuno Espírito Santo. Assim como Lopetegui, o português nascido em São Tomé e Príncipe era goleiro, e também habituado com o banco de reservas. Ele teve duas passagens pelo Dragão. Na primeira vez como suplente de Vítor Baía, e na segunda, de Helton. Foi técnico do Rio Ave, e estava no Valencia. Conhece bem o vestiário do Dragão, e caso seja confirmado, vai merecer uma publicação aqui. Villas-Boas é outro alvo, mas está no Zenit e só poderia vir na temporada que vem. Veremos…



  • Andre Pereira

    Há vários motivos para que Lopetegui não tenha tido sucesso. Os últimos resultados apenas precipitaram um desfecho inevitável. Em primeiro lugar é muito importante perceber que o técnico basco é excessivamente influenciado pela cultura de futebol espanhol – onde sempre jogou e treinou. O que não é mau. O problema é que nunca percebeu o futebol português e sobretudo a cultura de jogo do FC Porto, o que levou a uma certa descaracterização do clube e na falta de referências – Quaresma sempre foi para ele um empecilho, Rolando foi dispensado e Helton acabou por ser o único com carisma da casa – houve um distanciamento entre treinador e adeptos.

    O seu estilo de jogo era muito influenciado pela La Roja e Guardiola, mas verdadeiramente nunca conseguiu fazer passar as suas ideias para os jogadores, que produziram sempre um futebol pouco atrativo e inconsistente. A equipa tinha posse de bola mas os jogadores pareciam não ter liberdade para dar aso ao seu talento. Era tudo excessivamente mecanizado. E com a sua política de rotatividade – independentemente da forma dos jogadores – terá gerado, acredito, alguma desconfiança dos próprios atletas sobre o técnico. Não sendo pouco, Lopetegui teve sempre muitas dificuldades em mexer durante o jogo. É certo que teve uma percentagem de vitórias muito elevada, mas perdeu todos os jogos fulcrais: na época passada com o Benfica, que lhe daria a liderança no campeonato; com o Sporting para a Taça de Portugal que valeu a eliminação da prova; e foi atropelado em Munique (6-1) depois de ter vencido 2-0 nos quartos-de-final da Liga dos Campeões; já esta temporada perdeu com o Kiev, que lhe valeu ficar dependente de um triunfo em Londres com o Chelsea (com quem perdeu) para se apurar para os oitavos na Champions; com o Marítimo em casa (3-1) que afastou o Porto da Taça da Liga; com o Sporting há uma semana, que lhe valeu a perda da liderança na Liga, e o empate com o Rio Ave, que o atirou para terceiro lugar.

    Pode dizer-se que o basco perdeu muitos jogadores esta temporada, mas é importante lembrar que os investimentos do FC Porto nos últimos dois anos foram os maiores da história do futebol português. Mais. Foi dada Carta Branca a Lopetegui em todas as contratações e na gestão de todas as transferências. Nem Mourinho tinha, no seu tempo, esse privilégio.

    • Thiago Correia

      Boa amigo André. Boa análise. O Lopetegui não conseguia buscar soluções quando precisava. Não houve casamento com a torcida. Grande abraço.

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