Diretor da Chape compara permanência na Série A a título da Champions League



Rui Costa, diretor executivo de futebol da Chapecoense (Foto: Rafael Bressan/Chapecoense)

Diretor de futebol da Chapecoense, Rui Costa entende que são muitos os motivos para celebrar a permanência do clube na Série A do Brasileirão. Quase um ano após a tragédia que matou jogadores, comissão técnica e dirigentes, ele relata os desafios da temporada (como a retomada pós-saída da Libertadores) e vê que foi dada uma justificativa para rejeição por parte do clube da imunidade ao rebaixamento, sugerida à CBF logo após o acidente aéreo.

Qual o tamanho do alívio por terem afastado de vez o risco de rebaixamento em um ano tão difícil, que foi de reconstrução para a Chapecoense?
Eu me sinto campeão de uma Champions League. Para nós, é motivo de orgulho, pelo significado, pela forma como foi, pela expectativa que tinha aqui. E não dá para olhar isso sem lembrar do fato gerador. Tivemos que montar uma estrutura no futebol, houve uma sinergia entre atletas e da torcida com os atletas. Claro que a torcida sente até hoje. Não era para substituir os que se foram, mas conquistar o nosso espaço. Não foi só um processo desportivo. E, ainda que fosse só desportivo, já seria muito difícil. A celebração depois do jogo emocionou a todos porque foi espontânea e da forma que o outro grupo celebrava. Começou naturalmente. Nos sentimos em uma das missões mais difíceis que o futebol mundial pode apresentar.

Quais os fatores, de forma mais direta, que você considera essenciais para essa permanência na elite?
Tem muito a ver com a forma como o grupo foi consolidado. Fomos muito criteriosos. Não deixamos nos pressionar pelo tempo, pela emergência. Fomos muito criteriosos na escolha do perfil dos jogadores. O processo começa na formação do elenco e avança na manutenção. Eu disse que colocaria a mão no fogo por esse grupo. Estávamos na zona do rebaixamento. Eu disse que confiava no trabalho, no perfil do grupo, nas condições de trabalho. O clube paga em dia, tem uma política transparente e foi criterioso na compra de atletas. Essa credibilidade fez com que suportássemos os piores momentos. Passa pelo perfil de atletas que contratamos e a forma como idealizamos o grupo.

O desfecho da temporada é uma prova para justificar aquele posicionamento de rejeitar a imunidade contra rebaixamento, que chegou a ser sugerida após o acidente?
Eu penso que chegar onde chegamos é a prova de uma maturidade e um legado que o clube tinha. A Chapecoense já vinha caminhando com as próprias pernas, com contas resolvidas. Um clube que chegou à final da Sul-Americana e certamente teria um time mais forte se tivesse mantido aquela base. O que mais orgulha é que preenchemos a peça que faltava. Uma peça que foi tirada de uma forma avassaladora. Conseguimos colocar o clube de novo na expectativa de crescimento. Quem sabe no ano que vem o clube possa pensar coisas maiores no campeonato, uma Libertadores, conquistar a hegemonia regional, consolidar a marca da Chapecoense, como vinha acontecendo antes da tragédia. Chegamos à maturidade do clube, sobretudo à confirmação de que o clube se comportou de forma digna nessa reconstrução. Seria muito mais confortável ter imunidade de três anos na Série A, porque a comunidade colocava uma pressão também. É um campeonato duríssimo, com grandes marcas, e estamos em décimo. É um feito que transcende a mera pontuação. É algo que reposiciona a Chapecoense naquilo que ela já vinha fazendo.

Os ombros estão mais leves para ir em busca até da Libertadores nesta reta final? É por aí o planejamento nos últimos jogos?
Tivemos uma participação digna na Libertadores, saímos por uma situação muita delicada. A meta que tínhamos era a ficar na Série A. Desde que o Gilson Kleina chegou, ele teve um papel importante ao dizer que tínhamos que pensar um pouco alto, sem desconectar com a realidade. Temos agora a chance de colocar o clube no cenário internacional, na Sul-Americana. Estar lá de novo na Conmebol. Se for possível ampliar isso, aí é mais um capítulo para o livro, por tudo o que passamos. Para nós, o passo é somar pontos e ter calendário internacional: a Sul-Americana.

Como foi a retomada depois da eliminação na Libertadores, pela forma como foi, via decisão judicial, por escalação irregular?
O momento mais duro para todos nós. A partir dali começou uma crítica interna. A grande performance desportiva que tivemos foi apagada. Mas primeiro cumprimos tudo o que tinha sido acordado financeiramente com os atletas em termos de classificação, porque entendemos que eles tinham feito a parte deles. Isso foi importante pela questão de credibilidade. Os atletas viram que o esforço deles foi reconhecido pelo clube. Aproveitando o ensejo, dissemos a eles que um grupo que foi capaz de fazer o que eles fizeram não poderia esmorecer. Fizemos um processo de reconhecimento dos atletas. Ganhamos do Lanús, que hoje está na final. A parte financeira foi uma iniciativa do clube e não um pedido deles. Foi muito importante a forma que agimos, com veemência e prontidão. O clube não transferiria para os jogadores um ônus que não era deles.

A tragédia vai completar um ano. O quanto ela ainda mexe com o clube e com a cidade?
A vida em Chapecó continua, mas ela jamais vai esquecer. Eu não fazia parte do grupo que certamente tinha o abalo emocional muito maior comparado com o meu. Mas eu, que cheguei de fora e não conhecia o pessoal, eu me abalei. O desafio foi ser racional e profissional, lidando com uma carga emocional gigantesca. Eu entrava na sala e tinha colega chorando pela morte dos queridos. Isso vai acabar um dia? Penso eu que não. O sentimento vai existir enquanto existir a Chapecoense. Mas conseguimos trazer novos convívios para o dia dia, entender que não poderíamos nos culpar por ficarmos alegres. Eles eram alegres também. Queríamos trazer a mesma alegria que eles exportaram, mas o processo não é rápido. Houve constrangimento, mas com o tempo isso foi passando.

O que pensa para o elenco em 2018?
Gostaríamos de manter todo o grupo ou grande parte dele. Estou preparando um relatório para mostrar que o nível de acerto aqui foi extraordinário. Mas não é só uma avaliação minha. É por questões conceituais, da comissão técnica. São atletas que passaram a ser olhados pelo mercado de forma diferente. A primeira etapa é tentar manter a maior parte desse grupo, que já sairíamos em vantagem para o ano que vem. Não sendo possível, já temos atletas monitorados que podem substituir. Vamos ter que trabalhar um grupo mais enxuto.



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