Fala, Autuori: admiração pelo Atlético-PR, crítica à CBF e firmeza com a ‘bandidagem’



Autuori gerencia a parte técnica do futebol do Furacão (Foto: Fabio Wosniak/Atlético-PR)

Como optou por ser gestor e não mais treinador no Atlético-PR, Paulo Autuori passou a evitar os holofotes. As entrevistas são raras, mas nem por isso o trabalho fica menos intenso. Afinal, se antes a cabeça era voltada para o time principal, Autuori agora cuida do sub-14 ao profissional – e em uma relação com a diretoria que ele garante ser muito boa. A lista de funções sofreu alterações, ficou mais ampla, mas o que não muda é a firmeza nos posicionamentos do profissional de 61 anos.

Nesta entrevista à De Prima, o dirigente não se furta de falar sobre a sinergia no Furacão, a necessidade de uma mudança de papel na atuação da CBF (e isso, claro, inclui o calendário) e também sobre a importância de decisões firmes em relação à “bandidagem” – como ele mesmo diz – que entrou no meio da torcida. E o futuro no Atlético-PR, a quem tanto estima? Ainda depende da renovação contratual.

Como está a relação com a diretoria do Atlético-PR, sobretudo depois daquela sua ida e volta por ocasião da demissão do Eduardo Baptista?
Minha relação é excepcional com a direção. Aquela situação foi de algo que eu me prometi: ao iniciar o ciclo de treinador, ele tem que acabar. Quando é interrompido no meio, eu também saio porque a responsabilidade não é só do treinador. Todos os treinadores precisam de alguém que possa estar ao lado deles, blindar em alguns momentos. A vida de técnico é de muita exposição. Eu me propus a isso. Toda vez que acontecer algo assim, vou ter a mesma atitude. Estou em um clube de excelência, com gestão espetacular. O clube funciona de uma maneira em que nada é por acaso. Tudo está conectado. É uma visão sistêmica. As partes têm que entender o próprio papel e o papel dos outros aqui. Isso é o que mais me atrai.

Como tem sido a experiência como gestor, especialmente no que diz respeito à proposta de integração com a base?
Tudo aqui é integrado realmente, não é só na palavra. Sou muito próximo a todas comissões técnicas, desde o sub-14 até o profissional. A ideia do clube é ter um futebol do clube, como um todo. Queremos utilizar as mesmas práticas em todas as categorias, respeitando a pedagogia de cada idade. O jovem da sub-14 é tratado pelos mesmos fisioterapeutas, no mesmo lugar, é tudo integrado. Foi uma ideia que eu tive: todas as comissões técnicas estão no mesmo espaço físico, uma gestão horizontal. Todo mundo tem hierarquias. O objetivo é o futebol do clube que seja ágil nas tomadas de decisão. Se um moleque da sub-19 for para a equipe de cima, nossa missão é ver o que isso vai acarretar.

Que tipo de outras discussões existem dentro desse ambiente?
Estou debatendo temas. Vamos nos reunir com as comissões e debater sobre a posse de bola, que todo mundo fala. A questão é mais profunda. Os profissionais vão ter que expor. A questão é como ter a bola. Vai correr menos, mas há um desgaste cognitivo muito alto. É aquilo do Barcelona do Guardiola. Quando se fala em intensidade, só pensam na parte física. Mas tem a cognitiva, eles tinham que estar pensando o tempo todo. É complexo. Por isso é difícil repetir isso.

Que lições tem aprendido nesse período como gestor?
Em qualquer segmento profissional, você tem ideias. E ao operacionalizá-las, começam a vir coisas que você não espera. É um sistema aberto, que está sempre em construção. Chamamos de modelação sistêmica. Sempre acontece alguma coisa que você precisa dar um ajuste, vai modelando o contorno da ideia. Temos que trabalhar de forma a completá-la.

Alguma situação te surpreendeu, especificamente em relação à base?
Não tem surpresa. Eu me sinto seguro, porque passei por todos os processos dentro do futebol. Fui estagiário, auxiliar da preparação física, auxiliar e depois virei técnico. Fiz administração esportiva. Acho que tenho condições de liderar o trabalho transdisciplinar. É uma cadeia de atuações. Vou ter que trabalhar com vários profissionais das áreas distintas, um grupo grande. Tenho que gerir pessoas e ter uma unidade em relação ao que pensamos sobre o futebol. A dificuldade que eu vejo hoje é planejar no calendário do futebol brasileiro. Você não tem calendário. Estamos projetando ano que vem, todas as categorias. Não se sabe se o campeonato de aspirantes vai ser no primeiro ou no segundo semestre. No apagar das luzes da temporada, me apareceu um campeonato sub-23. É importante demais ter, porque tem um hiato grande quando estoura a idade no sub-19. Essa idade é formação ainda. E o clube fica com jogador sem poder utilizar, desenvolver. Tem que emprestar para jogar em outro clube. Tem que ser debatido como vai ser feito isso. E não foi. Não temos as datas. Na minha função atual, dou muito mais ênfase a esse planejamento. Como técnico, fico p… quando não tem calendário, mas tenho que trabalhar do mesmo jeito.

E já vê frutos no Campeonato de Aspirantes da CBF?
Estamos disputando com o sub-20. Está indo bem a equipe. Mas a pergunta: qual é a motivação que esses jogadores vão ter no final de ano? Um jogo domingo às 20h. De manhã já tem jogos da Europa, à tarde tem Brasileiro. À noite, o cara não quer ver mais aspirante. Tivemos que disputar e entramos com a equipe sub-20 e para eles está sendo uma experiência boa. Ano que vem, com calendário melhor produzido, acho fundamental que tenha.

A base do Atlético-PR também forma pensando em treinar o jogador para usar o gramado sintético?
Ano passado, quando falavam do gramado, eu dizia: “Não tem nada a ver o gramado, é o rendimento da equipe”. Esse ano prova isso o que eu falei. As pessoas esquecem, mas é a realidade. O clube vai ter um miniestádio dentro do complexo com grama sintética. Já tem um indoor com grama sintética. A sub-19 joga na Arena da Baixada, isso é algo natural. As condições que o clube dá aqui são excepcionais.

Na sua função, qual a proximidade de contato com a CBF?
Com a CBF eu tenho muito pouco contato. Até porque eu costumo ser crítico. Não tem a ver com os profissionais que lá estão. Sou crítico porque entendo que a CBF deveria pensar o futebol como um todo e não só a Seleção principal. O futebol brasileiro é muito mais do que isso. Temos o coordenador técnico, da formação, metodológico, eles que fazem o contato. Até porque muitos dos nossos profissionais são requisitados para os cursos da CBF. Mas eu estou sempre aberto. Na hora que for requisitado, estou à disposição. Só sou crítico em relação àquilo que foge até o jogo em si. É pensar futebol de maneira diferente.

Ainda pensa em voltar a ser treinador ou a função de gestor te cativou definitivamente?
Vou fazer 43 anos de futebol, envolvido em várias funções. Deixei claro que, para fora do Brasil – e tenho tido convites para ser técnico- não tenho problema em ser técnico. No Brasil, não me vejo sendo técnico. Também vejo poucos clubes com condições de desenvolver o trabalho que desenvolvo aqui. Deixei claro que não seria técnico no Brasil e me mantenho nessa posição, embora existam sondagens para que eu possa voltar.

Esses convites são de que mercado? Oriente Médio, Ásia?
O único treinador que pode pensar em treinar fora do Brasil, na Europa, é Tite. Não por falta de qualidade ou capacidade, mas é como o mercado vê os treinadores brasileiros.

Entende que mais técnicos deveriam ir para essa carreira da gestão e não só ficarem à beira do campo?
Acho fundamental que técnicos e jogadores se preparem para isso também. Não precisam nem parar. Antes de parar, já podem começar. Acho fundamental. O gerir pessoas, saber particularidades do futebol, ter coragem para tomar atitudes… O dirigente amador tem o negócio dele, a profissão fora. É sempre muito duvidoso na hora de acarretar decisões por que pode acarretar problemas para a empresa, carreira política. O cara que é profissional do futebol é dali mesmo, tem que fazer as coisas para continuar bem no mercado. É fundamental que mais pessoas que vivenciaram o campo possam estar no futebol. Minha referencia é o Bayern. Quem tem que tomar conta do clube é quem foi do futebol. Falo sempre para os jogadores. O cara não pode jogar fora toda uma carreira dentro do campo, a vivência.

Dá para garantir a permanência do Fabiano Soares como técnico do Atlético-PR em 2018?
Falar de 2018 é complicado porque meu contrato com o clube termina agora, em dezembro. Também estou a pensar sobre que vai ser o meu futuro. Tenho algumas propostas para sair, voltar a ser técnico fora do Brasil, mas há um interesse do clube. Vou sempre falar bem do Atlético-PR. Meu contrato termina em dezembro. Logicamente, ficando aqui eu tenho autonomia. E o futuro não tem que ser mudado em nada. Há de se ter continuidade. Não vou fazer alguma coisa da qual eu sou crítico. Vou sempre dar apoio. Os técnicos têm que parar de ser os únicos culpados. Vou trabalhar nesse sentido. Mas repito, temos conversado sobre renovação do meu contrato, mas ainda não posso cravar absolutamente nada.

Como está a relação com a torcida do Atlético-PR? Vemos boicote, estádio vazio. Recentemente, teve vaias ao Zé Ivaldo, um jovem que perdeu pênalti, e você veio intervir em uma coletiva…
Isso é um grande problema no futebol brasileiro porque você desperdiça talentos por isso. Posso assegurar que, no mundo top do futebol, os caras fazem contrato de cinco anos e só decidem se o cara vai ficar em três anos. Aqui, em dois jogos, é herói ou é vilão. Vendo a TV, falavam de manhã que o Alberto Valentim é sensação. À tarde, que talvez não esteja preparado. Tem que acabar com isso. O problema da torcida é que o clube é forte na tomada de decisão em relação à organizada. Até porque uma coisa é torcida e outra é bandidagem. Tem que parar com essa palhaçada de invadir treino, o local de trabalho. Coisa desportiva tem que ser tratada desportivamente. Tem que ter alguém com coragem para acabar com esse negócio que fizeram com o Botafogo, ir no aeroporto. Bandidos só se garantem porque estão bando. Sozinhos não fazem nada. Tem que ter alguém com coragem para tomar decisão. E isso foi feito aqui. Ainda tem a biometria, que é o caminho do futuro e sem volta. São medidas impopulares no momento, mas coisas que serão importantes no futuro. O problema no Brasil é o populismo. Só se quer falar o que as pessoas vão querer ouvir. Falta coragem para as pessoas tomarem decisões. No mais, os verdadeiros torcedores vão ao jogo. Essa situação já aconteceu antes, mas mais para frente melhora.



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