Do corte de Prass a Neymar: Coordenador conta bastidores 1 ano após ouro olímpico



Erasmo Damiani foi coordenador da base (Foto: Lucas FigueiredoCBF)

Erasmo Damiani foi coordenador da base (Foto: Lucas FigueiredoCBF)

Na véspera do aniversário de um ano do ouro olímpico no futebol, De Prima conversa com o coordenador da Seleção na campanha na Rio-2016. Erasmo Damiani analisa reflexos da conquista e conta bastidores sobre a relação com Neymar, Del Nero e a escolha do goleiro que virou herói na decisão.

Demitido da CBF com o técnico Rogério Micale após campanha ruim no Sul-Americano sub-20 no começo do ano, Damiani ainda mostra preocupação com a competição que, hoje, serve de seletiva para a classificação à disputa em Tóquio-2020.

O ouro olímpico teve o efeito no futebol brasileiro que você imaginava que teria?
Em termos de conquista, fortalecimento do futebol brasileiro, da volta da marca do futebol brasileiro a nível mundial, ajudou muito. Era um título que faltava. O  ouro ajudou o Brasil a voltar a ficar no topo e mostrou que o país não estava parado, principalmente no que diz respeito à revelação de nomes para o mundo. A olimpíada ajudou muito o Gabriel Jesus e outros que vieram para as convocações do Tite. O ouro valorizou muito alguns jogadores. Mas acho que, internamente, esse efeito ainda está engatinhando. Nosso futebol, em um todo, está muito burocrático.

O que foi o diferencial na preparação?
O que conseguimos em 34 dias, de 18 de julho a 20 de agosto, foi um grupo muito coeso, fechado. Mesmo no momento de incerteza depois do segundo jogo, que passou pela torcida, pela imprensa, mas lá dentro não tínhamos. Achávamos que chegaríamos longe, ninguém se abateu. Um exemplo é que já chegando ao último dia de competição teve jogador falando que era uma pena que estava terminando. Eles queriam mais ainda, acho que isso foi fundamental. Foi uma pressão muito grande, porque o Brasil nunca tinha ganhado medalha de ouro e ainda uma final no Maracanã, contra a Alemanha.

Por que dois jogos tão ruins? Olhando a parte do entorno da coisa, não só o argumento de que a bola não entrou…
Em Brasília, o clima ainda da época do impeachment. Vivia um clima diferente. Acho que tinha um pouco disso, era estranho. Não é questão de a bola entrar ou não. Não é que não houve empatia, mas tinha coisa diferente. Em Salvador, foi uma outra recepção. Acho que tinha um pouco da pressão também. Neymar vinha de férias, voltando, todo mundo querendo que ele fizesse a diferença. Aí a bola não entra, tem uma pressão que vem de fora para dentro. Tirando os 3 acima de 23, eram jogadores ainda novos. Houve uma pressão, sim. Mesmo se tivéssemos ganhado de 1 a 0, ficaria a imagem de que teríamos que ter goleado o Iraque.

Vou te ser repetitivo: Qual foi, de fato, a atuação do Tite durante a Rio-2016?
O Tite esteve acompanhando os treinos na Granja Comary. Para os jogos, ele chegava no dia. Passava lá e ia embora. Almoçou, jantou… Quem ficava mais com a gente foi o Cleber Xavier, o auxiliar. Ele ficou mais lá na Granja e na viagem. Tite conversava com Micale no almoço. E não houve, que eu saiba, interferência. Teve a ida, conversa, almoço. Assim também como o presidente Marco Polo foi, o Edu Gaspar foi. Não teve a entrada e dizer “faz isso, faz aquilo“. Não teve interferência.

E Del Nero? Chegou a dar um ultimato depois do segundo jogo?
Teve gente dizendo que o presidente tinha ligado cobrando. Desde o começo, quando o presidente colocou o Micale e a mim, ele sempre foi muito tranquilo. Nunca interferiu em convocação. Quando estávamos no momento ruim, ele ligava para passar tranquilidade para nós, dizendo que acreditavam no que estava sendo feito. Não houve cobrança, dizendo que se não ganhávamos estaríamos fora. Obviamente, se caíssemos na fase de grupos, o presidente poderia tomar uma decisão. Mas não teve nunca uma cobrança dele. Sempre esteve ao nosso lado. Ele estava sempre ciente das coisas.

Como foi o processo de corte do Fernando Prass e o chamado do Weverton?
Primeiro, o processo da convocação foi desgastante. Uns jogadores diziam que iam, mas não tinham certeza. Acima de 23 anos, tínhamos Prass, Neymar e Renato Augusto, que entrou no lugar do Douglas Costa, que se machucou. O Prass se machucou em um sábado. À noite, tivemos a confirmação que seria cortado. Tínhamos conversado na quinta-feira anterior e levantamos a situação do Prass: se não tivesse condições, se machucasse… E o Micale disse que o nome era o Weverton. Mas começamos a fazer uma consulta na Fifa para saber a possibilidade de incluir eventualmente um jogador que não tivesse na lista prévia de 35. A Fifa, até então, não disse nem que sim nem que não. No sábado, quando o Prass se machucou, falamos com o Diego Alves, que estava na relação dos 35. Aí eu liguei para ele, perguntei se estaria liberado. Ele disse que daria retorno. Eu abri o jogo com ele. O Diego, depois, falou que o Valencia não queria liberar, mas estava pressionando. Abaixo de 23 anos, o nome era o Jean, do Bahia, e depois o Jordi, do Vasco. E a Fifa não respondia. Quando foi 16h eu comecei a ligar para o Atlético-PR e também não conseguia falar. Quando deu 17h, a Fifa autorizou a inclusão de mais um jogador fora da lista de 35. Mas a relação tinha que chegar a ela, com toda documentação, às 19h. Tínhamos duas horas. Era 17h40 e eu tentando ligar ainda. Acionei um amigo de Curitiba, que falou que estavam voltando de Recife. 17h50 chegou a mensagem do Paulo Carneiro, diretor de futebol do Atlético. Liguei e avisei que estava convocando o goleiro. Deu 18h50 e chegou toda a documentação para mandarmos para a Fifa. Foram menos de 24h muito intensas. Não estava tranquilo. A vida tem histórias que você conta e… poderia não ter o ouro.

Como foi o comportamento do Neymar internamente, já que ele vinha de um momento conturbado na Seleção?
Desde 21 de agosto, eu sempre vou tentar defender o Neymar, pelos 34 dias que convivi com ele. Falavam muita coisa. Internamente falamos que iríamos esperar para ver o dia a dia. Fora de campo foi muito mais tranquilo do que dentro de campo. Ele foi muito profissional. Muitos jogadores o tinham como ídolo. Ele é quem puxava o pessoal para tirar foto no treino aberto à torcida. Para nós, foi muito tranquilo. Na véspera da final, eles ficaram presos no elevador ele, Luan, Gabriel Jesus, Gabigol. Neymar saiu brincando, rindo, dizendo que ninguém iria tirá-lo da final. Se o ambiente não tivesse tão bom, não ia ter nada disso. Ele estava querendo muito, era líder. Não tivemos problema algum. Tudo foi muito tranquilo porque foi muito transparente.

Acha que o torneio de futebol terá a mesma importância em Tóquio-2020?
Depende primeiro do desempenho daqui a dois anos, porque participa de uma eliminatória em que campeão e vice do Sul-Americano sub-20 vão para a Olimpíada. Nos últimos três sul-americanos, em 2013 o Brasil não foi ao Mundial, em 2015, foi quarto e, em 2017, não foi ao Mundial de novo. Nos últimos seis anos, só 2011 o time foi campeão. É uma preocupação. Quem classifica a Seleção olímpica é a seleção dos nascidos até 1999. Alguns jogadores não vão disputar. Vão classificar o Brasil, espero, e não vão jogar. Vai ser a 97, 98… Tem a dificuldade que os clubes lá de fora e até daqui do Brasil não liberam os jogadores para treinamento, só em datas Fifa. No Sul-Americano, encontramos equipes adversárias que tinham jogadores com muito mais experiência na seleção.

Como vê o aproveitamento de jogadores sub-23 no Brasil?
Infelizmente, é uma questão cultural, não é de hoje: o Brasil tem sub-15, 17 e 20. E esquece sub-21, sub-23, porque o mercado sul-americano estabelece isso também. O que a Conmebol faz é reproduzido nos países sul-americanos. Na Uefa, ela se preocupa com todos. Se tivesse uma competição sub-23, não precisa ser todos os jogadores, pode ter até menos idade, para ajudar a amadurecer com grandes jogos. Às vezes é melhor do que emprestar para um clube pelo qual ele não vai entrar em campo. A CBF tem que entender que isso também é benéfico para a instituição. Os clubes têm ver como um investimento. Você acompanhar o jogador ao vivo, continuando a ter o treinamento que o profissional faz. Se precisar de um jogador de determinada posição, é só puxar. E tem a parte comercial também, porque tem olheiros de clubes europeus rodando o Brasil. Não adianta também a CBF ter interesse e o clube achar que é só mais um gasto.



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